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Editorial
Leopold Nosek
We are such stuff
As dreams are made on, and our little life
Is rounded with a sleep
Shakespeare, The tempest, act 4, scene I.
Talvez uma discussão a que devemos fazer face seja a da conceituação e dos limites da psicanálise aplicada. Temos por verdade que psicanálise é um método, uma prática e uma teoria específicos. Deste ponto damos um salto vertiginoso e problemático ao considerarmos a psicanálise como prática clínica e processo terapêutico, e aqui, basicamente, competimos com outros métodos de tratamento. Organizamos instituições a partir deste pressuposto e nele centramos nossas políticas de formação. Historicamente, este modelo viveu momentos de grande sucesso, em vários contextos as cátedras de psiquiatria e psicologia clínica eram geridas por professores que tinham apreço pela psicanálise, muitos deles inclusive com formação na área. Assim foi, por exemplo, na década de 60 nos Estados Unidos e na França. Pode-se dizer que houve mesmo um boom desta prática e a psicanálise figurava entre as profissões de prestígio e financeiramente bem recompensadas. Isto caracterizou nossas instituições como guardiãs de uma prática profissional.
Hoje sabemos bem que a situação não é mais a mesma. Além da crítica radical que foi nossa companheira desde o início, temos as alternativas clínicas que vêm de setores bastante poderosos no que diz respeito à formação da opinião médica e de toda a sociedade.
Talvez paguemos hoje o preço de termos, enquanto grupo, sido seduzidos pelo sucesso. Perdemos a inserção subversiva e questionadora. Perdemos a percepção de que manejávamos uma teoria que faria uma inflexão profunda nas ciências humanas, na filosofia, na crítica das artes, na antropologia, na metodologia científica e, por fim, na forma como nos vemos enquanto seres humanos.
Conceitos como inconsciente, sexualidade infantil, teoria pulsional e onipresença de conflito, construção e presença do psíquico como realidade etc. permanecem com sua possibilidade de desenvolvimento e de crítica reflexiva. Além disso, apesar de isolados das tendências em voga, melhor que qualquer grupo, sabemos da potência terapêutica e da necessidade da prática psicanalítica. Devemos procurar no novo contexto, na nova configuração em que praticamos nossa arte, o reencontro desta prática teórica generalizante, pois é dela que deriva o prestígio que nos colocou nas cátedras médicas. Tivemos algumas gerações que aplicaram o método clínico às configurações de outras ciências sem mediações. Esta simplificação também teve seu preço. Seremos avaliados pela qualidade e enriquecimento reflexivo que pudermos aportar. Infelizmente, este é um processo improvável, pois pouco temos atraido jovens talentos para o nosso campo. Isto, porém, não é uma exclusividade da psicanálise, já que inúmeros setores de construção do pensamento têm se defrontado com este desinteresse. Talvez a inspiração mercadológica entranhe todas as áreas do viver atual.
Assim, o enfrentamento dos novos tempos requer que se considere que eles não são apenas desafiadores, mas também prenhes de novas possibilidades. Há que se considerar também que partimos de uma tradição e de uma base teórica de grande fertilidade. A tradição crítica é a nossa herança.
Resumindo, teremos que decidir se a psicanálise é uma terapia e sua visão de mundo é a da psicanálise aplicada, ou se é uma visão do humano, com seu método e teorias próprias, sendo a terapia sim a psicanálise aplicada.
Como temos dito acerca de nossa política editorial, pretendemos procurar e encontrar o papel de nossa publicação. De qualquer forma, na estrutura dos últimos números, se percebem prenúncios desta nova visão. Constatamos que na seqüência da metapsicologia do conceito de trauma, objeto do último congresso da IPA e do projeto do próximo congresso que, por ser em Berlim, buscará situar a psicanálise num contexto histórico. Temos mudanças no paradigma clínico: há como que uma deflexão em que se pesquisará cada vez mais a construção das representações e a construção do aparelho psíquico. Isto, ao mesmo tempo em que nos coloca no clássico território dos sonhos, também pode ser encarado como a construção de uma cultura pessoal. Aí teremos que nos defrontar com as relações interpessoais que tornariam possíveis tais construções. Teremos que considerar a cultura geral na qual está imersa a cultura pessoal. Nesta abordagem a própria visão clínica estará dependente destas visões mais generalizantes.
Assim, se somos fruto da matéria de que são feitos os sonhos não somos os únicos que pensamos estes problemas. Estaremos acompanhados de poetas e da vanguarda dos tempos. Teremos que fazer jus a esta companhia. Lembremos que o prêmio Goethe dado a Freud não é um premio literário, mas sim um reconhecimento a aqueles que impulsionam o pregresso da humanidade.
Assim são os poetas sem os quais não teríamos a linguagem para pensarmos nossos sentimentos, anseios e a realidade em constante mutação. Porém, devemos estar atentos não apenas à cultura sofisticada, mas também às gírias, pois elas espontaneamente mostram as novas possibilidades de nomear, de pensar. Cultura e cotidiano irão compor uma dialética cultural e estarão indissoluvelmente ligados.
