Os
traumas nossos de cada dia
Cláudio Laks Eizirik*
O primeiro congresso da Associação
Psicanalítica Internacional a ser realizado
no Brasil, em julho próximo, no Rio de Janeiro,
se debruçará sobre o trauma, em suas
múltiplas perspectivas. Conceito nuclear
da teorização freudiana, pode-se visualizar
o trauma como uma encruzilhada para onde convergem
e de onde partem inúmeras vias e possíveis
vértices de reflexão: metapsicológicos,
clínicos, reconstrutivos, transferenciais,
psicopatológicos, de interface com a cultura,
institucionais, de pesquisa.
A partir do amplo programa elaborado para o Congresso
do Rio, que oferece espaço para todas essas
áreas e certamente vai permitir uma ampla
reflexão compartilhada, podemos supor que
teremos uma estimulante oportunidade para fazer
avançar nossa disciplina.
Ao mesmo tempo que aproveito este momento para saudar
a realização desse encontro - tão
longamente adiado - penso ser oportuno destacar
algumas questões que possivelmente nos ocuparão
nos próximos anos. O Congresso do Rio, afinal,
marca também o início da segunda administração
latino-americana da IPA, e a primeira brasileira,
e estaremos todos envolvidos numa desafiadora tarefa
conjunta.
Assim, gostaria de compartilhar, brevemente, com
os leitores da Revista de Psicanálise da
ABP uma série de indagações,
cada uma das quais capazes de constituir ou já
constituindo o que poderíamos chamar, num
sentido amplo, os traumas nossos de cada dia.
Qual o estado atual de nossa teorização?
Em que medida é possível desenvolver
um diálogo entre as diferentes teorias psicanalíticas
ou escolas de pensamento analítico e suas
múltiplas interseções? Será
conveniente estudá-las comparativamente ou
estimular o aprofundamento de cada uma? Como evoluem
as idéias psicanalíticas em cada região?
Como se transformam seus paradigmas? Em que medida
conseguimos ouvir a outra teoria, que não
a nossa? Algumas vezes, temos a impressão
de que o seguidor de uma linha teórica recita
seu mantra e queda satisfeito, sem tentar o afanoso
trabalho de entender a lógica interna da(s)
outra(s) visão(ões). Por outro lado,
observa-se um crescente movimento de busca do diálogo
e da interlocução. Até que
ponto poderão ser atingidos?
A clínica psicanalítica, como um todo,
apresenta hoje maiores possibilidades que no passado.
Mas deixa abertas várias questões:
é possível avaliar a competência
clínica em psicanálise? São
convenientes e/ou necessários estudos de
efetividade? Em que consiste - na era das disciplinas
baseadas em evidências - a evidência
psicanalítica? Devemos aderir a um estrito
modelo único de formação ou
reconhecer que dispomos de diferentes modelos, cada
um com sua coerência interna? Não terá
chegado o momento de voltarmos nossa atenção,
nossos esforços e nossa libido institucional
para o estudo e para uma nova e intensa ênfase
na prática analítica e sua teorização?
Não estaremos necessitados - como área
prioritária - de mover nossa associação
internacional em direção a um amplo
e continuado programa científico, que tenha
a clínica psicanalítica como ênfase,
e o reconhecimento de que este é o locus
que afinal definirá nossa relevância
na cultura e nosso futuro como disciplina?
E como levar adiante nossa relação
com a cultura? Adaptando-nos à “sociedade
do espetáculo” e tornando a psicanálise
mais “light” e simpática, mantendo
uma olímpica pureza metodológica e
clínica ou tentando encontrar um equilíbrio
entre o que nos é específico e uma
fala capaz de ser entendida? Como devemos conversar
com a universidade, com a psiquiatria, com a psicologia
e com as ciências humanas? Ainda seremos capazes
de um diálogo entre saberes diferentes, mas
necessariamente interdependentes?
E quanto às nossas instituições?
Um já relativamente longo percurso institucional
anima-me a ousar esta questão: estará
o desafio nos aspectos organizacionais e administrativos
ou nosso grande problema consiste em encontrar maneiras
de lidar com o narcisismo das pequenas diferenças?
Como acolher, conviver, tolerar, não ser
levado a respostas submissas ou retaliatórias
face ao reiterado e “sagrado direito da queixa”
de que falava o saudoso Fernando Guedes? Como manter
o clima institucional dentro de um equilíbrio
que permita o continuado convívio e a produção
de conhecimento psicanalítico ?
E, por falar nisto, por que e para que necessitamos
de uma instituição psicanalítica
internacional tão complexa, distante, confusa,
cara e aparentemente inoperante face às nossa
necessidades imediatas? Ou mesmo para que nos servem
as instituições nacionais e regionais?
Não temos aquilo de que necessitamos em nossas
sociedades, em nossas análises e supervisões,
nossas comissões, nossos grupos de estudo?
