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Editorial 
Construções
Leopold Nosek
11
     
   
  Diálogo
Entrevista: Carlos Fajardo 15
     
Professor e artista plástico
[Comentário à entrevista]
Miguel Calmon du Pin e Almeida
29
   
Reflexões sobre uma “sessão instalação”
[Comentário à entrevista]
Thais Blucher
33
     
     
  Construções  
Construção com fim, construção sem fim
Ana Maria Brias Silveira
41
     
Construções em psicossomática psicanalítica
Admar Horn
55
     
Construções em psicanálise: alguns comentários
Ana Maria Andrade de Azevedo
59
     
Construções em análise hoje: a concepção freudiana ainda é válida?
Luciane Falcão
69
     
Construções em análise: alguns elementos relevantes de discussão no 68o Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa
José Martins Canelas Neto

83
     
     
  Artigos
Poder parental e filicídio: um estudo interdisciplinar
Rute Stein Maltz, Maria Lucrécia Zavaschi, Alice Becker Lewkowicz,
Alice Milman Bugin, Denise Lahude, Eneida Maria Fleck Suarez,
Liliana Soibelmann, Regina Orgler Sordi, Suzana Fortes
91
   
Com a alma desabitada: reconsiderações sobre luto e melancolia
Adalberto Goulart
103
   
A experiência afetiva com a sensorialidade
Thaís Helena Thomé Marques
115
     
   
  Intercâmbio  
“Recluso numa casca de noz”: pensamentos sobre complexidade, reducionismo e “espaço infi nito”
Glen O. Gabbard
131
   
Encontros e solidões do nosso tempo
Silvia Corbella
149
     
   
  Resenhas de livros
Corpo e subjetividade na medicina
Liana Albernaz de Melo Bastos
Resenha: Munira Aiex Proença
171
     
A barca branca
Marialzira Perestrello
Resenha: Cíntia Buschinelli
173
     
Identidade
Zygmunt Bauman
Resenha: Gildo Katz
175
     
   
Lançamentos
185
     
Orientação aos colaboradores
189

 

Editorial
Leopold Nosek

Construções

Afinal, do que se trata, esta nossa prática? Fazemos ciência? Literatura? Filosofia? Reconstruímos lacunas do passado, recuperamos memórias, atribuímos sentidos a acontecimentos de uma vida? Damos forma a restos da história infantil? Ou criamos sentidos onde eles não existiam?

É a transferência reapresentação do passado ou acontecimento presente que traz em
si toda a história atualizada? Ou, ainda, é o trajeto representativo possível a uma apresentação pulsional que se origina do próprio encontro analítico?

Tratamos, então, de recuperar uma verdade escondida, por inaceitável, e somos portanto psicanalistas em função? Ou somos partícipes de um acontecimento que busca sua construção onírica e nos tornamos analistas por permitir que isso aconteça? Se assim for, não teremos a segurança de um ator científi co. Seremos construtores de sentidos parciais e, portanto, teremos utilidade como guias de mais um pequeno trajeto de vida.

Somos em nossa função quem ajuda a tornar consciente o inconsciente? Somos quem constrói, em associação com nossos pacientes, trajetos psíquicos onde eles inexistiam? Onde houver id, possa haver ego: a isto nos consignamos? Interpretamos ou construímos? Que respostas temos?

É neste espaço de questionamentos que se move este número da Revista Brasileira de Psicanálise.

Partimos todos da matriz comum que é a obra freudiana. Insufi ciente e provisória,é, no entanto, a nossa base. Como em todos os movimentos que se originaram no modernismo, a psicanálise tinha também a pretensão à verdade e a se tornar um guia para a vida.
Desenvolvimentos seqüentes radicalizaram trechos da obra de Freud e pretenderam também a Totalidade. Assim, muitas vezes nos vemos diante de falsas e desnecessárias dicotomias.

Exemplo disso é a oposição entre interpretação e construção na situação clínica. Não há oposição entre a primeira e a segunda tópica. Há, sim, ampliações: o inconsciente da primeira tópica, constituído de memórias, encontra seu lugar na segunda; o que ocorre é um acréscimo, com o território do id e de toda a rede conceitual que é a sua conseqüência.

