Carta-convite “A formação do psicanalista”

da Revista Brasileira de Psicanálise

Orientação aos colaboradores | 12/2018

Carta-convite

A formação do psicanalista

Não há postulante à análise que não tema os elementos psicóticos nele existentes e não creia poder atingir um ajustamento satisfatório, sem que se analisem esses elementos. Uma solução desse problema é particularmente perigosa para quem estiver engajado em dar formação: o indivíduo busca lidar com dito medo tornando-se candidato, de sorte que o fato de ser aceito para formação possa ser tomado como um atestado oficial de imunidade passado por aqueles que melhor se qualificam para sabê-lo. Com a ajuda do próprio psicanalista, poderá seguir fugindo de se defrontar com o seu temor e terminar por vir a ser um pseudoanalista. Devido à identificação projetiva (na qual não acredita), sua qualificação como analista consiste na capacidade de se vangloriar de se haver libertado da psicose – motivo por que menospreza os pacientes e os colegas.

Wilfred R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados

O que significa a formação do psicanalista? Por que falamos em formação, e não em especialização ou graduação em psicanálise? Seria pelo fato de a formação não se dar no contexto acadêmico e exigir a parte clínica? Vale lembrar que a ideia de formação (Bildung) de uma pessoa surge no romance Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1795-1796/2009), de Goethe, que narra as sucessivas experiências do protagonista ao longo da vida – assim se dá sua formação. A formação psicanalítica se insere nessa tradição, desde Freud. Ele considerou essencial que tal jornada fosse feita acompanhada por um psicanalista, ou seja, a análise didática.

Com base nessas ideias iniciais, abre-se um leque de questões e interrogações diante do que temos observado a respeito dessa formação.

Distintos modelos foram criados, com ênfase maior ou menor em diferentes aspectos que se agregaram à formação, além da análise do analista, como a supervisão e os seminários teóricos. Alguns desses modelos foram discutidos em número anterior da rbp com o tema Supervisão.[1] No próximo número, propomos dar continuidade ao tema, refletindo agora sobre a formação como um todo, dando espaço para aprofundar ideias, interrogações, dificuldades e impasses que os analistas encontram.

O nome psicanálise tem sido apropriado e esvaziado das formas mais exóticas possíveis, como associar psicanálise e proselitismo religioso de qualquer natureza. Freud era avesso à religião e a considerava antagônica à psicanálise. Há até pouco tempo nossa atividade estava no índex da maioria das denominações religiosas por afrontar dogmas estabelecidos. Paradoxalmente, grupos religiosos e políticos fazem lobby para “legalizar” o nome psicanálise, de tal modo que os que têm – ou venham a ter – uma legítima qualificação psicanalítica acabem sendo impedidos de exercê-la.

Como fazer frente a esse fato? Como publicar e informar de maneira clara a diferença entre uma formação psicanalítica e um curso técnico e/ou religioso que diz ensinar psicanálise?

Observamos também, dentro das instituições ligadas à ipa, amplos questionamentos e reflexões. A análise do analista é questionada por ser muito dispendiosa em relação a tempo e recursos financeiros. Seria realmente possível uma formação que não fosse tão onerosa? Qual é o custo real de uma análise? É econômico ou emocional? Trata-se de frequência ou de número de oportunidades possíveis? Como o fator de ganho pessoal dos analistas que fazem as análises didáticas pode ser pensado nesse contexto?

Talvez possa depender, também, se a personalidade do analista permite que o paciente o coloque no lugar de seu ego ideal, o que envolve a tentação para o analista de interpretar o papel de profeta, salvador ou redentor do paciente. (Freud, 1923/1978, p. 50)

Com base na epígrafe de Bion e nessa citação de Freud, é possível considerar que mesmo as instituições psicanalíticas podem tornar-se espécies de igrejas com profetas e defensores da verdadeira fé, sendo essas figuras encarnadas por psicanalistas. Para tentar evitar tais desvios, a análise pessoal dos que pretendem se tornar analistas, ou mesmo dos que já o são por título (considerando, por exemplo, a formação nos Institutos ligados à ipa), seria um fator decisivo. Todavia, a análise didática vem sendo atacada. Argumentos como questões econômicas e de tempo no contexto da atualidade são usados para justificar a intenção de reduzir a frequência e a extensão dos atendimentos psicanalíticos. Em alguns países ocorre uma diminuição no número de analistas que se propõem a tornar-se didatas por implicar a eventual redução de seus honorários na análise de candidatos com quatro sessões semanais. Também há quem pense que seria possível reduzir a frequência sem prejuízo a uma formação de qualidade.