Hoje circula a pergunta da necessidade ou não de uma terceira tópica que dê conta das relações onde se constrói o aparelho psíquico. Somo herdeiros de Winnicott e Bion, mas lembramos de Freud, já nos primórdios desta abordagem, pois ele nos colocava diante do par da pulsão de morte e vida referentes à construção e desconstrução do espírito. Além disso, se consideremos que a consigna onde havia id possa haver ego pode ser traduzida por onde havia natureza possa haver cultura, ou ainda, onde havia pura ação possa haver sonho e, portanto, pensamento. Também vemos a raiz de futuros desenvolvimentos na singela afirmação de que o caráter do ser é dado por um precipitado de catexias objetais abandonadas, ou seja, que as construções pequenas se fazem no âmbito de relações. O que significa que somos produtos trágicos do luto de amores e paixões perdidas. Essas relações ocorrem imersas em sociedade e cultura determinadas.
Assim, a partir da 2º tópica, vemos que a preocupação com a cultura, a religião, a arte e com os fenômenos de massa se radicaliza em Freud. Desenvolver estas raízes é nossa tarefa; sem sacralizarmos a tradição, mas tentando recuperar seu caráter disruptivo e subversivo, que se perdeu em algum ponto do nosso trajeto.
Até aqui alguma clareza, mas quando nos colocamos a questão prática do que privilegiar, de que direção tomar, sabemos que estamos imersos em perplexidade e dúvida. Não escamotear este fato já é alguma coisa. Nestes termos, nos permitimos experimentar e errar, solicitar a paciência e a ajuda que nossa equipe necessita por parte dos leitores e colaboradores desta revista. Lembremos sempre que, como órgão oficial de uma instituição, temos possibilidades e limitações. Dela somos subsidiários e a ela somos gratos pela liberdade oferecida.
Temos neste número uma entrevista com José Celso Martinez Correa, que nos aproxima das reflexões e propostas que vêm da área teatral. No próximo número, dois colegas psicanalistas comentarão, no enquadre de nossa disciplina, os impactos que o pensamento aqui exposto pode sugerir. Apresentamos a fala do Presidente da IPA, Cláudio Eizirik, na abertura do Congresso Brasileiro em Brasília, como expressão do nosso orgulho de ter um brasileiro como gestor do movimento psicanalítico. Queremos com isso homenageá-lo e dar a conhecer seu pensamento aos nossos leitores.
Temos também o tema da Exclusão, em que contamos com a colaboração, na editoria, de Liana Abernaz apresentando o painel convocado para o Congresso da IPA no Rio de Janeiro, onde, de forma multidisciplinar, o tema foi abordado.
À continuidade, os trabalhos de Miguel Calmon e Marcio Giovannetti abordam de diferentes ângulos, como não poderia deixar de ser, a hospitalidade dentro e fora do setting tradicional. Nos artigos de Paulo Sandler e Odilon de Mello Franco Filho e no trabalho de Luis Claudio Figueiredo temos o tema atual da intersubjetividade.
A diversidade e riqueza da produção brasileira podem ser vistas nos diferentes artigos premiados que temos a honra de publicar.
Chamamos a atenção dos nossos leitores e colaboradores que estaremos publicando artigos comemorativos aos cento e cinquenta anos do nascimento de Sigmund Freud.
Temos ainda os artigos de colaboradores que nos enviam suas reflexões. Queremos informar como política editorial que, paulatinamente, seremos mais rigorosos nos critérios de seleção de conteúdo e forma, tendo maior rigor nos parâmetros de extensão dos artigos. A maturação de nossa equipe editorial deverá ocorrer em sinergia com o desejo e projeto de nossos autores, colaboradores e leitores.
Agradecendo pela paciência, esperamos continuar a nos aprofundar na direção que está sendo apontada.
Editorial a convite
Cláudio Laks Eizirik* 1
É uma honrosa incumbência e uma emoção particular dirigir-me aos participantes do XX Congresso Brasileiro de Psicanálise, na condição de presidente da Associação Psicanalítica Internacional, nesta Casa que, em diferentes momentos históricos, teve o privilégio de ouvir as palavras eloqüentes de senadores como Rui Barbosa, Octávio Mangabeira, Alberto Pasqualini, Mem de Sá, Darcy Ribeiro, Paulo Brossard. Cada um a seu modo, e em seu respectivo momento histórico, ergueu sua voz em defesa dos princípios democráticos, não hesitando em examinar e mesmo afrontar os desmandos do excesso de poder e sua capacidade de produzir sofrimento psíquico. Agradeço este convite ao Conselho Diretor da ABP, na pessoa de meus queridos colegas e amigos, Drs. Carlos Gari Faria, seu presidente e Regina Braga Mota, coordenadora do Comitê Local, que lutou bravamente para que Brasília afinal tivesse seu primeiro congresso brasileiro de psicanálise.
O poder pode ser abordado a partir de inúmeras perspectivas, e suas diversas formas de expressão podem ser observadas nos diferentes períodos históricos ou nos principais textos que caracterizam a cultura, como a conhecemos hoje. Se percorrermos a Bíblia, ou o Alcorão, ou as tragédias gregas, ou os textos latinos, ou os escritos de filósofos de distintas escolas, ou as peças de Shakespeare, ou as obras de Freud, ou os inúmeros exemplares da principal expressão artística das últimas décadas, o cinema, encontraremos o tema do poder perpassando a trama das relações humanas.
No campo filosófico, apenas para situar três reflexões em contextos amplamente diversos, continuam relevantes e polêmicas as propostas de uma estrutura político-social supostamente ideal oferecidas por Platão, em A República, os estudos sobre a ânsia pelo poder, o medo, o pacto social e a instituição do princípio da autoridade contidos no Leviatã de Hobbes e as idéias mais recentes de Foucault sobre a micropolítica do poder, tramada nas relações poder-saber, que engendram e mobilizam poderosos dispositivos de controle e produção de formas de pensar e de agir. Rompendo com a visão centralista de poder, Foucault considera que este é sempre relacional, é exercício, ação de uns sobre os outros, tendo a perspectiva permanente, ainda que virtual, da resistência.
