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Sumário

Editorial a convite
Cláudio Rossi
5
   
  Mesas do XX Congresso Brasileiro de Psicanálise - 2ª parte
Poder, sofrimento psíquico e contemporaneidade
   
 

Uso e abuso da transferência

 

Transferência/contratransferência: “terreno movediço”
Ronaldo Mendes de Oliveira Castro
9
   
Uso e abuso da transferência
Maria da Penha Zabani Lanzoni
17
   

Questões éticas na transferência e na confidencialidade
Paulo Marchon

21
   
 

Distúrbios alimentares

   

Distúrbios da alimentação, anorexia, bulimia e compulsões:
histórias de segredos e paixões

Marina Ramalho Miranda

27
   

Patologias narcísicas e alteridade

   
Patologias narcísicas e alteridade
Paulo Cesar Sandler
35
   

O narcisismo na relação analítica. Experiência básica de ruptura
Maria de Fátima Rebouças Malva

47
   
 

Vicissitudes da infância na clínica contemporânea

   

Violência contra bebês
Eliane Pessoa de Faria

59
   
 

Gênero e poder

   

A difícil relação homem-mulher: as vicissitudes do convívio com as diferenças
Ambrozina Amália Coragem Saad

67
   

O poder das identificações alienantes quanto ao gênero
Teresa Rocha Leite Haudenschild

75
   
 

Barbárie, terrorismo e psicanálise

   

Barbárie, terrorismo e psicanálise
Fernando Linei Kunzler

83
   

Barbárie, terrorismo e paranóia
Roosevelt Moises Smeke Cassorla

87
   

Barbárie? Civilização: um ponto de vista psicanalítico
Ney Couto Marinho

91
   
 

Psicanálise e literatura

   

Garimpando na fronteira psicanálise-literatura
Carlos Doin

97
   
 

O fascínio do poder na sociedade contemporânea

   

O fascínio do poder
Maria Olympia de Azevedo Ferreira França

105
   
 

Terror, representação e psicanálise

   

Terror, representação e psicanálise
Deodato Curvo de Azambuja

109
   

Terror e representação: um estudo ideográfico
Jose Renato Avzaradel

113
   
 

Psicanálise e psiquiatria

   

Terror, Representação e Psicanálise
Maria Cristina Amendoeira

119
   
 

Psicanálise, sociologia e política

   

Psicanálise e socialismo . A utopia dos socialismos
ou quanto à possibilidade da psicanálise socorrer o socialismo
democrático

Moises Tractenberg

125
   
 

As neurociências e a psicanálise

   

Afetos, sobrevivência e desenvolvimento na neuro-psicanálise
Yusaku Soussumi

129
   

Considerações sobre uma experiência clínica
Theodolinda Mestriner

135
   
 

Sofrimento psíquico e gênero: uma visão teórico-clínica

   

Resgatando o feminino através da experiência somato-psíquica:
da dor ao sofrimento psíquico

Cândida Sé Holovko

143
   
 

Psicanálise e pesquisa

   

A investigação psicanalítica está ameaçada de extinção?
Theodor Lowenkron

159
   
 

Psicanálise, medicina e saúde pública

   

Interfaces: psicanálise, medicina e saúde pública
Marta Regina de Moraes Foster

169
   
Lugar da psicanálise na justiçaO lugar da psicanálise na justiça: lei, drogas e tratamento
Ivone Stefania Ponczek
177

