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Editorial
Leopold Nosek |
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Editorial a convite
Pedro Gomes de Oliveira Lopes Jr.
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Cartas de Freud para o Brasil
Freud e seus interlocutores brasileiros |
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Diálogos |
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“Quando nascemos, já estamos bastante velhos para morrer”
Comentário à entrevista de Fabio Herrmann [RBP, vol. 40, n. 1]
Eustachio Portella Nunes |
29 |
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Questões e indagações em psicanálise
Comentário à entrevista de Fabio Herrmann [RBP, vol. 40, n. 1]
Marco Aurélio C. S. Rosa |
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Retrato de um artista sempre jovem
Comentário à entrevista de José Celso Martinez Corrêa [RBP, vol. 39, n. 4]
Marco Antônio Brant Saldanha |
36 |
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As transformações de um psicanalista após devorar um artista antropófago
Comentário à entrevista de José Celso Martinez Corrêa [RBP, vol. 39, n. 4]
Raul Hartke |
39 |
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| Conferências |
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Freud e o futuro
Thomas Mann |
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Incesto e sexualidade infantil
Jean Laplanche |
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| Artigos |
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Preservem as flores selvagens: aderência, adesão e lucidez
Variações metapsicológicas sobre o tema do poder
Luís Carlos Menezes |
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Um espaço para sonhar
Decio Gurfinkel |
82 |
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Vida, morte, criação e repetição
Maria Luiza Gastal |
90 |
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A presença de Freud no percurso identitário do analista
Sonia Curvo de Azambuja |
105 |
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Homero, Ésquilo, Sófocles e Eurípides e o mito de Édipo
Marilza Nutti Savioli
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114 |
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Da língua da mãe à língua materna ou como construir sua língua
Juan Eduardo Tesone |
124 |
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| Psicanálise e literatura |
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“Da existência à vida”: homenagem a Clarice Lispector
Noemi Moritz Kon |
147 |
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Finitude e alteridade em Fernando Pessoa. Aberturas psicanalíticas na linguagem
Nelson da Silva Jr |
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| Resenhas de livros |
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Verdad, realidad y el psicoanalista. Contribuiciones latinoamericanas al psicoanálisis
Sergio Lewkowicz e Silvia Flechner, editores
Ana Balkanyi Hoffman |
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Realidade e luto. Um estudo da transicionalidade
Karina Codeço Barone
André Camargo Costa |
164 |
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A identidade feminina no início da adolescência
Viviane Namur Campagna
Maria Cecília Pereira da Silva |
167 |
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A carne e a escrita. Um estudo psicanalítico sobre a criação literária
Roberto Graña
Roaldo Naumann Machado |
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Lançamentos
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175 |
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Normas de publicação |
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Editorial - A palavra
Leopold Nosek
Uma revista de psicanálise pretende divulgar a forma escrita da palavra falada, que é o centro da atividade psicanalítica. Temos aí, de saída, um problema, pois em nossa atividade a “cura pela palavra” é o nascimento da palavra viva. Palavra que dará forma ao que existe para além do abismo, originária das sombras e, quase se poderia dizer, do terreno sagrado do qual surge o humano. O caos do choque das intensidades sobre o espírito proporá a necessidade de sentido e, portanto, a forma da existência. Palavra que oscilará do particular, do concreto e único para o universal e abstrato. Essa pulsação constante torna imediatamente obsoleto o sentido conquistado. Aponta uma direção, revela uma figuração que rapidamente se desfaz em brumas, e a fugaz compreensão logo desaparece da memória. A forma-sonho é o paradigma dessa palavra.
Todos temos a experiência de como o texto de Freud nos escapa, de como se rebela, não se deixando capturar pelo discurso consciente. Temos a permanente frustração de ver como ele foge à nossa possibilidade de apreensão. Aí se acentua sua qualidade, sua adequação ao objeto que pretende configurar o inconsciente. A escrita de Freud aponta uma direção para o olhar e seduz a escuta. Ele mesmo dizia que pretendia tratar o leitor como um neurótico resistente à percepção.
Outro é o olhar da ciência que pretende a captura, a definição, o estabelecimento de fronteiras e classificações ordenadoras. A psicanálise propõe um texto que se confunde com seu objeto permanentemente desconhecido e misterioso. Podemos pensá-la como uma ciência neurótica por propor acordos entre aparentes impossibilidades, ou como uma ciência psicótica por propor grandes sistemas explicativos do viver no mundo, mesmo que desconfie deles, ou ainda como uma ciência borderline, pela ausência de delimitação nítida dos conceitos, que se misturam, superpondo-se uns aos outros, além da carga de emoção que entranham.
