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Volume 59 nº 4 - 2025 | Trans(forma)ações

Sumário (Clique nos títulos para acessar editorial ou resumos disponíveis)

Editorial

Trans(forma)ações

Ela tem cara de mulher
Ela tem corpo de mulher
Ela tem jeito
Tem bunda
Tem peito
E o pau de mulher
linn da quebrada
A teoria é boa,
mas não impede que as coisas existam.

J.M. CHARCOT

A experiência transidentitária nos obriga a ver mais claramente algumas naturalizações que operamos sem perceber. Ao perturbar a coerência sexo-gênero, ela nos desacomoda e nos lança a pensar sobre ambiguidades, trânsitos, transições, mobilidades, plasticidades: elementos que abrem passagem para refletir acerca das posições psíquicas singulares, com assinaturas únicas em cada um.
Todo sujeito nascente precisa subjetivar um corpo próprio, pulsional e em relação com outros também pulsionalizados, e assim inventar modos de existir. Cada um o construirá sobre um suporte material anatômico, mas não restrito a ele. É nesse entrelaço – familiar, cultural, histórico – que se inscreve a resposta singular de toda subjetivação. O curioso é que certas formas de ser parecem mais naturais que outras, causam menos estranhamento e nos fazem esquecer que também são tecidas nesse emaranhado de encontros, marcas, sensorialidades e códigos culturais.
Não há corpo que não precise ser conquistado, criado, inventado. Até mesmo o que conforma a norma é construído, e o sentimento de habitá-lo, conquistado. Na natureza, entre os animais, não se encontram homens e mulheres, mas machos, fêmeas, intersexuais. O caminho para ser homem, mulher, trans, não binário é longo e autoral, e é preciso reconhecer que essas categorias, sendo criações culturais, podem se reorganizar, abrindo espaço a outros modos de corporificação e de ancoragem do sexual perverso-polimorfo. É nesse contexto que a experiência trans vem se afirmar.
Freud já propunha que é “como se um indivíduo não fosse homem ou mulher, mas sempre fosse ambos – simplesmente um pouco mais de um do que de outro” (1933/1990, p. 141), e que a psicanálise não podia explicar o que é uma mulher (ou um homem), mas acompanhar o processo por meio do qual eles se tornam. No entanto, se é verdade que a psicanálise sempre esteve atenta aos efeitos da moral sexual sobre os sujeitos, não é possível imaginar os psicanalistas especial e seletivamente poupados do ideal social hegemônico cis-heteronormativo. Os que exercem e constroem a psicanálise também são atravessados por seu inconsciente e seus modos de significar as diferenças.
Seu compromisso com o método e com uma ética da escuta singular implica esforço autorreflexivo constante.
Os estudos queer, com os quais a psicanálise vem tecendo fértil interlocução, têm nos ensinado a reconhecer vivências que escapam à ordem binária dos corpos. O que elas dão a ver sobre a capacidade poietica humana não restringe seus efeitos a alguns modos de organizar os corpos; antes, abarca a vastidão de possibilidades inventivas encobertas quando das soluções não dissidentes.
É tempo, portanto, de repensar onde nossas expectativas obstruem o fazer analítico; de indagar em que pontos a metapsicologia pede revisão para seguir o pulso múltiplo da clínica e em quais outros ela justamente é instrumento decisivo para acompanhar a singularidade subjetiva humana; de escutar como os arranjos sexuais e de gênero dissidentes interpelam e podem solicitar elaborações contratransferenciais na direção de uma atuação afinada à ética psicanalítica; e de reafirmar nosso compromisso com o espírito analítico de
aposta viva na invenção de modos plurais de subjetivação, mesmo quando desestabilizem nossos pressupostos teóricos.
Neste número, psicanalistas trans e analistas de pessoas trans põem teoria e clínica em movimento e nos oferecem um panorama sensível e potente, que ilumina tanto as múltiplas formas de corporificação quanto as normas de ordenamento que atravessam e colorem nossa cultura.
Além dos artigos temáticos, na seção “Diálogos” contamos com o trabalho “Sem amarras”, de Angélica Almada Horta Montero e Silvana Rodrigues de Barros, comentado por Sergio Lewkowicz e Paula Freitas Ramalho da Silva. Na seção “Interface”, a antropóloga Natânia Lopes assina “Comer o analista, ou ‘Por que você não tenta fazer análise com uma mulher?’”. Em “História da psicanálise”, Felippe Lattanzio apresenta “A pré-história do conceito de gênero, suas relações com o feminismo e com a psicanálise”. Também compõem o número trabalhos de temas livres e os premiados pela Febrapsi e pela RBP no 30º Congresso Brasileiro de Psicanálise.
Desejamos que os textos aqui reunidos estimulem o debate, ampliem as perspectivas teórico-clínicas e despertem o desejo de pensar junto e seguir elaborando.