Editorial

Cláudio Rossi*

“Poder, sofrimento psíquico e contemporaneidade” é o tema do XX Congresso Brasileiro de Psicanálise que acontecerá em Brasília no mês de novembro próximo. Embora, tanto na teoria quanto na clínica, questões que envolvem o poder estejam muito presentes na psicanálise, não é comum que esse assunto seja especificamente desenvolvido e problematizado. Por essa razão foi surpreendente o entusiasmo com que as sociedades componentes da Associação Brasileira de Psicanálise aceitaram a proposta desse assunto como tema oficial para seu congresso.
Muitos dos trabalhos que serão apresentados na categoria de “tema oficial” estão publicados neste número da RBP. Eles abordam em três eixos – teórico, clínico e social –, as relações entre a psicanálise e o poder, assim como as articulações entre este e o sofrimento psíquico contemporâneo.
No mundo atual vivemos grandes transformações que rapidamente alteram as instituições sociais, os hábitos e os costumes. As estruturas de poder, as hierarquias, as convenções e contratos, também, tornam-se instáveis gerando grande insegurança e perplexidade. Nesse ambiente as lutas e disputas pelo poder se tornam especialmente acirradas. Os cargos e papeis instituídos são questionados e sua autoridade freqüentemente desafiada. Dentro das sociedades psicanalíticas, assim como na sociedade em geral, esses fenômenos podem ser observados com certa freqüência.
Em Mal estar na civilização, Freud afirma que as causas do sofrimento psíquico são três: “O poder superior da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação das regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos na família, no estado e na sociedade”. No nosso mundo turbulento do século XXI a inadequação das regras parece particularmente evidente.
Em Totem e tabu Freud já havia defendido a tese, que ele retoma no Mal estar na civilização, de que a civilização só pode existir porque o poder do grupo submete os indivíduos que abrem mão de seu poder pessoal em prol da convivência com seus semelhantes. Essa tese já fora defendida por Hobbes, em 1651, no Leviatã. Quando ele descreve a natureza humana diz o seguinte: “E ao homem é impossível viver quando seus desejos chegam ao fim, tal como quando seus sentidos e imaginação ficam paralisados. A felicidade é um contínuo progresso do desejo, de um objeto para outro, não sendo a obtenção do primeiro outra coisa que o caminho para conseguir o segundo”. No mesmo texto, em seguida, afirma: “Assinalo assim, em primeiro lugar, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”. Com essa concepção, para Hobbes, um Estado forte e autoritário era a única saída para que a civilização fosse preservada sem sucumbir às ambições dos indivíduos que as teriam de forma ávida e infinita. Nietzsche, em Assim falou Zaratustra estende para toda a natureza, incluída a mineral, a “vontade de poder”. A “vontade de poder” seria a força motriz de todos os seres do universo. Quer dizer, cada ente traria dentro de si um impulso de se ampliar e de conquistar cada vez mais espaço, ganhando cada vez mais presença e poder. Esse movimento seria incessante e infinito. Como isso aconteceria com cada elemento do universo, seria inevitável a luta pelo poder, que jamais cessaria.
Freud não se opõe a essas teses, pelo contrário, também não acredita na abolição da luta, como acreditou K. Marx, por exemplo, caso fossem atendidas, de forma justa e eqüitativa, as necessidades básicas e as aspirações dos seres humanos. Para o pai da psicanálise a agressividade é incessante e a luta pela predominância e pela dominação, também. Daí sua concordância com Hobbes, no que se refere à necessidade de se submeter a vontade individual à vontade coletiva. Mas, se Hobbes, se satisfaz em descrever o processo, Freud, que veio da clínica, preocupa-se com os danos causados aos indivíduos por essa submissão. Verifica que as neuroses e seus sintomas, assim como uma certa infelicidade, são o preço que as pessoas precisam pagar para poder ser civilizadas. Essa postura de Freud vai marcar a psicanálise que é uma colaboradora da cultura, mas, sem jamais abandonar uma postura crítica. Sua proposta seria mais ou menos assim: se o “mal é necessário” que, pelo menos, seja o menor possível. A preocupação com cada um dos indivíduos componentes da sociedade faz com que a psicanálise seja radicalmente e por princípio, democrática e igualitária.
A atitude psicanalítica em relação à sociedade, porém, é decorrente de sua postura no trato com o indivíduo diante de si mesmo. A primeira defesa tratada por Freud foi a repressão. É muito fácil fazer-se a analogia entre a repressão defesa e a repressão social. Libertar os presos nos calabouços da mente poderia ser a metáfora para o trabalho de Freud com as histéricas. Através do conhecimento do inconsciente, o ego, poderia de forma cada vez mais integrada, justa e politicamente negociada, governar a personalidade. Quando surgem as teorias das relações objetais, o mundo interno passa a ser concebido como uma assembléia de objetos que disputam, entre si, o poder. Novamente, o trabalho psicanalítico é concebido como integração das diferentes tendências, cuja luta intestina jamais cessaria. A busca de uma democracia interna, lúcida e sem preconceitos seria, portanto, a principal característica da missão da psicanálise. É razoável admitir-se a hipótese de que uma sociedade composta por indivíduos mais integrados internamente possa ser mais satisfatória, equilibrada e justa do que outra em que isso não ocorra.
No desenvolvimento da psicanálise, porém, verificou-se que algumas características humanas são muito rebeldes ao tratamento. A postulação do instinto de morte e seus corolários, como a destrutividade e a crueldade, foi necessária para dar conta das dificuldades em realizar a integração desejada. O poder, agora, não apenas é buscado e exercido com a finalidade de ampliar o espaço e as prerrogativas do indivíduo, mas, para destruir, fazer mal, prejudicar o semelhante e o próprio sujeito. Como ser democrático e neutro com esse tipo de tendência? Como evitar que para resolvê-la se incida no mesmo erro. Como reduzir a violência, se para fazê-lo, precisamos ser violentos?
A psicanálise tem grande experiência e muitas teorias desenvolvidas a respeito desses paradoxos do uso do poder. Seu conhecimento da alma humana, acumulado por mais de cem anos de trabalho intenso, pode ser precioso para as áreas da sociedade que interferem em seu funcionamento. Para Jacques Derrida incluir o saber psicanalítico, principalmente no que se refere a Tânatos e suas múltiplas expressões, em campos responsáveis pelo funcionamento coletivo como a justiça, a ética e a política, é absolutamente necessário para se poder obter novos equacionamentos para os velhos problemas da violência e da destruição. Temos, por isso, uma vocação e uma responsabilidade.
Desejamos que o congresso que se aproxima, assim como esta revista, sejam úteis para darmos mais alguns passos no desenvolvimento de nossa disciplina e através deles contribuirmos para o aperfeiçoamento da civilização.