O que nos importa o que ocorre com a psicanálise
numa província distante? Não somos
capazes de matar um mandarim, com um simples desejo?
Por que examinar o que acontece em culturas analíticas
vetustas ou naquelas que recém balbuciam
suas primeiras associações livres?
Acaso somos os guardiães de nosso irmão?
Ou estaremos todos mais interdependentes do que
gostaríamos de admitir?
Ou necessitamos da tradição e dos
consensos possíveis entre distintas regiões
e culturas para proteger nosso legado comum?
Ou o que ocorre nos confins da Europa, da América
do Norte ou da América Latina hoje, poderá
ocorrer em nossa casa amanhã? Ou vice-versa?
E por que não podemos estreitar laços
e cumplicidades, aprender a ouvir outros idiomas
teóricos, clínicos e culturais, e
ampliar uma rede que nos acolha e anime quando caímos
no espaço sem fim da angústia e do
desamparo?
Não seremos todos, afinal , cada um ao seu
modo, os guardiões de nossos irmãos
e de nossa mãe-irmã-amiga, a psicanálise?
Cláudio Laks Eizirik
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Por
que uma conferência internacional de psicanálise?
Elias M. da Rocha Barros*
Qual a motivação de 2200 analistas,
provenientes dos quatro cantos do mundo, para se
reunirem nesta conferência internacional?
Além do prazer gregário de nos encontrarmos,
de revermos amigos que vivem em cidades distantes,
com os quais temos poucas oportunidades de conversar,
é preciso algo mais que justifique tal dispendio
de energia e de recursos.
Acredito que se trate de um misto de preocupação
com o estado atual do nosso conhecimento e de uma
excitação, permeada de entusiasmo
maior ou menor quanto ao futuro de nossa disciplina.
Creio que atravessemos uma crise em nosso campo,
que tem tudo para ser salutar, mas que, se não
for bem elaborada, pode atolar a psicanálise
num sem fim de repetições de teorias
já conhecidas e apresentadas em linguagens
herméticas, senão absolutamente esdrúxulas,
ou seja, um sem fim de reiterações
do mesmo.
Será que a psicanálise está
requerendo uma revisão de seus fundamentos,
como Jean Laplanche sugere? A julgar pelas contribuições
apresentadas a esta conferência, penso que
sim, ainda que as tentativas de fazê-lo, pelo
menos em tais trabalhos, sejam incipientes. Contudo,
percebe-se, na imensa maioria dos trabalhos, uma
tentativa, não necessariamente bem sucedida,
de buscar novos caminhos sem perda do rigor, um
aspecto positivo desse nosso encontro. Essa busca
se apresenta nesta conferência mais como um
meio de abertura de novos campos de aplicação
da psicanálise do que como formas de aprofundamento
e renovação conceitual, que também
são visivelmente necessárias. A psicanálise,
vista a partir dos trabalhos dessa conferência,
está mais voltada para a cultura e para o
social. De tanto falarmos na crise, parece ter finalmente
chegado o momento de a psicanálise se preocupar
com ela e se voltar para a cultura em que se insere,
para os grandes traumas sociais (genocídios,
miséria, exclusão social, violência
doméstica, violência contra a mulher,
desestruturação da família).
Este é um primeiro movimento para fora, antes
de nos voltarmos para nós mesmos e examinarmos
criticamente a nossa teoria da clínica.
Talvez grande parte da insatisfação
sadiamente presente provenha de um fenômeno
que a analista italiana Stefania Turillazzi Manfredi
(1998) caracterizou como As certezas perdidas da
psicanálise clínica, título
de um ótimo livro seu.
A teoria de que dispomos não dá conta,
nem conceitua, ainda que descritivamente, da riqueza
do fenômeno clínico que observamos,
o que não quer dizer que nossa clínica
não seja rica ou efetiva.
Neste contexto é que o tema desta quadragésima
quarta Conferência Internacional de Psicanálise
foi definido. Inicialmente foi sugerido que a reunião
abordasse o tema “Os novos desenvolvimentos
da psicanálise”. Nessa altura, Marcio
Giovaneti propôs que não discutissemos
os desenvolvimentos isoladamente, um tema muito
geral, mas a questão do trauma. Este serviria
de fundo para a discussão dos novos desenvolvimentos.