Referências
Freud, S. (1990). Feminilidade. In S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (J. Salomão, Trad., Vol. 22, pp. 139-165). Imago. (Trabalho original publicado em 1933)

Temáticos

A experiência transexual, atravessada por olhares acusatórios e normas repressivas, revela o quanto a subjetividade é moldada pelo peso da alteridade social. Desde a infância, a tentativa de inscrever no corpo gestos de invenção é frequentemente punida como transgressão. A partir de vinhetas clínicas e de uma articulação teórica com Freud, Foucault, Ceccarelli, Winnicott e outros, o autor discute os modos pelos quais a transformação identitária se encontra submetida a mecanismos de vigilância, disciplina, violência simbólica e falso self. Defende que a ética psicanalítica não deve ser a de confirmar ou interditar, mas a de sustentar a travessia singular de cada sujeito, reconhecendo a invenção como ato de resistência e criação de si.
Palavras-chave: psicanálise, transexualidade, invenção de si, norma, resistência

Usando a teoria da filosofia e dos estudos de raças, a autora explora as confusões e as representações que podem surgir ao trabalhar com pacientes transgênero e não binários. Apresenta materiais de casos para explorar in vivo o potencial para representações e ansiedade tóxica no analista ao trabalhar com pacientes que exploram ou vivenciam novas formas de desejo e identidade. Estados primitivos de ansiedade e disforia podem inibir as capacidades do analista para permitir liberdade e reflexão em casos de construção complexa de gênero.
Palavras-chave: contratransferência, fragilidade, transgênero, não binário, alteridade

Nas últimas décadas, muito se debateu em psicanálise sobre as questões trans, mas poucos esforços foram despendidos para compreender os processos psíquicos referentes a um sistema cisgênero. A partir do diálogo da psicanálise com estudos transfeministas e decoloniais, as autoras se propõem a pensar a cisnormatividade enquanto sistema que historicamente estrutura as sociedades ocidentais e uma inteligibilidade baseada na premissa de que haveria uma coerência entre sexo e gênero. A revisão de literatura indica que a cisnormatividade leva à produção de discursos patologizantes das transidentidades, atravessa a formação profissional de psicólogos e psicanalistas, e produz efeitos na transferência. Um giro epistemológico é necessário para ocorrer o abandono de um posicionamento conservador hegemônico entre psicanalistas e a transição a uma práxis crítica e contemporânea.
Palavras-chave: cisgênero, psicanálise, gênero

Os autores discutem a escuta psicanalítica das transidentidades e propõem um dispositivo ético, cinco gestos de baliza, que repensa os objetivos do tratamento. A partir da figura do corpo trans*, questionam a patologização histórica e apresentam cinco gestos fundamentais para uma escuta ética: renunciar à anterioridade da teoria diante da fala do analisante; reconhecer a necessidade de novas ferramentas simbólicas e teóricas; recusar a lógica diagnóstica e a associação direta entre sofrimento e dissidência; desarticular a norma sexo-gênero-desejo; e manter atenção crítica à contratransferência. Esses gestos permitem uma escuta aberta à singularidade e à produção simbólica das vidas trans*, configurando a análise como espaço de experimentação ética e invenção de modos de existir.
Os autores defendem, ainda, a importância de escutar a produção cultural das transidentidades como forma legítima de saber, convocando o analista a implicar-se eticamente em sua época.
Palavras-chave: psicanálise, transidentidades, escuta, ética, subjetividade

