Editorial
Leopold Nosek
Este número pretende ter como eixo o feminino. Contamos, para isto, com a inestimável
colaboração da COWAP, presentificada em nosso meio por Teresa Rocha Leite Haudenschild
e Cândida Sé Holovko, que assina o editorial a convite.
A psicanálise, ao se ocupar dos grandes temas que assombram nossa subjetividade,
cria não somente uma ciência e uma prática terapêuticas como também comparece ao
campo das humanidades como uma reflexão a mais a colaborar na busca de sentido da
existência individual e social. Assim também, em sentido inverso, os grandes temas sociais
propõem desafios que a psicanálise não poderá evitar se apresentar com sua prática própria
e com suas teorias específicas. Assim, o tema do feminino surge no campo analítico
desde o início, fruto dos desafios terapêuticos que então se apresentavam, ampliando e
desafiando o saber constituído com novas respostas e com novas questões. Décadas depois,
o movimento social, fruto de grandes transformações que ocorriam, retorna sobre
o território psicanalítico desafiando-o com novas questões e novos modos de resposta.
O paradoxo está dado: de uma prática extremamente íntima, de duas pessoas em relação,
nasce respostas que chegam ao mundo criando novos sentidos do viver, movimentando
as tradicionais perguntas acerca do sentido da existência, da existência de divindades, da
potência humana de criação, da potência do saber consciente, da pedagogia, do lugar das
artes, do lugar relativo do corpo e da subjetividade etc. Dos sonhos e da histeria chega-se
surpreendentemente de início e, inevitavelmente, a seguir, às questões mais gerais do existir
humano. Do mesmo modo, o movimento do mundo se abate sobre o minúsculo campo
bipessoal afirmando a eloquência de sua presença.
Procuramos permitir que este duplo movimento impregne o caráter de nossa revista:
que pertençamos ao mundo e que este nos contenha e determine. Temos o que dizer sobre
o feminino ao mundo e somos chamados por ele a novos dilemas. N este permanente oscilar,
tentamos realizar nosso ofício e desenvolver nossa teoria.
Mais uma vez, agradecemos aos que deram sua colaboração a este número, em particular
a Lygia Fagundes Telles, que nos traz o mundo e a quem, na voz de Glaucia Pessoa
e Henrique Honigsztejn respondemos, procuramos apresentar nossa forma particular e
própria de pensar, nossa reflexão metapsicológica.
L. N.
São Paulo, fevereiro de 2009
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Editorial a convite
O feminino
Cândida Sé Holovko 1
O termo “Feminino” com sua carga polissêmica em psicanálise nos remete a inúmeras
possibilidades de abordagens. Ao utilizarmos esse conceito necessitamos, de início, definir
o contexto e os modelos teórico-clínicos de referência nos quais é empregado: Quando
dizemos “Feminino” ao que nos referimos? Ao desenvolvimento da “psicossexualidade da
mulher” como proposto por Freud?; ao “elemento feminino puro” em homens e mulheres
como momento originário do Ser? (Winnicott); aos processos identificatórios do “materno
primário”, germe da descoberta da alteridade e ao “feminino primário” matriz da descoberta
inicial da diferença entre os sexos? (Guignard, 1999); às “perversões femininas” (Welldon,
1988); a uma “posição feminina” presente nos dois sexos e alicerce da subjetividade?; ou
será que estamos nos referindo ao estudo dos “papéis de gênero”, condicionados pelos
determinantes socioculturais-ideológicos de época, que incidem em nossa compreensão
do que é masculino e feminino e que tem forte impacto na construção das teorias e na
prática psicanalíticas? Estaríamos incluindo as diferenças entre os conceitos de “feminino
e feminilidade”?
Desde Freud sabemos que estamos diante de um conceito psicanalítico bastante
complexo, de difícil delineamento e de significados pouco precisos. Freud foi o primeiro
analista a oferecer às mulheres uma escuta sensível às suas angústias, descobrindo significados
até então inimagináveis. Recebeu as contribuições das psicanalistas pioneiras que
concordavam com suas ideias, principalmente a respeito das transferências maternas e da
importância capital da relação pré-edípica com a mãe (entre elas Ruth Mack Brunswick).