Nossa prática clínica, permanente exercício de solidão, insegurança e descentramento, gera, por reação, uma busca de segurança, definições e agrupamentos tranqüilizadores. Facilmente formamos grupos coesos e hostis ao diverso. O pensamento crítico ainda é o antídoto.
Talvez nosso rigor provenha de uma ética. Ética que estaria presente no momento da configuração da palavra. Freud dizia no Projeto para uma psicologia que a ética é originária da dependência prolongada do ser humano. Este necessita para seu desenvolvimento que outra subjetividade se volte a ele desinteressadamente, devotadamente, aceitando-o como o desconhecido a ser revelado. Irredutível à posse, requer o desinteresse de si por parte de quem a ele se volta e que vai testemunhar o nascimento da sua palavra e da sua humanidade. Também é esta a ética que presidirá o ato analítico.
Diante da grandeza da palavra freudiana que nos assombra e da magnitude da tarefa de criar sempre novas palavras, mais uma vez encaramos uma “tarefa impossível”: como escrever? Como criar e desenvolver nossas publicações? Estaremos sempre nessa tentativa, até porque qual seria a alternativa? A palavra captura como um dique um território para a cultura, mas o mar permanecerá como infinito.
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Editorial a convite - Psicanálise freudiana: 2006 e depois...
Pedro Gomes de Oliveira Lopes Jr.
Quando fui convidado pelos editores da Revista Brasileira de Psicanálise para escrever o editorial deste volume em homenagem aos 150 anos do nascimento de Freud, me veio à lembrança uma questão que provoca inquietações em muitos psicanalistas que utilizam o método freudiano tal como formulado pelo seu criador. Por quanto tempo a psicanálise resistirá? Penso que a resposta a essa pergunta pode ser encontrada nas circunstâncias que, no passado, possibilitaram a criação e o desenvolvimento da psicanálise.
O legado de Freud para a espécie humana foi construído sobre a busca pela compreensão do funcionamento da mente em um cenário sociocultural específico que o levou a explorar, sistematicamente, os espaços nos quais predominam os mecanismos inconscientes da psique humana. Freud foi um homem de seu tempo, e ao dirigir suas energias e sua genialidade para compreender como a civilização ocidental – ou, mais particularmente, a sociedade e os costumes da parte da Europa onde ele habitava – influenciava a mente humana, foi capaz de perceber e, como ninguém, de registrar o espírito da era vitoriana em que viveu. Ao fazê-lo, criou a psicanálise.
A Europa passava por um período de profundas transformações. Foi a época de grandes pensadores como Fichte, Hegel, Schopenhauer, Comte, Feuerbach, Marx, Engels, Kierkegaard e Nietzsche, entre muitos outros. Foi também a época da consolidação da Revolução Industrial, que contribuiu para que a Inglaterra assumisse a posição de império mais poderoso do planeta, substituindo seus antecessores decadentes: Portugal, Espanha, Império Otomano. Mas, se o pano de fundo do tempo de Freud foram as mudanças políticas e econômicas e os avanços das ciências, o contexto que o influenciou para desenvolver a psicanálise certamente foi de natureza social e cultural. Nesse campo, o século XIX ficou conhecido, no Ocidente, como a “era vitoriana”, graças às características de usos e costumes estabelecidos principalmente na Inglaterra, sob o reinado da rainha Vitória: ética social fortemente baseada no moralismo religioso, na repressão sexual e na baixa tolerância social com o crime. Tais valores, no entanto, colidiam com a existência de uma classe social privilegiada e rica, que fingia não ver as péssimas condições de vida da população, tolerava e incentivava a prostituição e empregava crianças para trabalhar em suas fábricas por doze ou mais horas diárias.
Contra o moralismo exacerbado no plano público e práticas dissolutas de conduta no plano privado, colidiam também as exigências dos instintos humanos, cenário no qual a repressão sexual da mulher assumiu aspecto cultural proeminente e universal. Espremidas entre a moral da modéstia do corpo e a potência dos instintos, nada restava às mulheres senão reprimir a sexualidade, conforme as normas sociais que sua civilização lhes impunha. Criou-se, então, o caldo de cultura para o desenvolvimento de sintomas que a mente clínica de Freud tão bem soube perceber.