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Resumos

Transferência/contratransferência: “terreno movediço”

Ronaldo Mendes de Oliveira Castro *

Resumo: O autor delimita o vasto tema da transferência à relação analítica. Faz referência, resumidamente, a alguns conceitos associados à evolução do fenômeno da transferência e contratransferência, nas concepções de Freud, Klein e Bion, destacando aspectos relacionados ao uso, atuações (transgressões) e abusos, na análise. Finalmente, relata duas situações de sua experiência, onde ocorreram transgressões e ou enactments no processo analítico, com o propósito de enriquecer a discussão e reflexão sobre o assunto.
Unitermos: transferência, contratransferência, relação analítica, conceito e evolução, uso, abuso, transgressão, atuação, enactment.

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Uso e abuso da transferência

Maria da Penha Zabani Lanzoni*

Resumo: Inspirada pelo meu trabalho clínico; pela obra de Isaias Melsohn com sua crítica ao conceito de inconsciente; pela recuperação do método psicanalítico em obra – hoje conhecida como “Teoria dos campos” – de Fabio Herrmann e seu conceito de campo, derivação da crítica ao conceito de inconsciente; por uma reflexão de Durkheim para quem “As almas individuais agregadas geram um fenômeno sui generis, ‘uma vida psíquica de um novo gênero’; proponho, neste trabalho, pensarmos na alternativa de trabalharmos com o conceito de “campo transferencial” e não apenas com os conceitos de transferência e contra-transferência.
Unitermos: inconsciente, campo, transferência, campo transferencial.

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Questões éticas na transferência e na confidencialidade

Paulo Marchon*

Resumo: O autor focaliza a importância da relação transferencial desenvolvida em uma análise e chama a atenção para a problemática ética envolvendo o paciente, analista, supervisores e professores, face à situação especial dos pacientes e, especificamente, dos candidatos. Mostra a importância de favorecer o diálogo dentro das sociedades a respeito destes problemas e chama a atenção para algumas tentativas de enfoque possíveis. Aborda a possibilidade de uma Ouvidoria a fim de facilitar o atendimento de tais questões com um mínimo de burocracia e um máximo de diálogo. Lembra o caso de Masud Khan, que, quarenta anos depois, ainda dá trabalho à Sociedade Britânica, conforme está no paper de Anne Marie Sandler, bem como no editorial do International Journal of Psychoanalysis.
Unitermos: transferência, professor, pai, atuação, Masud Khan, Wynne Godley, Anne Marie Sandler, confidencialidade, amor.

