Carta-convite “Atados pelo ódio”

da Revista Brasileira de Psicanálise

Orientação aos colaboradores | 12/2018

 

Em uma das histórias do filme Relatos selvagens (Szifron, 2014), dois motoristas percorrem uma estrada deserta: um executivo em um carrão e um homem robusto em um carrinho. A hostilidade entre eles começa com pequenas provocações – tão típicas do trânsito, não é? –, uma passagem dificultada, um farol alto, uma fechada.

O executivo xinga e acelera. Mas, um pouco à frente, o pneu fura, e ele é obrigado a parar. O outro o alcança. A partir daí, passam a se revezar na vingança: cada um tem sua vez de revidar. E o conflito escala de forma grotesca e inacreditável. Um destrói o carro do outro e, como se não bastasse, defeca sobre o veículo. O outro empurra o carro do recém-inimigo ladeira abaixo e, também como se não bastasse, tenta atropelá-lo. Até que, ao som de uma música romântica, os dois explodem abraçados dentro do mesmo carro.

Diante dos destroços, alguém pergunta: “O que o senhor acha, delegado: crime passional?”.

O mais impressionante nessa cena é o fato de que as personagens não conseguem sair dela. Há instantes – pequenos, decisivos – em que poderiam simplesmente largar a disputa e seguir adiante. Mas não: algo mais forte as retém, algo que as subordina.

Como a mosca da Ilíada, “que, provando o sangue humano, volta ao ataque tantas vezes quantas seja afugentada” (Homero, c. século 8 a.C./1980, p. 324). Ou como em Abril despedaçado (Salles, 2002), onde duas famílias permanecem presas na vingança da vingança da vingança. É como se o ódio, uma vez despertado, não admitisse recuo – arrastando tudo para seu extremo.

Que forma de vínculo é essa?

Menezes (2001), ao investigar esse sentimento na teoria freudiana, mostra que o ódio não é apenas uma reação do eu: ele surge com a sua própria fundação. “Na gênese do eu haveria um momento em que este atribuiria a si mesmo todas as fontes de prazer, enquanto o mundo exterior, isto é, o objeto, o outro – aquilo que não é eu – seria inicialmente indiferente e, em seguida, fonte de desprazer”. E conclui: “A relação primeira, originária ao outro, seria pois uma relação de ódio, e não de amor” (p. 150).

Esse ódio se faz presente, portanto, lá onde começa a se inaugurar uma unidade, um eu separado de um não eu – que Freud (1915/2004) chama eu-prazer purificado. À medida que essa unidade narcísica ganha contornos mais definidos, aí talvez a alteridade possa vir a ser tolerada. Ainda assim, resta algo, um núcleo, uma imagem de perfeição e um desejo de restabelecer a completude narcísica, sempre abalada pela existência de um outro.

Não poderíamos pensar, então, que tal ódio narcísico pode se instaurar em qualquer lugar onde uma unidade – de um eu, de um grupo, de uma instituição, de uma religião, ou mesmo de uma cultura inteira – se vê diante da constatação da perda dessa imagem purificada de si?

A relação estabelecida por meio do ódio, além disso, é capaz de manter vivo um laço que não se dissolve. Garante a união com um objeto inelutável, o qual, não podendo ser perdido, nunca se enterra, nem pode descansar. Ata de um modo singular e configura um tenaz desafio clínico: o de lidar com ganchos invisíveis que tornam essa ligação aparentemente irresistível, inescapável e incontornável.

Apresentam-se, então, algumas questões: como escutar e manejar tal aprisionamento pela via do ódio? Que função cumpre essa amarração? Quais são, afinal, os sentidos e destinos possíveis do ódio?

Movimentados por essas perguntas, convidamos os colegas a submeterem os trabalhos sobre esse tema para a Revista Brasileira de Psicanálise.

Os trabalhos com essa temática deverão ser entregues até 15 de janeiro de 2026 e serão recebidos pelo email rbp@rbp.org.br.

 

Referências

Freud, S. (2004). Pulsões e destinos da pulsão. In S. Freud, Escritos sobre a psicologia do inconsciente (L. A. Hanns, Trad., Vol. 1, pp. 133-173). Imago. (Trabalho original publicado em 1915)

Homero. (1980). The Iliad (E. V. Rieu, Trad.). Penguin Classics. (Trabalho original publicado c. século 8 a.C.)

Menezes, L. C. (2001). O ódio e a destrutividade na metapsicologia freudiana. In L. C. Menezes, Fundamentos de uma clínica freudiana (pp. 145-155). Casa do Psicólogo.

Salles, W. (Diretor). (2002). Abril despedaçado [Filme]. Videofilmes.

Szifron, D. (Diretor). (2014). Relatos selvagens [Filme]. Kramer & Sigman Films; El Deseo; Telefe Productions; Corner Contenidos.

 

EDITORA

Berta Hoffmann Azevedo

 

EDITORA ASSOCIADA

Claudia Amaral Mello Suannes

 

EQUIPE EDITORIAL

Ana Paula de Oliveira Marques

Bruno Profeta Guimarães Figueira

Camila Paiva Petean Danesi Rossi

Cristiana Tiradentes Boaventura

Denise Salomão Goldfajn

Leda Maria Codeço Barone

Ligia Bruni Queiroz

Ludmila Y. Mafra Frateschi

Luiz Moreno Guimarães Reino

Ricardo Biz

Ricardo Trinca