Como seu criador, a psicanálise também é produto de seu tempo. Em meio à epidemia de sintomas inexplicáveis pela lógica da nascente medicina positivista, Freud descobriu a cura da histeria pela terapia da fala. Ele mostrou que os cenários ilusórios da consciência e a racionalidade da mente humana escondem mecanismos inconscientes poderosos, os quais influem nas escolhas, provocam repetição de comportamentos inadequados, originam conflitos e produzem enfermidades.
Por ser uma prática humana, a psicanálise precisa estar em sintonia com o seu tempo. No ano de 2006, os estilos de vida ocidentais certamente pouco têm a ver com os costumes e a moralidade vitoriana. No entanto, os novos hábitos e os novos cenários políticos e sociais ainda contêm muitos dos “germes” que, no final do século XIX, produziam incertezas e ansiedade. No presente, a fonte perene da percepção de risco está no poder tecnológico de destruição, que nos coloca ao alcance de grupos extremistas ou de governos totalitários. A morte e a violência banalizadas pela televisão e outras mídias inoculam no inconsciente a insegurança ontológica enraizada na percepção de que nada mais é seguro, de que nunca estamos a salvo, de que é inevitável viver em perigo. Este é o cenário de onde brotam as mudanças de costumes e os hábitos que, no pólo oposto ao da era vitoriana, parecem não mais reconhecer limites.
O maior problema que a humanidade enfrentará no século XXI está nas instituições sociais e políticas do nosso tempo, como ocorria nos tempos de Freud. A dificuldade que o ser humano comum – e sobretudo os líderes contemporâneos – têm de incorporar os conhecimentos acerca do inconsciente e do papel que ele exerce sobre crenças, sentimentos e ações, leva-os a criar situações que ameaçam a nossa integridade física e mental. A tarefa que Freud começou, com sua descoberta, no apagar do século XIX, precisará de aprimoramento no século XXI. Esta será a tarefa da psicanálise nas próximas décadas.
Os caminhos desse aprimoramento passam pela busca de novas formas de investigar a mente humana, pelo aperfeiçoamento do método psicanalítico e pelo desenvolvimento de novas formas de intervir, terapêutica ou preventivamente, sobre indivíduos e grupos, de forma que o ser humano consiga, como disse Freud, “interpolar, entre a exigência feita por um instinto e a ação que a satisfaz, a atividade de pensamento que, após orientar-se no presente e avaliar experiências anteriores, se esforça, mediante ações experimentais, por calcular as conseqüências do curso de ação proposto”.
Penso que em nossa época existem encruzilhadas existenciais que nos forçam a refletir sobre quem somos, a buscar a ressignificação da nossa profissão e a problematizar nossa forma de ver o mundo, de olhar para nossos pacientes e de vivenciar nosso trabalho. Por quanto tempo a psicanálise resistirá? Não sabemos como responder, mas algumas das idéias originadas na cultura ocidental do século XIX, e agora também em certas latitudes orientais, sugerem que durará para sempre. Freud, com sua genialidade, nos mostrou o caminho inicial. Mas ele nunca disse que deveríamos parar onde houvesse uma encruzilhada; nem mesmo disse onde deveríamos parar. Freud provavelmente confiava no discernimento dos psicanalistas que o sucederiam.
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“Quando nascemos, já estamos bastante velhos para morrer”
Comentário à entrevista de Fabio Herrmann [RBP vol. 40, n. 1]
Eustachio Portella Nunes
Resumo: O autor destaca o mérito da obra de Fabio Herrmann [1944-2006] para a psicanálise brasileira, compartilha com ele a convicção de que é preciso ensinar a psicanálise com postura livre de dogmas e salienta a importância que Herrmann atribui ao exame dos sonhos como instrumento terapêutico na busca de maior responsabilidade pela vida.
Palavras-chave: Fabio Herrmann, psicanálise brasileira, ensino, sonho, vida, morte.