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Distúrbios da alimentação, anorexia, bulimia e compulsões: histórias de segredos e paixões


Marina Ramalho Miranda•


Resumo: A contribuição da psicanálise está em oferecer seu olhar, que toma os fenômenos anoréxicos e bulímicos como manifestações de um sofrimento psíquico, organizações defensivas extremamente poderosas que enclausuram a mente num corpo-cárcere, pelas formas atuadas e violentas de expressão corporal, pelos sucessivos actings, típicos da era contemporânea, onde a elaboração ponderada do pensar é trocada pelas ações impulsivas da concretude psíquica, impossibilitando o psiquismo dessas mulheres1 de atender seus desejos, que ficam perdidos e negados. Mulheres fundidas com a figura materna, que caminham na contramão da natureza o tempo todo, escondendo seus atrativos femininos, negando a fome, a dor, a vontade sexual, assim como as suas necessidades afetivas em geral, e escolhem a comida e o corpo como representantes-fetiches de um afeto que na verdade nada tem a ver com a alimentação em seu sentido concreto.
Unitermos: anorexia, bulimia, sofrimento psíquico, alimentação.

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Patologias narcísicas e alteridade

Paulo Cesar Sandler*


Resumo: O estudo enfoca conseqüências macro-sociais de aspectos relacionados à posição esquizo-paranóide e narcisismo, originando desprezo à vida e ao outro. Sem psicologismos ou sociologismos, ou seja, sem reducionismos, usa o tema “Psicanálise e poder”, que havia sido enfocado anteriormente pelo autor em 1986. Tenta iluminar certos mecanismos psicóticos e estados de alucinose compartilhada que marcam a ascensão e queda de regimes totalitários e criminosos. O fato das quedas serem súbitas e muito rápidas é enfocado. Questões de consideração à verdade e à vida são incluídas, assim como exemplos práticos de inserções da psicanálise em meios sociais marcados por política e fantasias de poder e imortalidade.
O poder é considerado como um estado paradoxal, e não como algo suscetível a ser analisado sob relações de causa e efeito sociológicas ou psicológicas. Assim, seria extrínseco e intrínseco ao indivíduo. Extrínseco ao indivíduo, na medida em que se substancia em pares ou grupos, e se concretiza por meio de conluios e identificações projetivas cruzadas dependentes de relações entre pessoas. Estas relações incluem sempre idealizações e fantasias sádicas. E ao mesmo tempo intrínseco a indivíduos, que precisa ter uma determinada dotação – provavelmente genética – de narcisismo, esquizoidia e paranóia. A inveja primária, típica destes estados, se consuma tanto no “poderoso” como no “apoderado”. Que se igualam nestas dotações, sendo a alucinose, a mídia fantasiosa pela qual a fantasia se concretiza. Na falta de evidência de superioridade de um ser humano sobre o outro, como toda mentira e fantasia, ela pode ser concretizada de modo sempre destrutivo no âmbito da realidade material, reproduzindo a destruição havida na realidade psíquica.

Unitermos: psicanálise, poder, identificação projetiva, alucinose, narcisismo, alteridade, posição esquizo-paranóide, idealização, vínculos, sadismo.