Marcio me disse que o exame do conceito de trauma
levaria a uma revisão profunda de nosso campo
por parte das várias escolas, ou, melhor
dizendo, mais de acordo com o estágio atual
de nossa disciplina, das várias “famílias
psicanalíticas”. Levada à primeira
reunião em Nova York, a sugestão foi
acolhida entusiasticamente. Werner Bohleber, co-presidente
para a Europa, estava trabalhando em vários
projetos de pesquisa que envolviam a problemática
do trauma, tanto a nível conceitual quanto
de intervenções em comunidades profundamente
afetadas por tragédias. Robert Galaztzer
Levy, presidente do comitê e representante
da América do Norte também acolheu
bem a sugestão, acreditando que o tema de
fato permitia uma revisão conceitual ampla
e representava uma abertura para um conjunto muito
grande de intervenções de ordem comunitária
influenciadas ou totalmente guiadas pela abordagem
psicanalítica. Abel Fainstein e eu, co-presidentes
pela América Latina, mais afeitos à
clínica, pensávamos que realmente
seria uma boa oportunidade de revermos nossa clínica
a partir desse conceito fundante da psicanálise
clínica. De que modo vemos o trauma, hoje?
É preciso enfatizar que tudo isto acontecia
tendo como pano de fundo o desassossego mundial
produzido pelo ataque terrorista às torres
gêmeas americanas.
A questão cultural ou sociopolítica
do momento apontava para a importância de
retomarmos o exame da chamada abordagem cultural
de Freud. A cultura, afinal de contas, como Leopold
Nosek tem acentuado entre nós, é o
celeiro no qual colhemos material para a elaboração
de nossas representações mentais e
culturais, que fornecem matéria para nossos
“sonhos” e sua elaboração.
O tema “Trauma: novos desenvolvimentos”,
neste contexto, dá oportunidade de examinarmos
nossa clínica, suas limitações
com relação à teoria de que
dispomos para pensá-la, novos campos de aplicação
da psicanálise e o processo de elaboração
mental, ao nível da nossa produção
cultural.
A enfâse desta conferência está
posta, portanto, na necessidade de debates mais
interessantes e vibrantes, que dêem conta
da complexidade do fenômeno clínico
observado quotidianamente nos nossos consultórios,
e do impacto das grandes transformações
culturais pelas quais estamos passando.
Nosso objetivo, ao nos reunirmos numa conferência
internacional, não pode ser de homogeneizar
nossas concepções ou teorias analíticas
– somos pluralistas por natureza - mas de
fazer avançar nossas reflexões sobre
o que observamos. Buscamos, penso, ângulos
comuns de observação de diferentes
experiências, de modo que possamos conversar
sobre o que apreendemos. Nosso objetivo não
é avaliar que abordagem ou escola é
melhor, mas compreender a natureza das problemáticas
geradas e das respostas fornecidas pelos diversos
pontos de vista, para que possamos estabelecer um
debate profícuo e uma troca de opiniões
verdadeira.
Este confronto com nossas limitações,
bastante evidenciado no campo da aplicação
ao social, talvez promova uma reconsideração
dos nossos pontos de vista. Poincaré (citado
por Manfredi, 1998) dizia: “As boas teorias
são flexíveis”. Elas triunfam
sobre as objeções sérias, e
o fazem transformando-se. As objeções
não servem para invalidar as boas teorias,
mas para que estas possam desenvolver toda as suas
potencialidades”.
Outro campo que será contemplado nesta reunião
é o da relação das neurociências,
suas descobertas, e sobretudo de seus modelos da
relação mente-cérebro, com
a psicanálise. Kristeva coloca um problema
interessante em relação à questão:
“Que características da palavra interpretativa
podem entrar em ressonância com o destino
simbólico do sujeito, para tocar até
mesmo seu substrato biológico e modificá-lo?”
Esta abordagem, creio, nos oferece uma possibilidade
de reflexão que coloca o biológico
e o mental psicológico na perspectiva justa,
sem ignorar o cultural.
Estamos visivelmente diante de uma palavra interpretativa
com características próprias, que
a transformam em algo mais do que meras palavras.
Que características são essas? Elas
derivam de um tipo especial de escuta, que denominamos
até aqui de psicanalítica, muito distinta
da escuta do senso comum.
A situação analítica sempre
está ameaçada de se transformar numa
situação real. O instrumento metodológico
contra esta possibilidade é a interpretação.
Esta tem a função primordial de zelar
pela manutenção das condições
de observação do inconsciente, além
da de possibilitar mudança psíquica.
A definição das características
centrais da situação analítica
é objeto de várias contribuições.
No que tange ao plano educacional, da formação
de novos analistas, vários colegas examinam
a questão dos diferentes modelos de formação
analítica. Nos últimos cem anos, a
psicanálise procurou lidar com a questão
da prática clínica e do preparo teórico
por meio de um processo de descolamento do senso
comum apoiado no conhecido tripé de Eitington.
E, deve ser dito, apesar de todas as críticas
a este modelo, não conhecemos nenhum modelo
realmente novo que o substitua, bem como, em conseqüência,
nenhuma sociedade que o tenha abandonado. O que
tem variado, é a ênfase dada a cada
uma das pernas do tripé, com relação
às outras duas, e às suas formas de
interação. Há sociedades, por
exemplo, que deslocaram o centro da formação
para o processo de supervisão.