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Questões e indagações em psicanálise
Comentário à entrevista de Fabio Herrmann [RBP vol. 40, n. 1]
Marco Aurélio C. S. Rosa
Resumo: O autor destaca e comenta tópicos da entrevista de Fabio Herrmann [1944-2006]: Freud e o espírito questionador da psicanálise – o verdadeiro núcleo da identificação profissional dos psicanalistas; a alienação da psicanálise atual vista sob o prisma da ambigüidade e do valor da escrita; cada vez que a psicanálise se apresenta com um texto hermético, tende a se alienar; a alienação da psicanálise começa, às vezes, por dificuldades na sua divulgação; Freud sempre viveu frente a contestações; estabeleceu o corpo teórico da psicanálise através de um discurso dialético; o teoricismo afasta o pesquisador da realidade e, em psicanálise, esteriliza o processo analítico – a ignorância dos fatos tende a fazê-lo se esconder em alguma forma de teoricismo; a relação psicanalítica se caracteriza por sutilezas e vaguidades.
Palavras-chave: Fabio Herrmann, ambigüidade e valor da escrita, texto hermético, alienação do psicanalista, discurso dialético, teoricismo e realidade, sutilezas e vaguidades.
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Retrato de um artista sempre jovem
Comentário à entrevista de José Celso Martinez Corrêa [RBP vol. 39, n. 4]
Marco Antônio Brant Saldanha
Resumo: O autor analisa a entrevista de José Celso Martinez Corrêa. As interfaces entre narcisismo-altruísmo, eu e outro, revelam-se como acesso ao sublime através do exercício da arte como ritual de comunhão com o público.
Palavras-chave: José Celso Martinez Corrêa, eu, outro, narcisismo, altruísmo, interpretação, sujeito contemporâneo, banda de Moebius, sublime.
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As transformações de um psicanalista após devorar um artista antropófago
Comentário à entrevista de José Celso Martinez Corrêa [RBP vol. 39, n. 4]
Raul Hartke
Resumo: Partindo das referências de José Celso Martinez Corrêa à “antropofagia” proposta por Oswald de Andrade, o autor questiona ludicamente o que aconteceria com algumas das idéias do artista caso elas fossem absorvidas e processadas a partir de um vértice psicanalítico. O espaço cênico, a antropofagia, as interpretações multifacetadas e não unívocas, as confrontações com forças restringentes, a verdade como interpretação, por exemplo, são, guardadas as diferenças óbvias de contexto, confrontadas e correlacionadas com algumas formulações psicanalíticas contemporâneas, tais como o espaço analítico e suas relações com o teatro onírico gerador de significados, o trabalho de sonho alfa e a digestão psíquica dos fatos, as interpretações abertas, insaturadas, vs. aquelas decodificadoras de significados e os vínculos simbióticos, parasitários ou comensais entre continente e contido.
Palavras-chave: José Celso Martinez Corrêa, teatro, espaço cênico, antropofagia, psicanálise, espaço analítico, trabalho de sonho alfa, transformações.
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Freud e o futuro
Tradução: Eva Teperman Ocougne
Thomas Mann
Resumo: Este discurso foi pronunciado por Thomas Mann em 9 de maio de 1936, em Viena, na Wiener Akademischer Verein für medizinische Psychologie, como parte das comemorações dos 80 anos de Freud. Sendo escritor e não cientista, Mann se pergunta o porquê de ter sido escolhido para discursar em honra do aniversariante. Traça um paralelo entre as idéias de Freud e filósofos como Schopenhauer e Nietzsche, entre outros, e enfatiza a importância da psicanálise não só como forma de tratamento, mas como ciência que abrange diferentes campos do saber humano, como filosofia, a arte, a literatura e a mitologia.
Palavras-chave: psicanálise, filosofia, literatura, inconsciente, mito, celebração.
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Incesto e sexualidade infantil
Tradução: Marcelo Marques
Jean Laplanche
Resumo: Ao articular duas noções básicas, o autor indica, para além de uma Vulgata analítica, a dificuldade de lidar com concepções situadas em planos diferentes: a sexualidade infantil, independente das relações de parentesco, e o incesto (e seu tabu), independente da sexualidade, referido intrinsecamente ao parentesco e tendente, em sua indefinição atual, ao desaparecimento. Freud se desvencilha da aporia recorrendo ao mito de Totem e tabu e à filogênese. Após examinar a inconsistência desse recurso, o autor desenvolve o tema da inconciliabilidade entre sexualidade e cultura e o da necessidade de uma revisão clínico-metapsicológica com vistas à orientação do pensamento e da terapêutica analíticos. Aliada à hipótese de uma situação antropológica fundamental, a hipótese de uma “terceira tópica”, encontrada em Freud, permite integrar os dois conceitos e abrir novas perspectivas.