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O narcisismo na relação analítica
Experiência básica de ruptura

Maria de Fátima Rebouças Malva*

Resumo: Aproximando o conceito freudiano de “ideal do ego” (1923/1976) do de “melancolia” (1917/1974), a autora estuda um estado de mente específico, próprio da angústia experimentada diante da ameaça de perda do objeto. Refere-se a um ego ferido pelas profundas falhas em suas tentativas de relação de objeto, erigindo, em função de uma enorme angústia, uma necessidade de que lhe seja justificada a eficiência da relação objetal vivida. A experiência de falta de sentido, apresenta-se dentro de um discurso vazio, já que não encontra referências em seu mundo interno, que lhe permita suportar o impasse. A dinâmica é trazida para a relação analítica, pensando na multiplicidade de experiências emocionais experimentadas em cada momento de modo particular. O encontro das mentes do analista e do analisando determinam os pontos tocados em seus narcisismos e suas defesas emergentes. Procura, nesse artigo, enfocar esses momentos em que os egos, tanto do analista quanto do analisando, sentem-se ameaçados pelo desamparo e pelo vazio decorrentes da impossibilidade do pensar, na situação específica do confronto desses egos, levando ao que é denominado de experiência básica de ruptura.

Unitermos: narcisismo, relação analítica, experiência básica de ruptura, ideal do ego, melancolia, representante psíquico do desamparo, sombra do objeto, identificação.

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Violência contra bebês

Eliane Pessoa de Farias*

Resumo: Tomando como ilustração duas vinhetas clínicas de consultas terapêuticas com pais e bebês e o filme japonês Ninguém pode saber, a autora desenvolve o tema buscando uma compreensão dinâmica sobre as origens dos maus-tratos e da negligência aos bebês. Discorre sobre a precocidade dessa violência, o funcionamento psíquico dos pais no pós-parto e a reação das crianças frente aos maus-tratos.

Unitermos: abandono, bebê, maus-tratos, negligência, relação pais-bebê, violência.

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A difícil relação homem-mulher:
as vicissitudes do convívio com as diferenças

Ambrozina Amalia Coragem Saad*

Resumo: O texto apresenta uma reflexão acerca da relação entre os gêneros, abordando a questão da disputa do poder e do difícil convívio com as diferenças. Aponta as representações e os símbolos da condição masculina e feminina na nossa sociedade, seus estereótipos e as mudanças ocorridas nos últimos tempos. Considera a relação entre os gêneros como expressão das ideologias e dos discursos masculino e feminino e ilustra a questão com exemplos de letras de composições musicais brasileiras. Ao final, conclui que o caráter singular e enigmático da condição humana – manifestação da interação entre natureza e cultura – não permite a apresentação de padrões rígidos e definidos de relações.

Unitermos: gênero, masculino-feminino, disputa de pode

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O poder das identificações alienantes quanto ao gênero

Teresa Rocha Leite Haudenschild*

Resumo: A autora apresenta dois casos clínicos em que identificações e fantasias transgeracionais impedem o crescimento psíquico das analisandas. Detectadas, elas podem ser nomeadas e, como um fato selecionado, focalizadas, podendo então iniciar-se um trabalho de busca de significados para experiências emocionais vividas nas relações intra-psíquicas e intersubjetivas. Daí a importância do analista contar com esse instrumental teórico na abordagem transferencial-contratransferencial, o qual muitas vezes possibilitará que analisando e analista ultrapassem impasses do processo analítico, insuperáveis de outra forma. Para finalizar a autora propõe que o psicanalista não deixe de contextualizar o indivíduo no grupo e na cultura, em nome de uma “psicanálise purista”, a seu ver empobrecedora.

Unitermos: identificações alienantes, fantasias transgeracionais, transferências transgeracionais, capacidade negativa.

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Barbárie, terrorismo e psicanálise

Fernando Linei Kunzler*

Resumo: O autor partindo do 11 de setembro de 2001, da barbárie da morte do jornalista Tim Lopes e de uma propaganda de alimentos em que seres humanos são os invólucros-comestíveis, faz duas perguntas: é possível inscrever estas violências no aparelho psíquico e, do ponto de vista deste aparelho, não estaríamos caminhando para trás, não estaríamos voltando a ser bestas?

Unitermos: barbárie, terrorismo, inscrição psíquica, Freud-Fliess: carta 52.

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Barbárie, terrorismo e paranóia

Roosevelt M. Smeke Cassorla*

Resumo: Após discutir o conceito de barbárie civilizada, esse fenômeno e o terrorismo são descritos utilizando-se o modelo da paranóia. As fantasias e mecanismos projetivos são comparados com a descrição do caso do Presidente Schreber efetuada por Freud.