Em vários momentos da reflexão psicanalítica, examinam-se distintos aspectos do poder de maneira direta ou indireta. Podemos destacar o poder da pulsão e seu efeito sobre o psiquismo; o poder que se exerce na relação entre pais e filhos, tanto num sentido como no outro; o poder outorgado ao analista que pode configurar o sujeito suposto saber de Lacan; as tramas da relação terapêutica em que o paciente e analista exercem distintas formas e aspectos mútuos, alternados ou sucessivos de poder um sobre o outro; o poder do líder sobre os grupos e as massas; o poder das idéias que assumem a forma de delírios ou obsessões ou condutas compulsivas; o poder que a angústia exerce sobre o aparelho psíquico; o poder do desejo sobre todas as idéias e todas as ações; o poder do pensamento animista ou religioso que desafia a lógica e a racionalidade; o poder dos tabus; o poder nas relações de gênero; o poder da repressão sobre as pessoas e as massas, condição básica para manter-se alguma forma de convivência civilizada; o poder nas instituições, na escola, no trabalho, nos institutos de psicanálise; o poder, enfim, como uma força que intermedia e dirige todas as relações humanas.
No âmbito da Associação Psicanalítica Internacional, além de suas funções precípuas de zelar pela qualidade da formação dos novos analistas e estimular e favorecer uma prática analítica de elevados padrões, mantemos ou estamos criando diversos comitês ou grupos de estudos que abordam questões relativas a expressões do poder: o das Nações Unidas, o de mulheres e psicanálise, o dos efeitos psíquicos da exclusão social, o do preconceito, o do terror e do terrorismo.
No âmbito nacional, além de inúmeras e produtivas realizações associativas e científicas da Associação Brasileira de Psicanálise, estamos iniciando hoje um congresso que se dispõe a examinar a complexa e fascinante relação entre poder, sofrimento psíquico e contemporaneidade.
Dentre as múltiplas expressões de poder e de sua relação com o sofrimento psíquico no momento atual, penso ser oportuno, por várias razões, examinar algumas contribuições psicanalíticas à compreensão do exercício do poder na esfera pública e de que maneira tal exercício pode ter relação com o sofrimento psíquico.
Tal reflexão não se refere a uma situação particular, mas pode ser útil se pensarmos em sua possível aplicação a qualquer época, partido ou tipo de liderança.
No seu exame da psicologia das massas, Freud (1921) destaca a importância da relação estabelecida com o líder. Estudando dois grupos artificiais, o Exército e a Igreja, sugere que ambos compartilham uma ilusão: a de que há um cabeça, um chefe que ama a todos os membros da massa ou do grupo com um amor igual. Assim, numa Igreja o laço que une cada indivíduo a Cristo, por exemplo, é também a causa do laço que os une uns aos outros. Algo semelhante pode ser observado num exército em que os soldados imaginam ser igualmente amados pelo comandante. Aliás, que outra razão levaria exércitos ou pelotões a obedecerem a ordens absurdas ou suicidas, como ataques frontais a posições inexpugnáveis? Contudo, alerta Freud, há uma diferença essencial entre esses dois grupos. No grupo militar, os comandados colocam uma só e a mesma pessoa no lugar de seu ideal de ego e consequentemente se identificam uns com os outros em seus egos.
Já no grupo religioso a identificação se dá através da introjeção do ideal do ego, ou seja, através da fórmula “comei o meu corpo, bebei o meu sangue”, seja através da internalização de qualidades, idéias ou propósitos de um deus, profeta ou seu outro representante na terra.
Retomando suas idéias sobre a horda primitiva, Freud salienta que o líder do grupo ainda é o temido pai primitivo, e o grupo deseja ser governado pela força irrestrita e possui uma sede de obediência. Assim, o líder primal é o ideal do grupo que dirige o ego no lugar do ideal do ego.
Situações de pânico ocorrem quando um comandante é morto. Assim, a perda do líder, de uma forma ou de outra, ou o nascimento de suspeitas sobre ele trazem a irrupção do pânico e os laços mútuos entre os membros do grupo em geral desaparecem, ao mesmo tempo que o laço com seu líder.
Embora mais complexa, a dissolução do grupo religioso leva à irrupção de impulsos cruéis, antes reprimidos em nome do amor comum à divindade. Isto permite evidenciar que toda religião, embora alegue ser uma religião do amor, costuma ostentar tal amor e tolerância para aqueles que são seus fiéis; já em relação aos demais, observa-se crueldade e intolerância. Os atuais fundamentalismos religiosos que o digam.
Em suma, o que pretendo destacar a partir dessas idéias é a posição e função do líder, atual representante dos pais da infância, para manter a coesão e a identificação entre os membros da massa, do grupo ou da nação, tanto nos difíceis tempos de guerra como nos produtivos tempos de paz e prosperidade.
O poder que daí emana pode ser entendido como a expressão das aspirações coletivas, a identificação com os propósitos dos liderados e o estímulo a que estes dediquem o melhor de seus esforços em benefício do bem comum.