Palavras-chave: sexualidade infantil, incesto, renúncia pulsional, situação antropológica fundamental, mensagem enigmática, teoria da tradução, “terceira tópica”, filogênese.
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Preservem as flores selvagens: aderência, adesão e lucidez
Variações metapsicológicas sobre o tema do poder
Luís Carlos Menezes
Resumo: O sujeito com que trabalha a psicanálise não existe fora de seu grupo social. O autor interroga-se sobre as condições em que o sujeito se torna capaz de atos de lucidez, alcançados pela força do julgamento. Estes se produzem na contracorrente do apelo massificador exercido pelo terror de ser excluído, como pressão ao conformismo e à homogeneidade, que encontra na teoria do narcisismo primário o seu fundamento. O pensamento lúcido implica um arriscado descolamento da aderência uniformizante do indivíduo ao grupo.
A concepção da política e da liberdade no mundo grego descrita por Hannah Arendt, assim como o diagnóstico de Nietzsche, convergente com o de Freud, de que o homem é um ser de rebanho, tendo de passar por transformações heróicas para chegar ao julgamento lúcido, revelou-se fecunda para explorar este tema. O ato lúcido do pensamento do “primeiro poeta épico” em Freud, o “milagre” de Hannah Arendt na política como ato criativo imprevisível, e as metamorfoses de Nietzsche, no Zaratustra, descrevem com precisão o surgimento de “verdades” singulares, no cerne da experiência psicanalítica.
Palavras-chave: massificação, lucidez, narcisismo, política, liberdade.
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Um espaço para sonhar
Decio Gurfinkel
Resumo: O “espaço do sonho” tem se tornado um importante tema de pesquisa psicanalítica das últimas décadas e veio complementar a contribuição da obra fundadora de Freud sobre os sonhos. Sem este espaço psíquico – um “teatro onírico” –, o sonhar entra em colapso e o objeto-sonho é simplesmente abortado. Neste artigo, serão examinados alguns aspectos relativos à constituição do espaço do sonho, através da discussão do fragmento de uma análise. A paciente em causa apresentava um funcionamento psíquico que não podia ser compreendido segundo os vetores de uma “clínica do recalcamento” e, assim como certos pacientes que costumam habitar uma dimensão “além do princípio do prazer”, ainda não havia sido capaz de explorar o mundo da interpretação dos sonhos descoberto por Freud. O material clínico sugere uma falha na função transicional que comprometeu a passagem ao sonho e a construção da função desejante,e traz indícios de como o espaço do sonho pôde paulatinamente se constituir na cena transferencial. A hipótese que norteia o trabalho é: afalsa presença de uma mãe ausente instaura uma forma de “alucinação negativa” que apaga o sonho, e é apenas a partir do reconhecimento da verdade do negativo que o sonho pode emergir.
Palavras-chave: sonho, espaço do sonho, espaço psíquico, borderline, fenômenos transicionais, Freud, Winnicott, desejo, negatividade.
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Vida, morte, criação e repetição
Maria Luiza Gastal
Resumo: A autora examina pontos de convergência entre a psicanálise e a biologia darwinista, no que diz respeito à função criativa dos mecanismos de destruição. A partir da investigação de aspectos das idéias naturalistas de Darwin e Freud, considera que essa dimensão criativa do instinto de morte, presente na metapsicologia freudiana, é, com freqüência, esquecida pelos psicanalistas, apesar de sua importância e de seu interesse na clínica.
Palavras-chave: instinto de morte, Eros, Tanatos, biologia, criatividade, Darwin.
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A presença de Freud no percurso identitário do analista
Sonia Curvo de Azambuja
Resumo: Acompanhando o desenvolvimento do pensamento freudiano, a autora sustenta que ele corre por duas linhas de reflexão: a análise do eu e como este se constitui, de um lado, e a análise de grupo e como a cultura se constitui, de outro. Essas duas linhas estão presentes na própria constituição do ser psicanalista. Para evidenciar esse pensamento, ela dá um depoimento sobre como Freud se presentifica na elaboração do seu ser analítico. Freud, esta constelação que anima o seu eu, está imbricado no “grupo” ou “grupos” com os quais caminhou em seus estudos.