No entanto, ele, Freud, no que se refere à teorização do psiquismo feminino e da condição
da mulher não pode escapar a seu momento histórico, impregnado pelas ideias patriarcais
do seu contexto sociocultural-ideológico (entre outros textos “A sexualidade feminina”,
1931 e a “Feminilidade”, 1932). Sua teoria falocêntrica, com as ideias de uma masculinidade
inicial da menina, da inveja do pênis, do complexo de castração, ainda desperta muita
polêmica nos meios psicanalíticos. Alguns psicanalistas, apoiados na teoria freudiana, privilegiam
a ideia do feminino como falta, carência, vazio, enquanto outros teóricos, desde os
primeiros, como Ernest Jones, Melanie Klein, Karen Horney etc., procuram compreender
as mulheres a partir de seus próprios padrões, não da falta, mas da presença de uma sexualidade
com características próprias e não mais em referência à psicologia masculina. Como
assinala Daniele Quinodoz (2003), os psicanalistas correm o risco de não perceberem a angústia
que muitas mulheres têm de serem amputadas de seus órgãos genitais e reprodutivos
femininos em função da teoria escolhida por eles para a compreensão do universo feminino.
Dependendo dessa opção podem surgir dificuldades na escuta da ancoragem corporal
dessa angústia e do seu uso nas interpretações. Florence Guignard (1999) também destaca
que a figurabilidade dos órgãos de prazer sexual e de reprodução, anatomicamente ocultos à visão, são geralmente tratados como inexistentes dentro do modelo da teoria sexual infantil fálica, proposta por Freud. Essa teoria organiza o complexo de castração masculino, e
penso que tem criado muitas vezes crenças equivocadas com graves repercussões na clínica
da mulher.
Como Guignard, 1999, também acredito que a introjeção identificatória do materno
e do feminino será particularmente requerida no plano do ego corporal em relação ao
destino de mulher. Quero dar ênfase, neste ponto, às experiências corporais especificamente
femininas, com o seu marcado ritmo biológico: menstruação, gestação, menopausa,
abortos, sensualidades, que têm forte impacto na construção da feminilidade e que muito
frequentemente são desconsideradas em muitas análises. Penso ainda que máxima importância
também deve ser dirigida às experiências edípicas na relação fundamental com a
figura paterna para os destinos da sexualidade feminina.
Gostaria de acrescentar que concordo com Glocer Fiorini (2008), quando propõe
em psicanálise a necessidade de “desconstruir as articulações freudianas: mulher=mãe;
sujeito=masculino; objeto=feminino; feminino=enigma=o outro”, a fim de que possa haver
o reconhecimento de uma ordem sexual feminina com autonomia da maternidade e
consequentemente aberta aos processos de subjetivação e da posição desejante próprios da
mulher.
As enormes mudanças que ocorreram nos comportamentos e papéis das mulheres
no último século, e o assombro dos homens e delas próprias em face dessas grandes
transformações e dos novos papéis que a própria cultura pressiona nos dois sexos, intensificaram
as investigações sobre esse tema do feminino no seio de várias disciplinas do
conhecimento humano.
Nesse sentido, a Associação Psicanalítica Internacional – IPA, sintonizada com os
novos tempos, criou em 1998 o Comitê Mulheres e Psicanálise (Committee on Women
and Psychoanalysis – COWAP, IPA), com a finalidade de explorar o pensamento psicanalítico
sobre as problemáticas femininas. Em 2001, já na gestão da então presidente do COWAP, Dra.
Mariam Alizade, psicanalista argentina que deu significativas contribuições e impulso a
esse Comitê, esse objetivo foi ampliado e o COWAP passou a se dedicar ao estudo de questões
ligadas à feminilidade, masculinidade e às patologias de gênero. Como afirma Giovanna
Ambrósio, atual presidente Internacional do COWAP: “Estamos orgulhosas em retirar das
sombras, para onde foram colocados pela literatura psicanalítica, muitos temas importantes
como os do incesto, transsexualidade, perversão feminina…”
Parabenizo a Revista Brasileira de Psicanálise pelo incentivo ao estudo do tema e pela
oportunidade concedida. Tenho certeza que a leitura desses excelentes textos publicados
neste número irá estimular ainda mais as reflexões sobre este vasto “continente fértil” do
universo feminino.
1- Membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo sbpsp. Representante do Comitê Mulheres e
Psicanálise – COWAP-IPA, junto à SBPSP de 2005 a 2008.
Referências
Brunswick, R. (1944). Análisis de un caso de paranoia. Rev. Psicoanal. ARG, 1 (4): 599-651, p. 650. (Trabalho
original publicado em 1929)
Gocer Fiorini, L. (2008). Lo femenino, lo otro y los cuerpos sexuados. (p. 12). Trabalho apresentado no
XXVII Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis – FEPAL, “ Persona y Presencia del Analista”, em
Santiago do Chile, de 25 a 27 de Setembro de 2008. (EJE: Género Y Sexualidad (“Genealogias del otro
femenino”).
