Editorias e Resenhas

homem subjugado. O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo

homem subjugado
O dilema das masculinidades no mundo contemporâneo
Autora: Malvina E. Muszkat
Editora: Summus, São Paulo, 2018, 176 p.
Resenhado por: Luciana Saddi (1)

O livro O homem subjugado, da psicanalista Malvina E. Muszkat, sur­preende ao questionar uma série de dogmas do feminismo e do senso comum, além de apresentar aspectos inusitados, insuspeitos e sofridos do homem agressor. A leitura do machismo proposta pela autora, leitura que perpassa todos os capítulos do livro, é criativa, interessante e – me parece – inovado­ra, pois transcende a mentalidade típica da sociedade patriarcal, que entende homens como algozes e mulheres como vítimas.

Indo contra a corrente, Muszkat, que já foi dirigente da ong Pró-Mulher, Família e Cidadania, realiza grupos de atendimento e escuta não apenas com mulheres agredidas, mas também com agressores, os homens. Essa nova prática nasce da própria experiência de grupos terapêuticos com mulheres que padecem com a violência familiar, e – acredito – contraria a corrente fe­minista que entende os homens como abusadores naturais e as mulheres como vítimas inatas. No simples ato de realizar grupos terapêuticos para agressores, há uma boa dose de ruptura com o senso comum e, talvez, com algumas das mais preponderantes características da mentalidade patriarcal, a divisão por gênero (como se homens e mulheres fossem totalmente diferentes) e a lógica da prisão como punição.

Escutar agressores, compreender e validar seu sofrimento, questiona ra­dicalmente tanto o princípio de que as mulheres são vítimas como a noção ar­raigada de que a punição prisional reeduca a sociedade. Os achados da autora levam-na a pensar que os homens agressores não se beneficiam tanto assim – como gostaríamos de acreditar – da sociedade patriarcal. Se não se benefi­ciam tanto disso, pode ser que também não sejam, ao agredir mulheres, me­recedores somente de punição e desprezo. É possível que venham a merecer tratamento psíquico, cuidados psicológicos, para desenvolver outras formas de lidar com dificuldades, conflitos e faltas.

Da experiência do trabalho com homens agressores nasce uma teoria central na questão da violência de gênero, teoria que considera as consequên­cias da sociedade patriarcal para ambos os sexos. Muszkat examina as subje­tividades forjadas pelo patriarcalismo, e as expõe tanto no sentido das forças que submetem e agridem as mulheres como no das que conformam os homens a um modelo rígido, autoritário e feroz de reagir. Segundo a autora, homens reagem com violência quando sua autoridade é questionada e quando temem o aparecimento de aspectos vistos como femininos e ternos, que contestariam o que a sociedade patriarcal se habituou a definir como masculinidade.

Desmistificando a posição de vítima das mulheres, posição confirmada pelo feminismo mais convencional, a autora mostra que muitas mulheres, ao se frustrar com os homens, pois deles esperam o desempenho do papel tradi­cional que lhes foi outorgado pelo patriarcalismo, os provocariam de forma velada, apertando, cutucando o exato ponto, o da fraqueza, e causando uma reação em forma de força física e agressão, que confirmaria o suposto básico de macheza atribuído aos homens. Em cumplicidade inconsciente, ambos tra­balhariam em prol da reafirmação do suposto naturalizado de que homens são machões e se utilizam da força. Esse é o ponto de ebulição de parte das agres­sões de gênero examinadas no livro. É no momento de ameaça do “macho” que a violência surge. À medida que os homens, no trabalho terapêutico de grupo, se reconhecem com medo das fraquezas e se percebem na obrigação insana e impossível de sustentar sempre a representação de força e virilidade a eles imposta pela sociedade patriarcal, sua violência decai. Eles se abrem para novas formas de relação, pondo em palavras o que antes era pura reação à ameaça.

No trabalho analítico da autora – ressalto – são considerados casos de violência diversa, que vão do ataque verbal ao assassinato e que não dependem de estrato social, pois a experiência de Muszkat é bastante ampla e deveras longa no tempo. Segundo ela, até os homens mais violentos podem, no de­correr do trabalho, se envergonhar e se arrepender do uso de força contra as mulheres e, sobretudo, encontrar novas maneiras de comunicação.