Há neste trabalho a idéia de que o desejo do analista é sempre um desejo de interlocução com o outro. O outro aqui é o próprio Freud, sempre instigando, sempre inquietando, a quem sempre se tem de responder, o qual não nos apazigua nunca. Assim, ele se torna uma vocação inspiradora, mais que guia, devendo ser retomado mas também transgredido, para que não se torne moeda gasta em sua efígie, mas se mantenha, sim, sempre passível de circulação e vida.
Palavras-chave: foco epistemológico, eu, outro, grupo, identidade cultural, filogênese, ego ideal, ideal do ego.
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Homero, Ésquilo, Sófocles e Eurípides e o mito de Édipo
Marilza Nutti Savioli
Resumo: Existe a possibilidade da separação entre sujeito e pertencimento em alguma situação humana? Refletir sobre a relação entre ser e pertencer é o caminho proposto por este texto. Será tomado como referência o mito de Édipo, presente desde a poesia épica de Homero, até sua reinterpretação pela tragédia ática de Ésquilo, Sófocles e Eurípides; serão consideradas as peculiaridades de cada autor, dos respectivos momentos de vida, destacando-se o conceito de genealogia na formação do homem grego nesse período. O texto olha para o mundo do mito pelo emocional, busca senti-lo pelo som e pela magia da palavra falada; revela-se aí o paradoxo do instrumento utilizado: a linguagem escrita. Salienta modos de crença no sagrado desde os épicos e trágicos gregos e aqui situa uma outra sacralização: a crença na eficácia da ciência e da técnica, como o mito, em nova roupagem, exercendo a mesma função.
Palavras-chave: Édipo, ser, pertencer, genealogia, mito, linguagem.
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Da língua da mãe à língua materna ou como construir
sua língua
Tradução: Ana Balkanyi Hoffman
Juan Eduardo Tesone
Resumo: A língua da mãe é realmente a língua materna? A língua materna – penso – requer uma distância em relação à língua da mãe. Necessita reconhecer a língua da mãe como a língua de um outro, fazê-la menos solene, desprendendo-se do originário presunçosamente natural da língua, dessacralizá-la. Conseguir realizar a dor da fusão inicial, poder deixar a confusão do Um absoluto. Existe uma alienação essencial inerente à língua, própria de toda língua, que é sempre a língua do outro. A língua chamada materna nunca é puramente natural, nem própria, nem habitável. Não existem línguas próprias de origem, existe língua própria à chegada, após o percurso que desaliena do desejo do outro. A língua da mãe, enraizada na sua vivência pulsional, veicula por seu turno a universalidade da linguagem e o desejo materno.
A língua materna é uma língua de partida; logo, não se encontram somente línguas de percurso, ou inclusive de chegada, movimento feito explicitamente pelo plurilíngüe, mas do qual o monolíngüe não está livre. Pois então: quais são os caminhos que pode tomar tal afeto no mundo interno do sujeito, particularmente quando entre os destinos possíveis do afeto encontramos o percurso através das línguas? Que destino tem esse afeto quando o sujeito escolhe se expressar em uma língua chamada estrangeira? Quando escolhe fazer uma análise em outra língua?
Palavras-chave: multilingüismo, língua materna, poliglotismo, monolingüismo, exílio.
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“Da existência à vida”: homenagem a Clarice Lispector
Noemi Moritz Kon
Resumo: Como um prólogo ao conto “Menino a bico de pena”, de Clarice Lispector, este artigo propõe a narrativa literária como potência capaz de enunciar a visão possível do mistério da transubstanciação do infans em sujeito falante: emergência do simbólico desde o interior da matéria viva humana, desde o narcisismo primário, ou seja, passagem da existência à vida. A segunda parte do artigo traz na íntegra o conto da escritora brasileira.
Palavras-chave: arte, literatura, psicanálise, origem, narcisismo primário, linguagem, infans, Clarice Lispector.
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Finitude e alteridade em Fernando Pessoa. Aberturas psicanalíticas na linguagem
Tradução: Cláudia de Meireles Reis e Patrícia Bohrer Pereira Leite
Nelson da Silva Jr.
Resumo: A hipótese de uma homologia entre o inquietante (das Unheimliche) desencadeado pela heteronímia e a situação psicanalítica, é a base de algumas proposições sobre a implicação da finitude e da alteridade na estrutura da linguagem segundo a experiência analítica. Tais proposições supõem o papel constitutivo que a ausência do analista possui em uma hermenêutica psicanalítica.
Palavras-chave: Fernando Pessoa, hermenêutica, alteridade, inquietante, ausência, linguagem.
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