Na formação de psicanalistas na França e em Sociedades que seguem esse modelo, confere-se um peso maior à supervisão, lá chamada de análise de controle, ou simplesmente controle, como se lê nos artigos publicados no número sobre supervisão. O candidato poderia fazer a análise com o analista de sua escolha, independentemente da função didática, porém é fato que a escolha do analista pode pesar bastante na avaliação do pretendente ao final de sua formação. Outro problema é se encontrar diante de analistas controladores, que podem postergar ou impedir a graduação.

Para o exercício da psicanálise, a grande maioria das formações ligadas à ipa considera que o principal instrumento é a mente do analista. A análise do analista por um longo período e com a maior profundidade possível é essencial.

O exercício da psicanálise é tão sério quanto a atividade de um neurocirurgião, e é grave que a formação seja facilitada e banalizada. Hoje em dia cursos de formação de psicanalistas pipocam por todo lado. Muitas pessoas que se aposentam, perdem o emprego ou pensam em trocar de profissão logo cogitam tornar-se “psicanalistas” e encontram cursos na internet como se fossem produtos de supermercado ou de liquidação na Black Friday. Em poucos meses, ou mesmo semanas, alguém pode obter um título de psicanalista sem jamais ter deitado em um divã.

Propomos refletir sobre a ideia de facilitação na formação de analistas devido às dificuldades da vida contemporânea tendo em vista o que aconteceu com Freud ao fim da Primeira Guerra Mundial. Ele estava em Viena, passando necessidades, sem ter o que comer nem como aquecer sua casa no inverno rigoroso. Seu irmão conseguiu a encomenda de três artigos para uma revista, de apelo popular, nos eua. Ele receberia 3 mil dólares pelos textos, o que era uma quantia muitíssimo elevada para aquele tempo. Entretanto, ao receber o briefing sobre o tipo de artigo solicitado pelo editor, Freud, sem pacientes e com todo tipo de dificuldade material, recusou a oferta e, segundo Ernest Jones (1953/1975), sentiu-se encolerizado consigo mesmo por ter considerado a possibilidade de abrir mão de seus parâmetros científicos de qualidade e consistência para publicar nessa revista.

A mesma questão surge quando se pensa nos tempos difíceis do entreguerras na Europa, sobretudo nos países derrotados, a Áustria entre eles. Não bastasse isso, veio a grande depressão econômica mundial, que sucedeu à Quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929 e à ascensão do nazifascismo. Culminando todo esse contexto adverso, houve a eclosão da Segunda Guerra Mundial e, ao fim dela, uma grande escassez de recursos sofrida por toda a população europeia até meados dos anos 1950. Nem por isso os padrões de atendimento psicanalítico foram alterados. Ao contrário, foi exatamente nesses tempos tão difíceis que a psicanálise mais prosperou. Foi então que a obra de Ferenczi, Klein, Lacan, Winnicott e Bion apareceu e floresceu, bem como a de outros nomes importantes –Joseph, Tustin, Isaacs, Segal, Mannoni etc. O mesmo se deu em outros lugares. Há de fato algo diferente no momento presente?

Qual seria a reputação do Balé Bolshoi, do Royal Ballet ou do Balé da Ópera de Paris caso a formação de seus dançarinos fosse facilitada em nome das dificuldades da vida atual? Ou a de um médico cuja formação fosse “facilitada” por conta das dificuldades e dos custos de sua formação? A profusão de faculdades de medicina privadas, de qualidade duvidosa, deixa a problemática mais evidente. Pode-se pensar o mesmo sobre a profusão de cursos de psicanálise ou sobre a competição de instituições para ter mais alunos e formandos do que outras? Será realmente necessária uma adequação da formação aos tempos atuais e às questões contemporâneas? Será possível fazê-la sem perder o rigor e a seriedade imprescindíveis para uma formação psicanalítica?

Convidamos os prezados colegas a enviar sua contribuição para o próximo número da rbp, que focalizará esse tema tão relevante na atualidade, em um momento crítico para nossa profissão.

Os trabalhos deverão ser encaminhados para o e-mail da revista – rbp@rbp.org.br – até a data-limite de 25/7/2022. As orientações para a submissão de artigos encontram-se em nossa página eletrônica: www.rbp.org.br.

Referências

Freud, S. (1978). The ego and the id. In S. Freud, The standard edition of the complete psychological works of Sigmund Freud (J. Strachey, Trad., Vol. 19, pp. 1-66). Hogarth. (Trabalho original publicado em 1923)

Goethe, J. W. (2009). Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (N. Simone Neto, Trad., 2ª ed.). Editora 34. (Trabalho original publicado em 1795-1796)

Jones, E. (1975). Vida e obra de Sigmund Freud (M. A. M. Mattos, Trad.). Zahar. (Trabalho original publicado em 1953)

 

Claudio Castelo Filho

Editor

 

Com a colaboração de Elsa Vera Kunze Post Susemihl

Editora associada

 

[1] Revista Brasileira de Psicanálise, volume 55, número 4, 2021.