Se observarmos o fluxo da história, não é muito difícil que nos venham à mente líderes que foram capazes de encarnar esses ideais coletivos, conduzindo seus povos em momentos de guerra ou paz, porque estavam identificados com a aspiração da maioria de seus liderados.
Consideremos agora algumas idéias de Winnicott e de Bion que nos serão úteis na presente exposição.
Winnicott estudou, entre a vastidão de suas contribuições, o significado da palavra democracia.
Considerou que o marco democrático implica um certo grau de estabilidade para os governantes eleitos. Assim, desde que possam cumprir suas funções, o povo lhes assegura um certo grau de estabilidade, que não poderia ocorrer através do voto direto sobre cada questão. Do ponto de vista emocional, diz Winnicott, na história de cada pessoa existe uma relação genitor-filho. Mesmo que os eleitores sejam adultos, sempre existe um resíduo dessa antiga relação. Ou seja, de certa forma, numa eleição democrática, os eleitores elegem pais temporários, o que significa que também reconhecem que, em parte, seguem sendo crianças. O que fará funcionar tal situação é a capacidade dos líderes de jogar o jogo de adultos, enquanto os eleitores jogam em parte o jogo de crianças, atribuindo-lhes esse predomínio de funcionamento adulto e responsável.
Bion examinou a função da verdade e da mentira na estruturação do aparelho psíquico. Sua idéia básica é que a construção de uma cadeia de significados (portanto do nosso aparelho mental como um todo) depende dela ser “alimentada pela verdade”. A mentira destrói a cadeia de significações, construindo um falso conhecimento (vínculo -K) (de si mesmo, do mundo, da experiência emocional), conduzindo a novas “versões” destes: perversões, psicoses, falsos-selves e mesmo a “verdade” neurótica, que é uma mentira.
Para Bion, “a falta da verdade conduz a um estado de ‘inanição’ [starvation] semelhante àquele produzido pela fome alimentar” (tradução livre de Second Thoughts, 1967).
Assim, “o crescimento e a saúde mental dependem da verdade como o organismo depende da alimentação” (Transformations, 1965).
A mentira funciona, nestas circunstâncias, como uma forma de descarga que nega o princípio da realidade, estando a serviço do princípio do prazer. Dentro deste contexto, a neo-construção da experiência emocional (ou de sua distorção) baseada na mentira equivale a um estado alucinatório (o que é radicalmente diferente da fantasia como aproximação da verdade ou o desdobramento desta através da “conjectura imaginativa”, que é uma transformação criativa, expansiva da cadeia de significados).
Portanto, a mentira é uma negação da figura paterna (coadjuvante fundamental na introdução do princípio da realidade) e da autoridade inspiradora, superego ideal (não confundir com autoritarismo acachapante, superego primitivo).
Quando a figura paterna ou seu representante é o portador da mentira, a impossibilidade da construção do aparelho mental, da noção de subjetividade e a construção de valores (bom, mau, certo, errado etc.) forma uma pessoa sem auto e hétero-refêrencia, conduzindo ao predomínio do princípio do prazer, da perpetuação da mentira, da falta de valores sociais, dos estados de individualismo pela não consideração com os demais e ao “vale-tudo”, inclusive à “violência como forma de relação”.
Ora, “por definição e pela tradição de todas as disciplinas científicas, o movimento psicanalítico está comprometido com a verdade, no núcleo de seu objetivo” (Attention and Interpretation, 1970).
E o sofrimento psíquico, como se manifesta? Afinal, o que é sofrimento psíquico?
Revisando inúmeras possibilidades de definição, ao longo de nossas distintas teorias, não encontrei nada melhor do que a descrição de Raimundo Correia sobre o que denominou de mal secreto: Se a cólera que espuma/ A dor que mora n ‘alma e destrói cada ilusão que nasce; Tudo o que punge, tudo o que devora o coração, no rosto se estampasse: Se pudesse o espírito que chora / Ver através da máscara da face, Quanta gente talvez que inveja agora /Nos causa, então piedade nos causasse!/ Quanta gente que ri, talvez consigo, / Guarda um atroz, recôndito inimigo, / Como invisível chaga cancerosa ! / Quanta gente que ri, talvez existe / Cuja ventura única consiste / Em parecer aos outros venturosa!
Nessa bela descrição, vemos que o sofrimento psíquico provém de fontes internas, assim como externas. Assim ele pode ser vivido pelo líderes e pelos liderados. A solidão do poder e as diferentes manifestações da ambivalência dos liderados, já descritos em Totem e Tabu, são fontes de sofrimento psíquico dos líderes. Em formas abusivas de poder, como o nazismo, o stalinismo, as várias ditaduras que assolaram a América Latina ou os sistemas totalitário-fundamentalistas de hoje, observa-se a presença de verdadeiras máquinas de produzir sofrimento psíquico nos povos.
Nestas máquinas perversas, pelo menos, não é tão difícil discriminar onde está o mal, quem é o inimigo a combater, podendo-se considerar como um pilar de tais sistemas a frase de Goebbels: “Repita-se uma mentira mil vezes e ela se transformará numa verdade”.
Uma estrutura democrática necessita, como dizem Winnicott e Bion, basear-se numa espécie de jogo em que se revivem antigas relações infantis e cujos papéis são assumidos e desempenhados, com o predomínio possível da verdade sobre a mentira e da confiança sobre a suspeita.