Unitermos: barbárie, terrorismo, paranóia, caso Schreber.

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Barbárie? Civilização: um ponto de vista psicanalítico

Ney Couto Marinho*

Resumo: O autor parte da suposição de que a proposta dos organizadores do congresso é válida, ou seja: a psicanálise tem algo a dizer acerca de barbárie e terrorismo. Considera que qualquer que seja a conceituação de terrorismo, sempre implica num componente irracional, específico objeto de estudo da psicanálise. Passa a discutir a relação progresso e racionalidade, a partir da contemporânea filosofia da ciência (Larry Laudan) e da psicanálise (Hans Thorner). Frisa o aspecto de perda e o conseqüente trabalho de luto que acompanha a noção de progresso. Utiliza um material clínico como pano de fundo da discussão das diversas situações de terror, nos tempos atuais. Menciona o debate, entre Habermas e Derrida, sobre o acontecimento de 11/9/2001. Assinala as divergências e a concordância: luto pela razão iluminista e o resgate de suas promessas. Finaliza articulando a “crise da psicanálise” com o fracasso da razão iluminista. Acompanha o texto referências cronológicas à reação de Freud ao desencanto com a Primeira Grande Guerra.

Unitermos: barbárie, terrorismo, psicanálise, progresso, racionalidade, luto.

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Garimpando na fronteira psicanálise-literatura

Carlos Doin*

Resumo: O trabalho toma por base alguns dos diversos enfoques que a questão dos traumas tem recebido na literatura psicanalítica, inclusive seus vínculos com a compulsão à repetição, narcisismo, perversões e transferências, além de outros. São destacados os paradoxos da traumatofilia, em função de suas origens e desdobramentos. Algumas contribuições das neurociências são acrescentadas a certas visões psicanalíticas do problema.São comentadas as dificuldades técnicas das análises destes casos e os possíveis limites da ação terapêutica, do lado do paciente e do analista. Alguns pontos são ilustrados com vinhetas clínicas.

Unitermos: trauma, traumatofilia, compulsão à repetição, neurociências, neurociência cognitiva evolutiva

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O fascínio do poder

Maria Olympia de Azevedo Ferreira França*

Resumo: Neste trabalho o autor pretende agregar um olhar psicanalítico àquilo que considera a essência do poder humano – constituição do sentimento de estar vivo – a partir das propostas teóricas de Freud, Klein, Winnicott e Bion, no que diz respeito às categorias da força da pulsão, suas figurações internas e externas (phantasias), e o mecanismo de identificação projetiva.

Unitermos: poder e força de vida, poder onipotente das phantasias, identificação projetiva, criatividade primária.

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Terror, representação e psicanálise

Deodato Curvo de Azambuja*

Resumo: O fio de ligação entre o grupal, o social e o individual é a identificação, uma das pernas do Édipo. Será através dessa perna que encontramos a encarnação do terror. A questão não está em superar o Édipo ou as identificações, mas em pensar o mito e não apenas sermos pensados pelo mito. Ser apenas pensado pelo mito é o território propício ao terror.

Unitermos: mito, Édipo, terror, representação, pensamento, psicanálise.

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Terror e representação: um estudo ideográfico

José Renato Avzaradel*

Resumo: O trabalho visa estudar a constituição das representações a partir da investigação da estrutura dos ideogramas. Serão estudados pictoricamente com apresentação de pranchas. A observação destas permite que se compreenda como se formam os significados, instrumentalizando o psicanalista para uma prática mais acurada da rêverie.

Unitermos: ideograma, representação, significado, rêverie.

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Psicanálise, psiquiatria e poder*

Maria Cristina Reis Amendoeira**

Resumo: A partir das idéias de Berlinguer (1969/1976), consolidadas no livro Psiquiatria e poder, com o material produzido no seminário intitulado “Psiquiatria, psicologia e relações de poder”, em 1969, a autora referencia algumas questões ali levantadas, para destacar as relações existentes entre psicanálise e psiquiatria na contemporaneidade.

Unitermos: psiquiatria, psicanálise, contemporaneidade.