Guignard, F. (1999). Materno ou feminino? A “rocha da origem” como guardiã do tabu do incesto com a
mãe. Revista de Psicanálise da SBPPA, Porto Alegre, VIII (2), p. 228, agosto de 2001.
Quinodoz, D. (2003). Ser uma mulher? O ponto de vista de uma psicanalista. Revista de Psicanálise da
SBPPA, Porto Alegre, X (2), p. 215.
Welldon, E. (1988/1993). Madre, virgem, puta: idealización y denigración de la maternidad. Madri: Siglo
Veintiuno de España Editores.
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O eterno feminino
[Comentário à entrevista]
Henrique Honigsztejn
Resumo: A partir das palavras de Lygia Fagundes Telles o autor busca responder a uma pergunta que
lhe aflorou: o que um autor como Goethe experimenta diante da Mulher e que o faz exclamar: “O
eterno feminino nos atrai para si”?
Palavras-chave: Criatividade; integração; motor; orgasmo do ego; orgasmo do id.
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O sonho de Lygia
[Comentário à entrevista]
Glaucia Pessoa
Resumo: A autora utiliza a literatura da escritora Lygia Fagundes Telles como metáfora para as transformações
que ocorrem do pensamento às palavras, ressaltando a importância que a linguagem adquire
para os psicanalistas e a psicanálise na obra de W. Bion.
Palavras-chave: verdade; rêverie (sonhar); pensamento; transformação; linguagem de êxito.
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Sobre a contemplação reflexiva estética
na sessão psicanalítica
Anna Luiza Kauffmann
Resumo: A autora traça alguns paralelos entre os conceitos de estética de Donald Meltzer com aqueles
de Wilfred Bion e Immanuel Kant, tentando compreender mais sobre as origens do pensamento intuitivo
e sua importância na teoria e na prática da psicanálise.
Palavras-chave: psicanálise; estético; belo; sublime; Meltzer; Kant; Bion.
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O trabalho da arte e construção da
subjetividade no feminino
Maria Cristina Reis Amendoeira
Resumo: As ideias psicanalíticas desempenham um papel fundamental na aproximação entre arte,
ciência e loucura. N o estudo de caso de Adelina Gomes, um dos artistas do Museu de Imagens do
Inconsciente – no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro, procura-se discutir questões relacionadas à expressão
do feminino e da subjetividade, por meio das imagens produzidas durante mais de quarenta
anos de internação psiquiátrica.
Palavras-chave: expressão artística e gênero; subjetividade e arte; psicanálise e arte; Adelina Gomes.
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Entre a violência e o vazio:
a escuta do feminino
Sandra Lorenzon Schaffa
Resumo: O texto considera o desafio que o feminino coloca ao trabalho analítico tomando-o como eixo
de reflexão sobre uma abordagem do vazio na análise. Um caso é evocado em que a predominância
do vazio na situação clínica corresponde tecnicamente a efeitos de dissolução da palavra analítica. A
autora propõe uma discussão sobre essa modalidade de resistência para a qual sugere a expressão barragem,
considerando-a sujeita a determinações da ordem do feminino, ordem dependente das pulsões
arcaicas que ignoram a dimensão recalcante da palavra analítica. A questão técnica da abordagem do
vazio, ignorante da falta, colocado como terreno que escapa à atividade representacional, conduzirá à
consideração da importância da problemática do autoerotismo no manejo da transferência.
Palavras-chave: Feminino, materno, vazio, autoerotismo, transferência.
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As condições de surgimento da “Mãe Suficientemente Boa”
Silvia Lobo
Resumo: Este trabalho faz uma tentativa de pensar a respeito das possibilidades de constituição na
subjetividade das mulheres das condições para o surgimento da “mãe suficientemente boa”. Elege como
referência a História, pensando-a como o passado em processo, e recolhe fragmentos do desenvolvimento
das ideias sobre o corpo humano, sobre a concepção dos bebês e sobre o conceito de mãe dentro
da psicanálise por meio de Freud, Melanie Klein e Winnicott.
Por este caminho, de forma sucinta e limitada, endossa as palavras de Castoriadis quando diz que a
mãe, que cuida e acalenta, até pelo modo como acalenta e cuida, é a História mais três milhões de anos
de hominização.