A autora busca compreender, de um ponto de vista psicanalítico, as transformações socioculturais que levaram ao declínio do patriarcado e ao surgimento das sexualidades dissidentes. Na primeira parte do texto, aborda o processo de subjetivação masculina pautado pela norma falocêntrica. O tema é tratado a partir da fantasia de virilidade, do patriarcado, do machismo estrutural e do embrutecimento fálico. Os impasses da condição masculina são ilustrados com a autoficção de Édouard Louis. Na segunda parte, a autora desenvolve a hipótese de que os movimentos feministas, antirracistas e lgbtqia+ produziram um efeito disrup-
tivo/analítico em relação ao campo da masculinidade hegemônica graças à visibilidade dos corpos dissidentes. A saída coletiva do que nomeia O Grande Armário da História desestabilizou os pressupostos simbólicos que sustentavam o patriarcado, revelando a arbitrariedade da norma heterossexual. Formas de gozo até então proscritas, e relegadas à periferia do sistema, retornam, em vórtice, como representações possíveis, gerando “o tumulto das diferenças”.
Palavras-chave: masculinidade hegemônica, patriarcado, machismo estrutural, visibilidade dos corpos dissidentes, sexualidades dissidentes

O autor propõe uma reflexão sobre a crise das categorias de inteligibilidade do sujeito, articulando a metapsicologia psicanalítica, o construcionismo de gênero e a crítica literária. Baseia-se nas contribuições de Judith Butler, Jacques André, Paul B. Preciado, Patrícia Porchat, Jean Laplanche, André Green e Sigmund Freud. Concentra sua análise no conflito estrutural entre a suposta verdade natural dos sexos e a verdade íntima do sujeito, conflito metaforizado pela imagem da “faca que só tivesse lâmina” de João Cabral de Melo Neto. Argumenta que o objeto cabralino metaforiza o Sexual em sua crueza não simbolizável e a realidade que, ao ser apreendida, faz a imagem rebentar. A clínica contemporânea é convocada a desobstruir a escuta do Sexual, reconhecendo a limitação da linguagem e acolhendo a pluralidade da Erótica, sem recair em normatizações.
Palavras-chave: gênero, inconsciente, Sexual, João Cabral de Melo Neto, limitação da linguagem

A autora propõe reflexões sobre a linearidade e a fluidez dos processos identificatórios presentes na experiência da identidade de gênero. Utiliza a matriz teórica kleiniana, a partir de relações conceituais entre a cena primária e a figura parental combinada, e do movimento dialético entre as posições esquizoparanoide e depressiva. Justifica a escolha dessa abordagem por considerar que ela contribui para o diálogo entre a teoria psicanalítica e a teoria queer. Acredita que, com esse diálogo, a prática da clínica psicanalítica poderá, por meio de seus próprios recursos conceituais, posicionar-se em relação às demandas de sua época.
Palavras-chave: gênero, identificação, teoria queer, clínica psicanalítica

Neste artigo, o autor propõe articular a teoria kleiniana à compreensão da barbárie dirigida a pessoas trans, tendo como ponto de partida o alarmante índice de mortes violentas dessa população no Brasil. Argumenta que corpos trans, ao reunirem dimensões culturalmente lidas como masculinas e femininas, reativam fantasias arcaicas de invasão e destrutividade, relacionadas à figura dos pais combinados. Defende que a transfobia não decorre apenas de fatores socioculturais, mas sobretudo de mecanismos inconscientes que organizam a relação com a diferença. Por fim, afirma que a psicanálise deve assumir uma posição ética: acolher processos de simbolização que transformem a diferença em potência criativa, em vez de reduzi-la à patologização.
Palavras-chave: psicanálise, Melanie Klein, gênero, transfobia, transexualidade

O autor faz uma revisão crítica do impacto dos aportes freudianos sobre a sexualidade na cultura, nas instituições psicanalíticas e em seus congressos e publicações. Através da análise de temas recorrentes ligados à sexualidade, como sexo, gênero, masculino/feminino e, especialmente, orientação sexual, discute de que modo a psicanálise, entre avanços e recuos, foi construindo suas elaborações teóricas. Seu foco recai na maneira como a homossexualidade foi pensada por Freud e nas repercussões institucionais desse debate, em particular a resistência à presença de homossexuais assumidos nos espaços institucionais. Trabalha com a hipótese de que a escuta psicanalítica nem sempre se mostra preparada para lidar com as singularidades da população lgbtqia+, historicamente mal compreendida. Por fim, sustenta que as instituições devem funcionar como enquadres simbólicos, conforme a concepção de Bleger, para sustentar processos de elaboração coletiva e oferecer continência às tensões que emergem das diferenças, em especial aquelas ligadas à sexualidade e à identidade.
Palavras-chave: sexualidades, história psicanalítica, instituições, publicações, transformações