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Psicanálise e socialismo
A utopia dos socialismos – ou quanto à possibilidade da psicanálise socorrer o socialismo democrático

Moises Tractenberg*

Resumo: A psicanálise poderá auxiliar o movimento socialista democrático internacional em suas crises apenas quando for capaz de pesquisar as origens e encontrar soluções para as crises do próprio movimento psicanalítico; esvaziamento dos consultórios; diminuição do interesse pela formação; omissão dos psicanalistas frente aos comportamentos tanatofílicos coletivos – guerras e mutilações genitais de crianças e adolescentes. A verdadeira contribuição da psicanálise ao movimento socialista democrático consiste em oferecer um conhecimento singular e privilegiado sobre os significados inconscientes coletivos que governam o novo processo sócio-cultural da humanidade.

Unitermos: marxismo, psicanálise, socialismo, comunismo, nazismo, matrizes patriarcais, organização fraterna, inconsciente coletivo, big brother planetário.

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Afetos, sobrevivência e desenvolvimento na neuro-psicanálise

Yusaku Soussumi*

Resumo: Neste trabalho, o autor retorna a um tema por ele já diversas vezes abordado, buscando agora fazer a sistematização que Freud e seus seguidores não empreenderam, incorporando os avanços na investigação dos afetos, emoções e sentimentos alcançados pela neurociência das emoções e neurociência do desenvolvimento, principalmente sob os pontos de vista da sobrevivência e da evolução. A partir desses pontos, desenvolve o trajeto evolutivo do processo de auto-regulação e do desenvolvimento da cognição moduladas pelos sentimentos como a maior conquista desse processo.

Unitermos: psicanálise, neuropsicanálise, afetos, emoções, sentimentos, cognição.

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Considerações sobre uma experiência clínica

Theodolinda Mestriner Stöcche*

Resumo: Este trabalho tem por objetivo discutir o impacto da experiência traumática, considerando-se os aspectos do desenvolvimento psíquico e neuro-motor observados numa criança de oito anos de idade. Pretendemos oferecer uma visão orientada por vários vértices, na interface da psicanálise com a neurociência. Serão apresentados os resultados de um trabalho de nove anos de acompanhamento, no qual procuramos adequar a técnica psicanalítica, seguindo as formulações de Anne Álvares acerca do trabalho com crianças traumatizadas nos primórdios do desenvolvimento.

Unitermos: traumática, desenvolvimento, impacto.

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Resgatando o feminino através da experiência somato-psíquica: da dor ao sofrimento psíquico

Cândida Sé Holovko*

Resumo: Este artigo visa pontuar algumas reflexões a respeito das manifestações somato-psíquicas nas sessões psicanalíticas e sua relação com integração de aspectos do feminino.
A partir da evolução de um processo psicanalítico, a autora procura ressaltar como algumas manifestações somáticas de uma analisanda, podem ser vistas como sinais de um processo transformador que marca a passagem de um corpo feminino esquecido, não nomeado, para um corpo banhado pela imaginação e mais harmonioso com a psique.
Neste processo coloca em destaque o resgate do feminino-materno como suporte da feminilidade, em uma analisanda com profunda dissociação desses elementos na personalidade.

Unitermos: somatização, sexualidade feminina e masculina, elemento feminino puro, materno puro, materno primário, feminilidade, sonho.

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A investigação psicanalítica está ameaçada de extinção?