Reconhecidas, as funções e as responsabilidades outorgadas aos líderes e ao conjunto de pessoas investidas da autoridade para coordenar, conduzir, administrar o bem comum numa sociedade democrática, o corolário natural deste investimento psíquico é que uma série de princípios deve nortear a conduta desses servidores do coletivo. O que acontece quando tal conduta se torna errática, desviada, não confiável? O que ocorre quando a mentira se torna uma moeda comum de troca? O que se passa quando falsas alegações justificam inclusive guerras, atos de força, medidas de intimidação ou até a decisão de eleições? O que ocorre quando a “coragem d’afirmar” de que falava Eça, a desfaçatez, o escárnio, o deboche, a ópera bufa ocupam tribunas e a mídia? O pânico de que nos falava Freud sobre a massa sem líder ou líderes, pode levar a diferentes defesas, sejam elas paranóides, depressivas, maníacas ou confusionais.
Uma certa tendência ao humor, característica nacional e de muitos outros povos que vivem situações difíceis, contudo, pode encobrir um aspecto mais perverso: a desmentida do que de fato todos sabem e conhecem, mas para poder conviver socialmente, necessitam não saber. Algo que Júlia Kristeva caracterizou como a motivação do homem pós-moderno na busca de análise: ele precisa ser ajudado no que nos quer falar, porque já não agüenta mais não dizer e não ser entendido.
O tecido social, assim contaminado pela prática da mentira, pode ter mais facilidade para conviver com a corrupção, o faz-de-conta, e não mais o pitoresco jeitinho, mas o jeitão, o deixa-disso, o toma-lá-dá-cá.
Assim como os profetas do Velho Testamento verberaram os desmandos dos poderosos de então, ou uma mulher acompanhava os Césares em sua marcha triunfal, lembrando-lhes sua condição humana e mortal, é imprescindível a ação de uma imprensa livre e destemida. Acompanhando os ensaios de nossos pensadores mais lúcidos, percebemos uma grande preocupação com os possíveis efeitos nocivos da prática da mentira sobre a mentalidade de um povo. Como destacou Freud em seu estudo sobre o luto, corremos o risco de perder uma de nossas mais caras crenças – a de que temos um futuro como nação.
Como lidar, na micropolítica de cada pequeno poder, com a prática da mentira e suas tentadoras redes e sedutoras tramas?
A psicanálise, desde seu início e em mais de um século, nunca deixou de ser uma disciplina essencialmente subversiva, no sentido de denunciar o aparente que se pretende o real, o fantasioso que quer falar pelo conjunto dos fatos, a hipocrisia que pretende ocupar o espaço da dolorosa mas necessária verdade – tanto no exame de uma pessoa como no da cultura em que nos inserimos.
Assim, o fato que nos cabe considerar é que as lideranças – estejam elas em qualquer tipo de instituição – servem mentira como alimento psíquico, que pensam poder mistificar ao invés de expressar e desempenhar sua responsabilidade, estão contribuindo para corromper o tecido social, semear a desilusão, estimular a desesperança, dar o exemplo da falta de consideração pelo outro e de respeito aos limites que a convivência impõe.
E, no entanto, de fato, temos um futuro e o trabalho psicanalítico, no recesso de nossos consultórios, além de uma contínua reflexão sobre a cultura, é a nossa principal maneira de reafirmar essa crença, a crença de que o nosso futuro como nação não depende das ações de alguns líderes que dominam a prática da mentira. Esta é a mesma crença que anima os setores vivos e produtivos da nação, na cultura, nas ciências, nas artes, na indústria, no comércio, na agricultura e nos que, apesar de tudo, são capazes de manter a dignidade na política, como falava Hanna Arendt.
Em que consiste nosso trabalho diário, se não na busca da verdade possível, ainda que provisória, fragmentária, tímida e titubeante?
E quem pode ser capaz de arrancar-nos a esperança de que o pensamento livre, crítico, independente ainda haverá de prevalecer e que uma forma de convivência mais baseada nas verdades provisórias e possíveis de fato pode ocorrer ?
Assim como nas famílias, e nas comunidades, as nações cultuam seus mitos e seus heróis, em geral pessoas comuns que realizaram pequenos atos, corajosos ou audaciosos aos olhos dos contemporâneos, e que com o tempo foram ganhando proporções míticas.
Sempre que nos reunimos, os psicanalistas, revisamos e cultuamos nossos mitos e nossos heróis, alguns dos quais citei aqui, em busca de modelos para as dificuldades atuais, sejam clínicas, teóricas ou de inserção na cultura e como estímulo para desenvolver nossa disciplina, nossa prática e nossas instituições.
Nossa presença nesta Casa e nesta cidade hoje também é uma maneira de lembrar e cultuar algumas figuras ilustres, cujo exemplo, em seus diversos âmbitos e esferas de ação, estimula-nos a buscar um rumo mais corajoso em direção das verdades provisórias, parciais, fragmentárias, mas de que necessitamos para alimentar nossa mente e nossa alma de brasileiros, psicanalistas e cidadãos.
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Hospitalidade na clínica psicanalítica hoje
Marcio de Freitas Giovannetti
Resumo: Partindo do relato de três casos clínicos e lançando mão do conceito de “Hospitalidade” de Derrida, o autor coloca em questão o significado do “setting clássico” para a clínica psicanalítica hoje. A “casa”( o estar em casa) – como representação tanto da identidade própria quanto de lugar no mundo – é utilizada, a partir da clínica, para se pensar a “desconstrução” de uma clínica estruturada nos inícios do século passado e a “construção” de uma clínica atual.