Por fim, propõe que a relação das mulheres com seu corpo, sua sexualidade e a vivência da maternidade
estão intimamente ligados à experiência da relação com as mães, tanto as próprias, quanto aquelas que
as antecederam na transmissão geracional.
Palavras-chaves: história; “mãe suficientemente boa”; transmissão geracional; feminilidade.
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Escuta analítica da bissexualidade psíquica
Teresa Rocha Leite Haudenschild
Resumo: A autora pressupõe que, para que o analista tenha uma escuta da bissexualidade psíquica do
paciente na sessão, é necessário que ele mesmo a tenha elaborado suficientemente.
Acentua que, embora apareça primeiro na análise a bissexualidade psíquica secundária, esta é uma
transformação da primária, a qual deve ser o foco de um cuidadoso trabalho analítico.
Enfatiza a importância do fator transgeracional nas falhas de constituição da bissexualidade psíquica
primária. Como consequência extrema dessas falhas pode resultar uma ambissexualidade, em lugar da
constituição da bissexualidade psíquica.
Algumas vinhetas clínicas ilustram o tema tratado.
Palavras-chave: bissexualismo primário e bissexualismo secundário, feminino puro e masculino puro,
materno primário e feminino primário, masculino e feminino, ambissexualidade.
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Encontro com o feminino:
Hilda Hilst e outras
Dominique Touchon Fingermann
Resumo: Se o ponto de partida da psicanálise foi o “feminino”: a escuta das mulheres e de suas conversões
no corpo de algo mal dito do sexo (histeria), Freud concluiu a sua obra deixando a questão do
feminino em aberto como “continente negro”. Por outro lado, o “falocentrismo” freudiano tão criticado
pelas feministas não permite discernir o próprio do feminino, já que se a mulher é desejante e castrada
(como o homem), inclusive na maternidade, ela permanece referenciada ao masculino – e ao falo (inclusive
na sedução – mascarada). N o entanto, na experiência psicanalítica, cotidianamente, e também
através da literatura ocasionalmente, temos notícia de algo radicalmente “heteros” nessa sexualidade,
algo descabido, desobediente a essa lei fálica, “um gozo suplementar” – diria Lacan.
Palavras-chave: Feminino; heterossexualidade; gozo fálico; alteridade; falo; desmedida
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A dimensão política de ser mãe
Maria Helena Rego Junqueira
Resumo: O texto é uma reflexão sobre o lugar peculiar da mãe no triângulo edípico, neste triunvirato
pai-mãe-filho. São tomados fragmentos da mitologia grega para investigar os modos míticos de relação
com a mãe e passíveis de aproximação com o complexo de Édipo. Busca-se apreender os desdobramentos
da situação edípica no processo de subjetivação. O lugar do pai é pensado como diferença que discrimina
mãe-filho, instituindo a ordem simbólica. Há um interjogo de lugares nas relações originárias
que permite pensar na dimensão política de ser mãe.
Palavras-chave: palavra paterna; desejo; cultura; feminino; política.
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A guerra e o repúdio ao feminino:
Tróia como paradigma
Ignácio Alves Paim Filho
Valéria Quadros
Resumo: Com o objetivo de pensar o por quê da guerra, os autores utilizam a Ilíada, de Homero, relacionando-a ao conceito freudiano de repúdio do feminino (1937). Sustentam a ideia de que o feminino
está ligado às origens do sujeito psíquico, postulando a existência de uma disposição feminina originária.
Assim, propõem que o feminino, na constituição psíquica, teria dois destinos: num primeiro tempo
ser recalcado pela ação do recalcamento primário e, num segundo momento, ser repudiado quando
do estabelecimento do recalcamento propriamente dito. Para os autores, um dos destinos do feminino
repudiado será dramatizado no fazer a guerra.
Palavras-chave: repúdio, feminino, recalcamento, guerra.
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O mito da maternidade glorificada
“Maternidade pervertida” ou “A perversão do instinto maternal”
Estela V. Welldon, Londres
Resumo: De acordo com a tradição psicanalítica a perversão é exclusivamente masculina. Partindo de
sua vasta experiência clínica a autora descreve e teoriza as perversões femininas. Diferente das perversões
masculinas nas quais o ataque perverso se dirige ao exterior; na mulher se dirigem com todo seu
corpo contra si mesma, seu corpo ou seu bebê. Assim as auto lesões, a anorexia, a bulimia poderiam
ser consideradas frequentemente como sintomas das perversões femininas. Entre estas a perversão
da maternidade ocupa um lugar central. Imbuídas do poder extraordinário que lhes confere o fato de
se tornarem mães, as mulheres podem manifestar sua perversão não somente contra si mesmas mas
contra seus filhos que são considerados uma extensão de seus próprios corpos. Assim se definem as
diferenças fundamentais entre as perversões femininas e masculinas em um quadro.