Neste artigo sobre a clínica psicanalítica, a autora propõe-se a abordar a questão das transidentidades e das dissidências de gênero, apresentando duas histórias que se sucedem. A primeira, de cunho mais coletivo, narra a experiência única que representou abrir um serviço de atendimento psicológico e psicanalítico no âmbito da saúde pública. A segunda consiste em um caso clínico que ilustra, em parte, os árduos caminhos da transição de gênero. Dessa experiência emerge uma perspectiva inovadora, que desafia a psicanálise a emancipar-se dos discursos sociopolíticos e econômicos, instigando uma reavaliação crítica de suas bases teóricas e clínicas diante de múltiplas e mutantes sexualidades que atravessam o tecido social.
Palavras-chave: clínica, dissidências de gênero, interseccionalidade, realidade social

Prêmios

A autora parte de uma experiência clínica durante a pandemia em 2020 para refletir sobre o traumático conforme vivido por analista e paciente no processo psicanalítico. Propõe uma breve discussão acerca do conceito de trauma, levantando questões sobre causalidade em psicanálise, formas de trabalhar nesses núcleos e áreas que possam ser irredutíveis. Destaca o paradoxal da posição da analista nesse contexto, em que, para preservar a possibilidade de o paciente seguir vivendo, precisava ser a guardiã de seu direito de morrer quando não suportasse mais o sofrimento. Com base na perspectiva dos recursos técnicos disponíveis para a tarefa analítica, ressalta e discute a intensidade das emoções vividas nesse período e o trabalho permanente de compreensão do clima emocional na sessão. Tangencia o tema da morte assistida a partir do contexto do caso apresentado.
Palavras-chave: trauma, traumático, causalidade, clima emocional, técnica psicanalítica

A autora propõe uma reflexão sobre os desafios contemporâneos da transmissão da psicanálise, buscando uma articulação entre tradição e inovação. Partindo da herança freudiana, e levando em consideração o contexto brasileiro, destaca a ideia de que cada época produz suas próprias subjetividades e que a psicanálise, enquanto prática e teoria, passa por constantes reinvenções. O contexto atual em que se desenvolve a transmissão é marcado por transformações tecnológicas, mudanças nas relações sociais e debates sobre gênero, raça e classe. Tais questionamentos sugerem, em alguns casos, uma revisão das teorias mais clássicas. Assim, a complexa tarefa daqueles que se ocupam em passar o legado psicanalítico para as novas gerações consiste em dialogar com os desafios do presente, sem perder o vínculo com seus fundamentos.
Palavras-chave: formação psicanalítica, tradição, inovação, tecnologia

Mediante a apresentação e discussão de um caso clínico, a autora procura abordar o modo pelo qual o que se configura como uma mente retirante, com notável desengajamento emocional, pode estar associado a experiências primevas com um continente aqui designado como flácido. Ao longo do texto, busca delinear a natureza de tal flacidez, como a capacidade de fagocitar o contido – e também seus efeitos, entre eles o de provocar o que denomina de tanatose psíquica. O trabalho com o paciente, baseado no que chama de mutualidade interessada, torna possível a emergência dos elementos arcaicos, fortemente marcados pela presença de sinais do funcionamento corporal, e a partir daí a criação de um terreno mais fértil para os processos de subjetivação.
Palavras-chave: agonias primitivas, clínica do arcaico, continente flácido, relação continente-contido, objetos primários

A autora propõe uma leitura psicanalítica do filme Persona, de Ingmar Bergman, à luz da temática da sexualidade e da maternidade como imperativo cultural. A partir da relação entre Alma e Elisabet – interpretada como construção especular e dupla imaginária –, analisa o silêncio da atriz como resistência subjetiva frente à imposição da função materna. O filme evidencia a cisão entre o desejo singular da mulher e os papéis sociais que a reduzem à maternidade compulsória. O silêncio, como negativo, é discutido como expressão da recusa simbólica e tentativa de reorganização psíquica. Alma, enquanto duplo transferencial, sustenta esse indizível, funcionando como continente psíquico. Persona, assim, torna-se um campo fértil para pensar o feminino fora da lógica fálica, abrindo espaço para a ética do desejo. O silêncio de Elisabet é um gesto de negação que, paradoxalmente, afirma um desejo singular e aponta para uma ética possível diante do real do corpo e da impossibilidade de dizer tudo. Como um ato político, revela a insustentabilidade da maternidade como destino obrigatório e, longe de ser ausência, emerge como linguagem densa e ética, capaz de confrontar a normatividade.
Palavras-chave: Persona, duplo, silêncio, maternidade, feminino