Unitermos: hospitalidade, setting psicanalítico, construção, desconstrução, estar em casa, clínica atual.
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O fascínio do poder na sociedade contemporânea
Miguel Calmon du Pin e Almeida
Resumo: As relações entre as coisas e as palavras estão esgarçadas. E no vale-tudo de sentidos, os laços sociais se afrouxam. Este hiper-sentido da contemporaneidade provoca mudanças importantes nos modos de constituição das relações sociais e afetivas.
Unitermos: hiper-sentido, responsabilidade.
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Depressão: meio ambiente e criatividade
Maria Ivone Accioly Lins
Resumo: O objetivo deste texto é um estudo das propostas de Winnicott sobre o valor do comportamento do meio ambiente, considerado não só como fator etiológico central dos quadros depressivos, mas também como elemento essencial à emergência dos processos criativos. Para isso, a autora parte das idéias apresentadas pelo sociólogo Alain Ehrenberg quando trata da depressão no contexto da relação entre o indivíduo e a sociedade. O reconhecimento da diferença de perspectiva e de linguagem dos autores é considerado essencial contra o risco de uso equivocado dos conceitos winnicottianos quando aplicados a fenômenos sociais. A superação da depressão seguida da retomada dos processos criativos em mulheres que sofreram perdas afetivas ou foram vítimas de perseguição e submetidas a violências sociais indicam a relação entre depressão e criatividade.
Unitermos: verdadeiro e falso self, espaço potencial, criatividade, meio ambiente, autonomia, disciplina, individualismo contemporâneo.
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Exclusão social: aspectos traumáticos da violência contemporânea
Liana Albernaz de Melo Bastos
Resumo: A exclusão social no mundo contemporâneo diz respeito a todos nós. Aparece como preocupação nas agendas de organismos internacionais e de governos. A complexidade do fenômeno da exclusão social demanda que muitos saberes sobre ele se debrucem. A dimensão traumática da exclusão social torna a psicanálise presença obrigatória neste debate. Ao dialogar com as ciências políticas e sociais, o painel “Trauma crônico e exclusão social” , apresentado no Congresso Internacional de Psicanálise no Rio de Janeiro, em julho de 2005, busca resgatar a dimensão humanística que, desde Freud, sempre caracterizou a psicanálise. Os textos dos Drs. Luiz Eduardo Soares, antropólogo, Cândido Grybowski, sociólogo, Renato Lessa, cientista político e Liana Albernaz de Melo Bastos, psicanalista, participantes deste painel, mostram a importância do diálogo.
Unitermos: exclusão social, trauma, psicanálise, ciências políticas, sociais.
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Verdade e reconciliação: a menina que se salvou da violência agarrando-se ao símbolo
Luiz Eduardo Soares
Resumo: A exclusão social no mundo contemporâneo diz respeito a todos nós. Aparece como preocupação nas agendas de organismos internacionais e de governos. A complexidade do fenômeno da exclusão social demanda que muitos saberes sobre ele se debrucem. A dimensão traumática da exclusão social torna a psicanálise presença obrigatória neste debate. Ao dialogar com as ciências políticas e sociais, o painel “Trauma crônico e exclusão social” , apresentado no Congresso Internacional de Psicanálise no Rio de Janeiro, em julho de 2005, busca resgatar a dimensão humanística que, desde Freud, sempre caracterizou a psicanálise. Os textos dos Drs. Luiz Eduardo Soares, antropólogo, Cândido Grybowski, sociólogo, Renato Lessa, cientista político e Liana Albernaz de Melo Bastos, psicanalista, participantes deste painel, mostram a importância do diálogo.
Unitermos: dimensão simbólica, violência, preservação, hip hop, reparação, experiênciatraumática
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David Hume em Auschwitz:
notas sobre o trauma e a supressão das crenças ordinárias
Renato de Andrade Lessa
Resumo: A exclusão social no mundo contemporâneo diz respeito a todos nós. Aparece como preocupação nas agendas de organismos internacionais e de governos. A complexidade do fenômeno da exclusão social demanda que muitos saberes sobre ele se debrucem. A dimensão traumática da exclusão social torna a psicanálise presença obrigatória neste debate. Ao dialogar com as ciências políticas e sociais, o painel “Trauma crônico e exclusão social” , apresentado no Congresso Internacional de Psicanálise no Rio de Janeiro, em julho de 2005, busca resgatar a dimensão humanística que, desde Freud, sempre caracterizou a psicanálise. Os textos dos Drs. Luiz Eduardo Soares, antropólogo, Cândido Grybowski, sociólogo, Renato Lessa, cientista político e Liana Albernaz de Melo Bastos, psicanalista, participantes deste painel, mostram a importância do diálogo.
Unitermos: exclusão social, trauma, psicanálise, ciências políticas, sociais.
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A questão do sentido, a intersubjetividade e as
teorias das relações de objeto
Luis Claudio Figueiredo
Resumo: No presente texto será apresentada brevemente uma proposta para se conceber o tratamento psicanalítico a partir de três operações básicas: a continência, a interpelação/confronto e o reconhecimento. Estas três operações correspondem às três modalidades da intersubjetividade atuantes nos processos de constituição do psiquismo: a intersubjetividade transubjetiva, a intersubjetividade traumática e a intersubjetividade interpessoal. Elas, em suas articulações dinâmicas, compõem o ‘mundo interno’ do indivíduo, o plano do que deve ser concebido como o da intersubjetividade intrapsíquica. A atividade de ‘fazer sentido’ é vista como a mais básica na vida mental e a clínica psicanalítica, ao invés de ser tomada como um tratamento voltado para a cura, é visto como proporcionando uma ampliação das capacidades psíquicas de fazer sentido. Para tanto, o analista é chamado – pela via da transferência – a atuar no plano intrapsíquico do paciente, encarnando as três modalidades de relações intersubjetivas acima indicadas. Toda esta elaboração toma como base os aportes de filósofos contemporâneos como Heidegger, Merleau-Ponty, Lévinas e G. Herbert Mead e as teorias das ‘relações de objeto’ em sentido amplo.