Theodor S. Lowenkron*

Resumo: Considero que o método de investigação ocupa a posição primordial em relação aos três sentidos propostos por Freud para psicanálise – método de investigação, forma de tratamento e teoria –, bem como admito considerar a psicanálise uma ciência empírica, remetendo a representação da empiria, particularmente, ao campo da transferência.
Segundo Cooper, entretanto, a pesquisa empírica consiste no estudo sistemático de qualquer fenômeno realizado por meio de uma metodologia, que permita alguma forma de análise estatística e que forneça elementos que possibilitem a outros tentarem replicar a experiência. Wallerstein e Green ilustram exemplarmente a polêmica que essa concepção de pesquisa empírica suscita em psicanálise. Herrmann considera que pesquisa dita empírica em psicanálise é tentativa de imitação do modelo positivista de erradicação de desvios interpretativos do pesquisador, o que preside esse tipo de pesquisa é a verificação objetiva e o fascínio por experimentos quantitativos, que não passa de uma certa nostalgia da ciência natural, do desejo de substituir o método psicanalítico pelo método de verificação quantitativa. Já Renato Mezan delineia duas direções para a pesquisa em psicanálise: a vertente incluída nos programas universitários, cujo objeto de pesquisa é constituído, principalmente, por textos, e a vertente do modo de produção dos conhecimentos psicanalíticos de Freud, Kohut e Green. A coesão interna, a comunicabilidade, a verificabilidade e a cumulatividade aparentam a psicanálise às formulações científicas e os aspectos da prática terapêutica a aparentam às artes e à ourivesaria. A contribuição de Birman ao debate valoriza, por um lado, o espaço psicanalítico não por sua exterioridade, mas pela dimensão básica do processo psicanalítico e, por outro, a interdisciplinaridade para o avanço do saber psicanalítico, afirmando que é a experiência psicanalítica que tanto define a direção da pesquisa em psicanálise como admite diversas possibilidades de clínica.
Com minha experiência em pesquisa e a reflexão teórica apresentada insiro-me neste debate posicionando-me com Freud: se a experiência estiver alicerçada nos conceitos fundamentais da psicanálise – o inconsciente, a resistência e a transferência, qualquer linha de investigação tem o direito de chamar-se psicanalítica. Enfim, trata-se primordialmente de qualidade e não de quantidade.
Ressalta-se, ainda, com vistas à sua contribuição para o progresso no campo da psicanálise e da saúde mental, a necessidade de revisão da definição de psicanálise estabelecida pela International Psychoanalytical Association (2003), que se limita apenas a dois sentidos – a teoria e a terapia – e desconsidera o sentido da investigação, que, para Freud, é o primeiro dos três sentidos da psicanálise.

Unitermos: conceito de psicanálise, discussão conceitual, análise crítica e proposta sobre a definição atual de psicanálise da IPA.

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Interfaces: psicanálise, medicina e saúde pública
Marta Regina de Moraes Foster*

Resumo: A proposta deste trabalho é demonstrar que a “escuta psicanalítica” pode ser uma grande aliada no trabalho em Instituições Públicas e na Medicina. Para isto descrevo minha experiência em dois projetos em que a psicanálise atua em conjunto com médicos em atendimentos de grupos em um hospital público e pacientes com doenças crônicas em um centro clínico.
Unitermos: escuta analítica, medicina, doenças crônicas, saúde pública, grupos, jogos patológicos, obesidade.

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O lugar da psicanálise na justiça: lei, drogas e
tratamento

Ivone Stefania Ponczek*

Resumo: Este trabalho aponta para a importância do diálogo da psicanálise com a universidade, com outras ciências, no caso, com as jurídicas, com a finalidade de reforçar que o âmbito de aplicação da psicanálise, enquanto teoria e prática, não atravessa apenas as paredes do consultório, também tem compromisso social e político para promover mudanças até nas leis, como foi no caso da Lei 6368, que dispõe sobre drogas. Através da participação em vários fóruns de discussão sobre esta lei, a ser sancionada pelo Senado, a autora e outros profissionais da área de saúde, dentre estes, alguns psicanalistas, puderam dialogar sobre questões concernentes ao tratamento do usuário de substâncias psicoativas, sua despenalização em prol de tratamentos e, neste item, estabelecer críticas à chamada “justiça terapêutica”, apontando para questões clínicas e metodológicas. Foram apontadas outras possibilidades de tratamento e de abordagem da dependência a drogas, com fundamento na psicanálise, como se preconiza no Núcleo de Ensino e pesquisa em atenção ao uso de drogas da Universidade do Rio de Janeiro (NEPAD-UERJ), instituição na qual a autora é coordenadora clínica.


Unitermos: diálogo intedisciplinar, Justiça, compromisso político, lei, drogas, justiça terapêutica, modalidades de tratamento, dependência a substâncias psicoativas.

 

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