Carta-convite “Tempo da delicadeza”

da Revista Brasileira de Psicanálise

Orientação aos colaboradores | 12/2018

Carta-convite

Tempo da delicadeza

 

Conservar-se frágil e maleável
é a verdadeira força.

LAO ZI

A minha vida toda foi uma jornada
pelo direito de ser doce.

EMICIDA

 
Quais movimentos estão na base da ação analítica?
“Uma mulher está sentada sozinha em sua casa. Sabe que não há mais ninguém no mundo: todos os outros seres estão mortos. Batem à porta” (Aldrich, 1912/2013, p. 28). Esse miniconto de Thomas Bailey Aldrich parece sintetizar algo essencial: um ato simples e mundano pode romper o campo da solidão oceânica.
“Um dia, numa sessão, contei um sonho a Lacan”, recorda Suzanne Hommel. “Eu disse: ‘Acordo todas as manhãs às 5h’. E completei: ‘Era às 5h que a Gestapo vinha procurar os judeus em suas casas’”. Nesse momento, Lacan se levantou de sua poltrona, se aproximou dela e fez uma carícia delicada (douce) em seu rosto. Ele havia transformado Gestapo em geste à peau. “Essa surpresa não diminuiu meu sofrimento, mas o transformou em outra coisa. A prova é que, 40 anos depois, eu ainda conto essa história e ainda sinto o toque em meu rosto” (Miller, 2011, 17:40).
Apesar da complexidade teórica que possa haver por trás dessas cenas, é notável como a interpretação pode ser um gesto só, um bater à porta. E muito diferente da vulgata psicanalítica – que conduz a descrever, explicitar, expor – o trabalho analítico pode se dar em outras bases: o tato psicológico (Ferenczi, 1928/2011), o direito ao segredo (Castoriadis-Aulagnier, 1976), a reverie (Bion, 1962/1994).
Se não há mais ninguém no mundo, quem bate? O acontecimento do “bater”, gesto mínimo, desfaz a completa desesperança e a certeza da solidão. Dá provas de uma sobrevivência (Winnicott, 1969/1975).
Diante da brutalidade do traumático, só o tempo da delicadeza (Buarque, 1987). Acompanhar sem invadir, sustentar e figurar sem impor. Entre palavra e silêncio, o ritmo. O tempo de dizer, o tempo de calar, o tempo de esperar. Testemunhar sem retraumatizar.
Convidamos os autores a abordar a delicadeza na intimidade da clínica: o manejo diante de cenas traumáticas intrusivas, os pequenos gestos que possibilitam momentos mutativos.
Os artigos com essa temática deverão ser entregues para avaliação até o dia 31 de agosto de 2026 e serão recebidos exclusivamente pelo email:  rbp@rbp.org.br. As orientações para a submissão de artigos encontram-se em nossa página eletrônica: www.rbp.org.br.
 
Referências
Aldrich, T. B. (2013). Sozinha com sua alma. In J. L. Borges, A. B. Casares & S. Ocampo (Orgs.), Antologia de literatura fantástica (J. V. Baptista, Trad., p. 28). Cosac Naify. (Trabalho original publicado em 1912)
Bion, W. R. (1994). Uma teoria sobre o pensar. In W. R. Bion, Estudos psicanalíticos revisados (W. M. M. Dantas, pp. 127-137). Imago. (Trabalho original publicado em 1962)
Buarque, C. (1987). Todo o sentimento [Música]. In Francisco. rca.
Castoriadis-Aulagnier, P. (1976). Le droit au secret: condition pour pouvoir penser. Nouvelle Revue de Psychanalyse, 14, 141-157.
Ferenczi, S. (2011). Elasticidade da técnica psicanalítica. In S. Ferenczi, Obras completas (A. Cabral, Trad., Vol. 4, pp. 29-42). Martins Fontes. (Trabalho original publicado em 1928)
Miller, G. (Diretor). (2011). No consultório de Lacan [Documentário]. pmp; 2 Cafés L’Addition.
Winnicott, D. W. (1975). O uso de um objeto e relacionamento através de identificações. In D. W. Winnicott, O brincar e a realidade (pp. 121-131). Imago. (Trabalho original publicado em 1969)
 
EDITORA
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EDITORA ASSOCIADA
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EQUIPE EDITORIAL
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Ricardo Trinca