Unitermos: relações de objeto, sentido, intersubjetividade, tratamento analítico.
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Intersubjetividade: progresso em psicanálise?
Odilon de Mello Franco Filho
Paulo Cesar Sandler
Resumo: O presente estudo trata do crescimento notável da quantidade de menções sobre a assim chamada ‘intersubjetividade’, na literatura psicanalítica. Este fato permite caracterizar a intersubjetividade como tendência atual no movimento psicanalítico.
Nosso ponto de partida é examinar a noção, “interação analista-paciente” . Esta noção subjaz à abordagem intersubjetivista. Os autores formulam três questões: (i) existe alguma consistência epistemológica no conceito de interação? Se existe, qual é? Pois ela é colocada com freqüência como um fato dado, concreto, a priori, sem exame epistemológico; (ii) será aquilo que os autores intersubjetivistas definem como interação, contingência do processo analítico, ou será um fundamento do processo analítico? Os autores intersubjetivistas parece que optam pela última alternativa, sem argumentação fundamentada.
Como consequência de (i) e (ii): será o movimento intersubjetivista, desenvolvimento e prolongamento da formulação de Freud para a psicanálise, ou será uma ruptura?
Inclui-se uma revisão das contribuições que podem ser consideradas como precursoras da intersubjetividade. O estudo é ainda uma pesquisa sobre as raízes epistemológicas do intersubjetivismo/interationismo. Sugerem-se duas visões integrativas que tentam sobrepujar o conflito “intra versus inter” que subjaz ao conflito entre duas tendências aparentemente diversas em psicanálise.
Os pontos levantados por este estudo provêm uma oportunidade de ponderar sobre as epistemes subjacentes à nossa disciplina, psicanálise. Portanto, os autores não fazem uma crítica à importância de um novo ponto de vista no movimento psicanalítico, mas tentam uma análise de suas bases epistemológicas.
Unitermos: intersubjetividade, transferência, contra-transferência, epistemologia da psicanálise, fundamentos da psicanálise, intrapsíquico, evidência clínica.
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A mente do analista e as transformações autísticas*
Célia Fix Korbivcher**
Resumo: a autora examina os processos que ocorrem na mente do analista ao ser submetido ao impacto de manifestações da mente primitiva, especificamente, de estados autísticos, tais como foram descritos por Tustin. Aborda essa questão sob o ponto de vista contido em sua proposta da existência de transformações autísticas, desenvolvida em seu trabalho anterior.
Desenvolve considerações acerca da desorganização que estes fenômenos provocam na mente do analista e em seus referenciais teóricos pelo fato de não ser possível, muitas vezes, encontrar representações mentais que lhe permitam identificá-los. Sugere como um modelo para a abordagem dessas questões as considerações suscitadas pelos cientistas que desenvolveram a teoria do Caos.
Partindo da proposta de transformações autísticas investiga a respeito da necessidade de delimitar a área à qual pertencem os fenômenos autísticos. Faz a conjectura de que esses fenômenos constituem um universo próprio dominado por sensações, universo este regido por leis próprias, diferentes daquelas encontradas no âmbito da neurose e da psicose. Dentro dessa perspectiva explora a possibilidade de que o universo autístico possa vir eventualmente a constituir um novo paradigma para a psicanálise. Neste contexto, destaca que a proposta de transformações autísticas implica em que se considere que uma nova área de fenômenos está sendo incluída na Teoria das Transformações; a área autística. A partir desta idéia indaga como considerar o campo dos fenômenos autísticos em relação ao pensamento de Bion?
Através da apresentação de material clínico de pacientes ilustra o impacto desses fenômenos sobre a mente do analista visando expandir a discussão. Indaga sobre a necessidade de que se desenvolvam novas formas de abordagem clínica para esse tipo de fenômeno.
Unitermos: transformações autísticas, fenômenos autísticos, universo caótico, fenômenos dominados por sensações.
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Aprender com a experiência emocional. E depois? Turbulência!
Cecil José Rezze
Resumo: O objetivo do trabalho é considerar o entrelaçamento dos conceitos, como pode ser apreendido na clínica, e sua potencialidade de despertar turbulência.
Experiência emocional é algo considerado na poesia, prosa, tragédia, cinema, enfim, na vida. O que faz valer o termo é o aprender com a experiência, portanto o uso da função alfa.
Nos trabalhos sucessivos de Bion, temos o obscurecimento do conceito do aprender que tem amplo desenvolvimento através de sua assimilação, dando origem a novas conceituações, como o de transformações.
A partir dos elementos clínicos conjectura-se a possibilidade de transformações em movimento rígido, projetivas e em alucinose, tendo a experiência emocional como instrumento discriminador. A evolução para transformações em conhecimento e em O, junto ao conceito de invariância remetem ao entrelaçamento com verdade.
O pensamento é examinado na sua função de promover o conhecimento. O conceito se expande para o de pensamento sem pensador.