Toda mudança conceitual parte da prática e, trazendo novas soluções e novos dilemas, a ela retorna. Não fazem sentido os partidarismos aplicados a trechos de nenhuma obra. Os conceitos analíticos têm margens fl uidas e se constituem em complexas redes associativas. Dico tomias radicais, portanto, não fazem sentido. Merecem, sim, ser objeto de refl exão e debate.

A arte que se pretende retrato do humano correlatamente à história da psicanálise também sofre transformações. Hoje ninguém se ilude com retratos naturalistas. Os modos de representação passam por transformações viscerais. A moldura se fratura, a própria figura se desfaz numa multiplicidade de planos, comunicamos sem fi gurações no abstracionismo, isolamos o gestual, podemos falar recorrendo “apenas” às cores. Isolamos a luz – e, assim, infi nitas formas de dizer se organizam.

Faz sentido caminharmos pelas situações analíticas como se carregássemos a tiracolo uma polaróide sempre pronta para fi gurar os acontecimentos inconscientes? Quem representa o faz na ausência do objeto fi gurado? Temos o que aprender com os desafi os que a arte atual nos propõe com suas novas formas de representação da realidade?

Creio que sim, podemos aprender muito com instalações, performances e assemblages
de toda ordem, formas em que o sujeito e o objeto do conhecimento não constituem identidades isoladas e independentes.

Em tempos de crise de paradigmas em todas as áreas, parece boa idéia tomar contato com outras crises e outras propostas de encaminhamento. Assim, ouvimos neste número um artista e professor da Universidade de São Paulo – Carlos Fajardo –, e, como jamais teremos conversar no ar, suas histórias e refl exões serão debatidas por psicanalistas do nosso meio.

O que vem a calhar, pois o eixo desta edição é o 68o Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa, que explorou justamente o tema “construções em psicanálise”. Ele também será debatido por nossos autores.

Por fim, gostaria de lembrar que está aberto o espaço das Cartas do Leitor. Convidamos a todos para o debate.

L. N.
São Paulo, novembro de 2008

 

 

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Professor e artista plástico
[Comentário à entrevista]
Miguel Calmon du Pin e Almeida

Resumo: Em torno das ponderações de Carlos Fajardo sobre sua própria história e sobre a arte contemporânea, o autor destaca a presença do professor e suas aproximações entre a arte e os processos de subjetivação do homem do século xxi.
Palavras-chave: arte; sujeito; contemporaneidade.

 

 

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Reflexões sobre uma “sessão instalação”
[Comentário à entrevista]
Thais Blucher

Resumo: A autora faz algumas refl exões a partir da idéia de que a arte refl ete os procedimentos culturais de cada instante e que a psicanálise está inserida no mesmo contexto histórico cultural – a arte contemporânea pode estar mais próxima do que se tem pensado na psicanálise. A conceituação do artista sobre a “instalação” – “uma organização espacial em que as coisas acontecem só e quando defi nitivamente se entra nela” – permite um paralelo com a clínica psicanalítica, aqui ilustrada por uma vinheta chamada “sessão instalação”.
Palavras-chave: psicanálise; arte contemporânea; estética; sublimação; “sessão instalação”.

 

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Construção com fim, construção sem fim
Ana Maria Brias Silveira

Resumo: Este artigo tem como objetivo apresentar uma condensação de algumas das idéias desenvolvidas por J. Press em seu rapport para o 68o Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa, que teve como tema “Construções em Análise”. O reconhecimento da dimensão trágica implicada no movimento de fuga em relação a núcleos impensáveis, bem como de suas fortes implicações no jogo transferência/contratransferência, é o ponto de partida para a autora repensar a clínica e as referências metapsicológicas no trabalho com pacientes ditos difíceis, com patologias não-neuróticas psicossomáticas e borderline.
Palavras-chave: angústia impensável; trauma; representação; construção.

 

 

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Construções em psicossomática psicanalítica
Admar Horn

Resumo: Tendo como referência os relatórios de Michelle Bertrand e Jacques Press apresentados no 68o Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa, em Genebra, o autor nos mostra como se dá a construção na análise dos pacientes psicossomáticos, focalizando particularmente a trama transferência-contratransferência.
Palavras-chave: construções; psicossomática; transferência; contratransferência; negatividade.