Palavras-chave: perversões; maternidade; psicopatologia feminina; trauma; poder doméstico; corpo.
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Entre demais e muito pouco:
a quadratura do círculo da parentalidade
Régine Prat, França
Resumo: A parentalidade é focada aqui como uma crise de identidade resultante do traumatismo da
percepção da dependência total do bebê frente aos pais. O psiquismo parental supõe portanto uma
mutação profunda. N este trabalho as necessidades do bebê vão ser enfocadas em seu aspecto contraditório:
por um lado a necessidade de ser protegido e contido de maneira firme e, ao mesmo tempo,
a necessidade de permitir que ele efetue suas próprias experiências, não impedindo sua autonomia. A
quadratura do círculo ou a missão impossível da parentalidade vai ser explorada em seus aspectos de
experiência comum a todos os pais, como também a sua patologia. O desenvolvimento das capacidades
de atenção permite vias de resolução para esse paradoxo, e se revela particulamente útil enquanto
instrumento terapêutico.
Palavras-chave: atenção; dependência; depressão pós-parto; parentalidade.
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O divino gozo
O narcisismo feminino e os místicos
Juan Eduardo Tesone, Buenos Aires
Resumo: O discurso dos místicos apresenta-se repleto de paradoxos. O místico paga o preço do desapego
a si mesmo, vivendo somente através do brilho do objeto, esplendor que o ilumina... ocultando,
tão somente, o prazer carnal do êxtase.
Portando, o místico goza... sem temor do pecado, nem de reprimendas, protegido de qualquer olhar
em seu reduto monástico.
Por acaso o discurso dos místicos mostraria, velado pela legitimação religiosa, o gozo suplementar
da mulher que de outra maneira não poderia ser narrado, pois poderia correr o mesmo risco e ter o
destino que Tiresias?
Palavras-chave: amor; místico; narcisismo; feminino; gozo; divino.
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Reações contratransferenciais
e gênero do analista e analisando/a
Teresa Lartigue de Vives, México
Juan Vives Rocabert, México
Resumo: A partir de uma concepção holística ou totalística da contratransferência, se aborda o problema
de gênero do psicanalista, que faz alusão à figura real, a seu ser como pessoa, o qual se opõe a um
dos objetivos centrais da psicanálise, que é o escrutínio da subjetividade do paciente, de sua realidade
psíquica. Se distinguem dois tipos de compreensão da situação transferencial, como mecanismo de
defesa (não importa o gênero) e como repetição ou depósito de objetos internos (o gênero tanto do paciente,
como do analista são particularmente relevantes, principalmente a revivência da problemática
edípica). Se faz uma breve revisão das diferêncas de gênero no que é relativo às transferências eróticas e
erotizadas, o tratamento de pacientes homossexuais, as interpretações transferenciais, da mesma forma
que nos sonhos contratransferenciais, e nos aspectos ideológicos, preconceitos e/ou estereótipos que
podem funcionar como áreas cegas que interferem no tratamento psicanalítico; daí a importância da
autoanálise e a formação de grupos de reflexão dos(as) psicanalistas sobre esta problemática.
Palavras-chave: Transferência e contratransferência, diferenças de gênero.
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Feminilidade primária – feminilidade estrutural
Marian Alizade, Buenos Aires
Resumo: A feminilidade preliminar é a base dos primeiros movimentos e identificações sensuais. A
mulher-mãe exercita com seu bebê o território de uma feminilidade passiva onde, segundo as palavras
de Freud (1905, p. 792), ocorre “uma espécie de orgasmo”. Essa entrega preliminar é o primeiro esboço
da feminilidade em todo ser humano. A rejeição ao feminino tem fortes raízes culturais. A quarta série
complementar (Alizade, 2004) enfatiza a importância do fator sociocultural no caráter e no psiquismo.
A feminilidade estrutural é a consequência da decantação do final do complexo de Édipo e constroi no
psiquismo das mulheres, de um lado, o espaço “solo” e, de outro, o espaço não-mãe. Este artigo considera
ambos os espaços e mostra suas consequências no desenvolvimento psíquico e na saúde mental
das mulheres.
Palavras-chave: feminilidade estrutural; complexo de Édipo; espaço não-mãe; espaço “solo”; quarta
série complementar.
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