Como consequência dessas descobertas, que desconstroem a demoni­zação dos homens e a vitimização das mulheres, Muszkat questiona a efici­ência da Lei Maria da Penha na proteção das mulheres. Afirma que, desde sua vigência, a violência contra a mulher aumentou exponencialmente, pois validou a tese convencional que põe homens de um lado e mulheres do outro, creditando à sociedade patriarcal o prejuízo exclusivo das mulheres. A autora não questiona a necessidade da lei, mas coloca em dúvida sua eficiência como medida protetora para a mulher. Desse questionamento nasce uma genuína indagação sobre os efeitos da punição prisional e da judicialização como política pública. Se a punição, ou a ameaça de punição, contida na lei não diminui nem interrompe a violência contra a mulher – e os números brasi­leiros nesse quesito são desesperadores –, por que não atrelar a essa medida outras medidas, fora da lógica do encarceramento? Ela acredita que seria mais eficiente propor alternativas à pena prisional, dar outro tratamento para os homens, um tratamento que, em vez de reforçar ainda mais as demandas da sociedade patriarcal, desconstrua essas demandas, considerando as expectati­vas e as subjetividades forjadas no patriarcado como as geradoras de grande parte desse tipo de violência.

Os procedimentos adotados, o trabalho clínico descrito por Muszkat e seus resultados clínicos e teóricos são característicos do método psicanalíti­co: trazem à tona uma visão inusitada, um sentido insuspeito, fora do senso comum. Não é à toa que Herrmann (1979/2001) o denominou método in­terpretativo por ruptura de campo, pois há certa dose de violência, de per­turbação, no aparecimento de algo novo, não apenas pela surpresa (por si só um tanto desestabilizadora), mas também pelo desequilíbrio do que já estava estabelecido. Esse desequilíbrio obriga-nos a um rearranjo e impõe uma nova ordem. Novos sentidos são disruptivos, costumam questionar crenças e sis­temas arraigados, põem em dúvida e até mesmo suspendem o conhecimento anterior, que parecia sólido.

Ao longo do livro, a autora contraria algumas teses feministas, examina as consequências da sociedade patriarcal tanto para homens como para mu­lheres, discute a eficiência protetora da Lei Maria da Penha e vai muito além disso. Ela trata das principais questões da atualidade em torno do binômio homem/mulher; põe o leitor diante de um pensamento que articula e pro­blematiza pontos levantados pelos estudiosos de gênero, do feminismo e das mudanças na sociedade patriarcal decorrentes dos movimentos de grupos mi­noritários; considera a evolução do pensamento sobre o gênero nas últimas décadas e também o questiona; investiga profundamente a construção das subjetividades; utiliza a neurociência e a antropologia como ferramentas para validar certas descobertas clínicas; e revisita alguns mitos.

Ao tecer uma narrativa fluente, Muszkat cria a impressão de que somos levados a um passeio pela história, pela religião, pela psicologia, pela psica­nálise, pelas ciências sociais etc. Vale a pena destacar o tratamento dado à ternura no desenvolvimento dos meninos e na relação deles com a mãe, uma das mais belas passagens do livro, que confirma a arguta observação da autora e sua excelente capacidade de desconstruir preconceitos e dogmas.

Acredito que O homem subjugado seja destinado não apenas aos ini­ciantes em questões tão intrincadas e debatidas nos últimos tempos. Sua uti­lidade é maior. Caracteriza-se como súmula do trabalho de toda uma vida voltada a pensar e a tratar os problemas de gênero, bem como a violência sub­jacente às relações familiares. Uma experiência com tal densidade deve ser bem conservada e passada adiante, pois costuma servir como farol para as futuras gerações.

Referências

Herrmann, F. (2001). Andaimes do real: o método da psicanálise (3.ª ed.). São Paulo: Casa do Psicólogo. (Trabalho original publicado em 1979)

 

(1) Psicanalista e escritora. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (sbpsp). Mestre em psicologia clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (puc-sp). Autora dos livros O amor leva a um liquidificador (Casa do Psicólogo), Perpétuo Socorro (Jaboticaba), Alcoolismo (Blucher) e Educação para a morte (Patuá).

 

Publicado em: Revista Brasileira de Psicanálise · Volume 52, n. 3, 268-271 · 2018

14 de outubro de 2019