 

 

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Construções em psicanálise: alguns comentários
Ana Maria Andrade Azevedo

Resumo: Este artigo tenta levantar, para discussão, alguns pontos do trabalho apresentado por Michele Bertrand no 68o Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa. São enfatizadas questões ligadas aos conceitos de reconstrução e de construção, especialmente às idéias privilegiadas por Bertrand a partir dos anos 1980, de R. Schafer e D. Spence, em relação à verdade narrativa e à construção narrativa.
São levantados também outros pontos que visam chamar atenção para uma postura muito teórica e pouco clínica de Bertrand. Vários autores são trazidos para a discussão e são feitas algumas críticas, especialmente em relação ao que é denominado por ela de “trabalho em profundidade”.
Palavras-chave: reconstrução; construção narrativa; interpretação; espaço psíquico; espaço analítico; sonho; conteúdo latente; conteúdo manifesto.

 

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Construções em análise hoje: a concepção freudiana ainda é válida?
Luciane Falcão

Resumo: A autora apresenta uma revisão do conceito de construção em análise, talhado por Freud em 1937, articulando-o com questões metapsicológicas e com questões da psicanálise contemporânea.
Para isso, bebe na fonte da psicanálise francesa, através de Viderman, A. Green, J. L. Donnet, R. Roussillon, C. e S. Botella e outros. Coloca em debate a possibilidade de pensarmos construções primeiras em análise; à diferença da construção proposta por Freud – feita a partir de material da pré-história do paciente –, elas existiriam e se constituiriam a partir da relação com o analista, a qual, através do processo e do vínculo proporcionado por este, permitiria novas construções, novas tessituras psíquicas que poderiam ocupar o que antes era o vazio.
Palavras-chave: construção em análise; primeiras construções; vínculo psicanalítico; realidade psíquica.

 

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Construções em análise: alguns elementos relevantes da discussão no 68o Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa
José Martins Canelas Neto

Resumo: O autor expõe alguns elementos signifi cativos da discussão no 68º Congresso de Psicanalistas de Língua Francesa. Dado o tema “construções em análise”, foram abordadas relações entre a questão da presença sensível do analista e de sua possibilidade de construir/interpretar e a problemática da inscrição de marcas mnêmicas de experiências de desmoronamento ou experiências traumáticas precoces.
Palavras-chave: construção; presença do analista; inscrição de marcas psíquicas.

 

 

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Poder parental e filicídio: um estudo interdisciplinar
Rute Stein Maltz, Maria Lucrécia Zavaschi, Alice Becker Lewkowicz,
Alice Milman Bugin, Denise Lahude, Eneida Maria Fleck Suarez,
Liliana Soibelmann, Regina Orgler Sordi, Suzana Fortes

Resumo: Este trabalho realiza um estudo interdisciplinar que relaciona poder parental com filicídio, expresso nas várias formas de abandono e violência com crianças. São descritos aspectos da história da infância no Brasil que exemplifi cam o tema. As autoras enfatizam como se pode buscar no estudo psicanalítico do desenvolvimento emocional primitivo – nas interações pais-fi lhos – as origens e a compreensão de muitos aspectos da violência, especialmente com crianças. Recorrem a alguns conceitos filosófi cos sobre relações entre saber e poder para enriquecer o entendimento deste complexo problema. Por outro lado, constatam a importância dos fatores culturais, sociais e políticos, influenciados pelas leis e a ética, que se modifi cam nas diferentes épocas. Concluem afi rmando como os conhecimentos derivados da psicanálise, aplicados na comunidade, em saúde pública ou divulgados através dos meios de comunicação em geral, podem contribuir no sentido profi lático, possibilitando
que a infância seja mais bem acolhida.
Palavras-chave: parentalidade; poder; violência; filicídio; interdisciplinaridade.

 


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Com a alma desabitada Reconsiderações sobre luto e melancolia
Adalberto Goulart

Resumo: O autor inicia o texto lembrando que Freud sempre sustentou que a psicanálise estaria contida no ramo das ciências naturais e que, embora preocupada com a relação entre corpo e psique, privilegiou os aspectos psicológicos do psicossoma. Assim foi também com os principais autores que o sucederam. Nas últimas décadas, pressionados pela predominância de patologias mais primitivas, autores mais contemporâneos (Bion, Winnicott, McDougall, Green, Fontes) têm dado maior atenção à dimensão somática. O texto salienta a importância de que os analistas compreendam o psicossoma como uma unidade integrada que não pode ser dissociada, sob pena de grandes prejuízos para o sistema homem. Baseando-se nas hipóteses de Ferrari, o autor tece reconsiderações sobre luto e melancolia, ilustrando-as com um caso clínico.
Palavras-chave: luto e melancolia; psicossoma; psicanálise.