O autor se baseia na ideia de que forjamos a cultura que nos forja. Com uma abordagem crítica, histórica e epistemológica, e partindo de uma atitude clínica perante a vida cotidiana e a escuta dos gritos da cultura contemporânea, busca qual seria a contribuição metapsicológica realmente significativa para as atuais discussões acerca da identidade, do gênero, e sobretudo das transidentidades. No mesmo vetor, explora como essas discussões interpelam o psicanalista em seus dispositivos teórico e clínico, e em seu posicionamento ético perante o sujeito engendrado pela própria cultura psicanalítica – o sujeito psicanalítico. Desse modo, privilegia o sexual enquanto qualitativo da noção de pulsão, entendida como lâmina capaz de deslocar a dicotomia cultura-natureza para além do paradigma naturalista inaugurado no século 19, convocando a psicanálise – enquanto ciência apoiada em tal paradigma – a se deitar em seu próprio divã e a lidar com o sexual em si e com o campo político do qual participa.
Palavras-chave: sexual, gênero, cultura psicanalítica, política, identidade

Diálogos

As autoras partem da metáfora da navegação em mar aberto para refletir sobre a clínica psicanalítica com adolescentes que vivenciam experiências dissidentes de gênero e sexualidade. A partir da vinheta clínica de Leo, jovem de 13 anos, discutem os impasses subjetivos e familiares diante da identidade e da expressão de gênero, bem como os efeitos do silenciamento parental. Articulam a universalidade da sexualidade infantil em Freud e Laplanche, as contribuições de autores contemporâneos (Ogden, Saketopoulou, Gherovici, Ayouch, Posadas) e o diálogo com a teoria queer (Butler, Preciado). Defendem uma escuta analítica desarmada, capaz de acolher a alteridade radical e sustentar os lampejos criativos do adolescente em sua travessia.
Palavras-chave: adolescência, gênero, sexualidade, clínica psicanalítica contemporânea, alteridade

Interface

A autora propõe uma reflexão sobre a transferência erótica na clínica (inclusive, ou sobretudo, no aspecto da contratransferência), de maneira articulada às ficções ou fantasias de gênero e sexualidade. Pretende, a partir daí, contribuir para abrir as possibilidades de escuta para uma teorização, baseada na clínica, da questão trans e das sexualidades dissidentes, que vêm interrogando a psicanálise e os psicanalistas nos últimos anos, estabelecendo-se como pontos fundamentais do debate público e das pautas culturais e políticas.
Palavras-chave: desejo do analista, transferência erótica, amor, sexo, gênero

Tema livre

Os autores realizam um estado da arte sobre o tempo na teoria psicanalítica. Esmiúçam a descoberta freudiana de uma temporalidade própria ao psiquismo. A partir disso, destacam as continuidades da matriz teórica freudiana relativa ao tempo, nos eixos da escola francesa e da escola inglesa, aqui representadas pelas contribuições de Lacan e Winnicott. Dessa forma, considerando as divergências próprias a essas vertentes, apresentam diferentes propostas psicanalíticas de rompimento com a cronologia, enquanto mantêm preservada a sua referência.
Palavras-chave: tempo, nachträglich, tempo lógico, espaço-tempo potencial

A autora apresenta reflexões sobre a relevância da integração entre narrativas psicanalíticas e narrativas literárias e a ampliação de seus efeitos para a compreensão das narrativas sentidas e vividas nas sessões de análise e no desenvolvimento de um vocabulário singular para a comunicação da dupla. Usa o termo interdigitação entre psicanálise e literatura, cunhado por Meltzer, para se referir à integração entre o texto de Meltzer e a trilogia Os nossos antepassados, de Italo Calvino. No desenvolvimento das ideias, descreve duas vinhetas clínicas a fim de ilustrar alguns pontos abordados ao longo do texto.
Palavras-chave: literatura, psicanálise, Italo Calvino, Donald Meltzer, Wilfred Bion

História da psicanálise

O autor percorre os antecedentes no campo da psicanálise e da teoria feminista que possibilitaram o surgimento do conceito de gênero, analisando criticamente alguns marcos históricos dessas correntes de pensamento até a formulação do conceito. Ao fim, apresenta um panorama dos desenvolvimentos do conceito nos campos da psicanálise e da teoria feminista.
Palavras-chave: gênero, psicanálise, feminismo