O exame de estruturas e vestígios embrionários aprofunda a indagação sobre os elementos fundantes da mente.
Abrem-se as portas para novas considerações teóricas. Turbulência acompanha a experiência.
Unitermos: Aprender, experiência emocional, função alfa, transformações em movimento rígido, projetivas e em alucinose, O, pensamentos selvagens e extraviados, cauda vestigial, supra-renais, somitos, turbulência.
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Configurações de prisão e de liberdade
Considerações técnicas com adolescentes
Silvana Maria Bonini Vassimon de Figueiredo
Resumo: As abordagens teóricas tanto dos fenomênos psicossomáticos, como das “modernas” adicções convergem para um mesmo momento do desenvolvimento mental: o estado primeiro de não-representação, estatuto do narcisismo primário, onde vigora a indiferenciação self/objeto. As adicções e somatizações surgem como recursos com “função tampão”, de forma a permitir sobrevivência psíquica, soluções de “remendos”, precária e grosseiramente cerzidas na construção de um continente. A linha teórica que orienta minha clínica de pacientes jovens, com patologias narcísicas importantes, mas não psicóticos, tem encontrado um instrumento terapêutico efetivo nas contribuições de Bion.
A noção freudiana dos estados mentais iniciais de não representação e a evolução técnica possível a partir do estudo do narcisismo ajudam a situar a minha argumentação sobre o uso de um enfoque relacional no trabalho clínico.
Além do aparelhamento técnico interpretativo, a experiência clínica com as três adolescentes aqui relatada, aponta para a condição particular do analista de “estar com”, apto a exercer companhia e hospitalidade para a experiência não vivida de seus pacientes, oferecendo-se como objeto de treino para a construção de uma “configuração de liberdade”, que, partindo da própria condição interna do analista, ofereça a experiência de um novo modelo de mente e de relação.
Unitermos: função tampão, tamponagem, continente, intermitente.
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Tecendo o continente:
pensamento como superfície sensorial
Paulo de Moraes Mendonça Ribeiro
Resumo: Partindo da observação clínica da forma do funcionamento do ‘pensar’ e do uso que alguns pacientes em análise fazem dos seus ‘pensamentos’, o autor propõe uma reflexão sobre o desenvolvimento do continente ( ) e das relações continente÷contido ( ) na mente do analisando e na relação analítica.
Há situações nas quais o analisando está lidando com aspectos arcaicos do seu desenvolvimento e vivencia angústias da chamada “posição autística-contígua” proposta por Thomas Ogden. Estas são vivências de dispersão da personalidade rumo ao vazio infinito e informe... Nesses estados, os analisandos podem fazer uso de defesas da “posição autística-contígua” que visam o restabelecimento de um “assoalho sensorial” (Grotstein) sentido como roto, ou explodido. ‘Pensamentos’ e o ato de ‘pensar’ podem ser usados como defesas na tentativa de reestruturação do “assoalho sensorial”. O autor chama essa modalidade de “pensamento como superfície sensorial”, uma vez que, fazendo uso do ‘pensamento’ como defesa da “posição autística-contígua”, o que importa não são os conteúdos do pensamento ( ), e sim seus ‘aspectos sensoriais’, que são usados na tentativa (muitas vezes criativa) de re-estabelecer um continente ( ) que seja capaz de conter conteúdos ( ) de forma consistente e duradoura.
Há outras situações em que o indivíduo desenvolve um ‘pensar’ circular e reverberante, que assim como o “pensamento como superfície sensorial”, funciona como defesa e acalma o paciente. No entanto, não se trata de angústias de dispersão, mas sim de mecanismo perverso (atividade -K de Bion) que visa evasão da experiência emocional. É funcionamento sob a égide da “compulsão à repetição” (Freud). O autor chamou essa modalidade de “pensamento como fetiche”.
Ambas modalidades de ‘pensamento’ estão muito longe do que Bion chamou de “pensamento verbal”; no entanto, o ‘pensamento como superfície sensorial’, tendo relação com a estruturação do continente ( ), caminha nessa direção, enquanto o “pensamento como fetiche” caminha na direção oposta. Diferenciar ambos aspectos é de suma importância na clínica psicanalítica, uma vez que há grandes diferenças técnicas no manejo de cada um.
Unitermos: pensamento como superfície sensorial, pensamento como fetiche, posição autística-contígua, assoalho sensorial, neurose obsessiva, continente, contido, relação continente contido, procedimentos autocalmantes, autosensuais, uníssono.
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A Noite e seus filhos (o Sono e o Falecimento)
e pesadelos ao longo da infância
Ane Marlise Port Rodrigues
Resumo: Através de uma aproximação com a mitologia sobre a Noite e seus filhos (o Sono e o Falecimento), a autora ressalta como angústias de morte ou de perda de controle podem invadir o sono e gerar distúrbios do sono na infância. São relatados alguns pesadelos em diferentes faixas etárias. Também é referido que a noite pode ser cenário de um ritual de passagem do adolescente para o mundo dos adultos, na busca da formação de casais. Finaliza com a fábula de Ceix e Alcíone e relaciona a formação do casal e a geração de bebês com a possibilidade de deixar junto o casal parental interno, seja dando prazer um ao outro, seja procriando ou descansando. Essa possibilidade é vista como favorecedora de menos barulho interno e como facilitadora do sono repousante.
Unitermos: Noite, Sono, morte, pesadelos, infância, adolescência.
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