 

 

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A experiência afetiva com a sensorialidade
Thaís Helena Thomé Marques

Resumo: O artigo põe em evidência tanto a mente do analista em interação com a do analisando, como o trânsito contínuo, durante a experiência psicanalítica, de estados sensoriais para os emocionais e dos emocionais para os sensoriais. Esse trânsito ou sua obstrução dependem basicamente da tolerância à dor mental da percepção da separação e da diferença entre as mentes envolvidas na experiência. A autora propõe que, algumas vezes, a separação e o isolamento decorrente do alcance de signifi cados podem ser sentidos como insuportáveis e que, nessas circunstâncias, o retorno à sensorialidade, caracterizado principalmente como expressão da mentalidade gregária, pode se constituir como única condição de sustentação da sensação de existir. Nessas condições, a perspectiva possível para a manutenção da função analítica passa a ser a experiência afetiva com a sensorialidade, para que sua representação e posterior signifi cação sejam possíveis. A principal proposta do artigo é a de que os elementos sensoriais não sejam desprezados por estarem indiscriminados de estados alucinatórios, os quais sabidamente propõem um engolfamento da experiência, mas incluídos na observação psicanalítica como base para possíveis signifi cações, uma vez que com muitos analisandos a sensorialidade se constitui como a matriz básica por onde, em vários momentos, o vínculo transita.
Palavras-chave: experiências sensoriais.

 

 

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“Recluso numa casca de noz”: pensamentos sobre
complexidade, reducionismo e “espaço infinito”

Glen O. Gabbard

Resumo: O pluralismo é marca registrada do discurso psicanalítico no século xxi. No entanto, um efeito colateral desagradável gerado por ele é a tendência, em determinados lugares, à retração em direção a um ortodoxismo. Essa tendência se origina na percepção da necessidade de dar embasamento teórico aos limites entre as diferentes teorias, de maneira a diferenciar umas das outras. A definição dessas fronteiras implica o risco de perdermos de vista o fato de que o pensamento psicanalítico genuíno é fundamentalmente não-reducionista. Além disso, recentemente a noção central de sobredeterminação – jamais abandonada por Freud – tem sido negligenciada por autores que argumentam que determinado ponto de vista é melhor do que outro. Analistas e pacientes, todos são levados secretamente a formulações simplistas, avessas à complexidade. A necessidade de permanecer aberto para o “espaço infi nito” de sentido, motivo e causa deveria ser marca registrada da prática clínica psicanalítica.
O autor considera as implicações dessas idéias para a técnica e apresenta um caso clínico que ilustra os desafi os inerentes a uma aproximação do trabalho psicanalítico como fenômeno complexo.
Palavras-chave: pluralismo; complexidade; reducionismo; sobredeterminação; causa; motivo; sentido; teoria; metáfora; contratransferência.

 

 

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Encontros e solidões do nosso tempo
Silvia Corbella

Resumo: A adolescência, o amor e a velhice, como etapas de transição, são mais difíceis de serem enfrentadas no nosso mundo contemporâneo do que já o foram em outros momentos históricos. É tarefa dos terapeutas de grupo aceitar o desafi o desses ciclos de vida e evitar a privatização dos momentos difíceis, aceitando a infelicidade como emoção inevitável, mas também elaborável. A raiva e o riso, o recordar, o esquecer e o perdoar, possíveis no pequeno grupo terapêutico, poderiam permitir a um grupo social mais amplo uma saída para os tempos de aridez e trevas. A sociedade globalizada de hoje poderia ser comparada a uma comunidade portuária. Em várias culturas, o porto é metáfora de lugares capazes de acolhimento e de um espaço que permite a integração entre condições de assentamento (cuidado, capacidade de espera, amor ao ambiente) e condições de nomadismo (tenacidade, hospitalidade, coragem, liberdade e memória narrativa).
Palavras-chave: encontro; solidão; adolescência; amor; velhice; raiva; riso; grupo terapêutico; comunidade portuária

 

 

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