De início, este modelo propunha uma imersão
total no processo analítico, através
da concomitância da análise didática
com as supervisões e com a participação
dos seminários teóricos e clínicos.
Esta imersão proporcionava a oportunidade
de se diferenciar o propriamente analítico
de outros níveis de abordagem, alguns mais
próximos do senso comum e mais afeitos à
psicologia. Esta concomitância de experiências,
que garantia sua unidade e especificidade, foi sendo
abandonada aos poucos, pelas mais variadas razões.
Embora a referência ao tripé de Eitington
continue a ser mencionado e evocado, perdeu-se sua
natureza específica, e, em alguns casos,
o ambiente propício ao descolamento do senso
comum dissolveu-se no ar. A grande novidade, hoje,
talvez fosse o retorno a esse clima de imersão
total no psicanalítico. O modus faciendi
ficaria por conta da elaboração dos
participantes da conferência.
Algo também deve ser dito com relação
ao fato desta conferência estar se realizando
no Brasil. No que diz respeito á formação
teórica e clínica dos analistas da
América Latina, creio que tenhamos uma situação
sui generis, que nos caracteriza culturalmente,
e que pode ser muito frutífera.
Tendo vivido em diversas culturas e instituições
psicanalíticas (francesa, inglesa, brasileira)
e de continuar a trabalhar com colegas de outras
regiões do mundo, creio que uma característica
importante da cultura psicanalítica latino-americana
é a produção de uma síntese
original, baseada na nossa capacidade singular de
assimilar idéias novas. Na nossa cultura,
devido ao medo permanente de isolamento, lemos os
autores europeus, ingleses, franceses, italianos,
norte-americanos além dos autores nacionais.
Nossa identidade é construída com
base em empréstimos ininterruptos de culturas
de outros continentes e, ao mesmo tempo, é
a partir deles que definimos nossas diferenças.
Antônio Cândido, a propósito
do caráter nacional da literatura brasileira,
diz: “Os mecanismos de adaptação,
as maneiras pelas quais as influências foram
incorporadas, é que constituem a originalidade,
que, no caso, é a maneira de incluir em contexto
novo os elementos que já vêm do outro”.
Nossa invenção está na maneira
de rearticular as perguntas diante do material clínico,
a partir de uma maneira própria de assimilar
influências. Não rompemos, e nem poderíamos
tê-lo feito, com outros centros produtores
de conhecimento, mas passamos a nos relacionar com
eles de maneira própria, única e original,
através das sínteses por nós
elaboradas.
Na Inglaterra e na França, os analistas,
por terem que enfrentar uma cultura hostil à
psicanálise, sentiram-se culturalmente pressionados
a manter o grupo unido, o que os levou a enfatizar
a necessidade de privilegiar a coerência interna
de suas idéias e modelos. Com vistas a conseguir
este resultado, tendem a ler e a citar só
os autores de seu próprio grupo. Em consequência,
produzem artigos, com algumas exceções,
claro, que lidam com uma amplitude de idéias
pequenas, mas com uma coerência interna muito
grande. O material clínico é utilizado
centralmente para ilustrar suas idéias de
modo geralmente muito coerente, deixando pouca margem
para reflexão sobre questões complexas,
para as quais ainda não temos respostas.
Na América Latina, por sua vez, tendemos
a estar menos “preocupados” com nossa
coerência interna do que os autores europeus
e norte-americanos. Devido, talvez, a um retraimento
que data da era colonial, não escrevemos
para “convencer”, mas para expressar
nossas perplexidades, nossas dúvidas, e aproveitamos
para refletir; assim, nossa falta de crença
em respostas definitivas se projeta em nossos textos.
Nestes, o caráter conjectural, especulativo,
às vezes mencionado sem delimitações
precisas, freqüentemente expressa nossa perplexidade
e não lacunas em nosso pensamento.
Paradoxalmente, é devido a esta liberdade
de incorporação de idéias provenientes
dos mais diversos contextos culturais e teóricos,
com as quais dialogamos para elaborar nossa síntese
particular, que necessitamos de critérios
bem estabelecidos de avaliação de
nossa coerência de argumentação.
Ricardo Bernardi (2002) toca nesta problemática,
afirmando: “Guiar-se pela lógica do
melhor argumento é, definitivamente, mostrar
interesse pelo novo que o outro pode me dizer, e
estar disposto, se for preciso, a mudar.”
Acredito que temos tudo para uma magnífica
conferência.
Elias M. da Rocha Barros
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Variações
do conceito de traumatismo:
traumatismo, traumático, trauma.
Thierry Bokanowski
Resumo: Tendo em mente as considerações
fundamentais de S. Freud acerca do traumatismo,
o autor propõe a diferenciação
das palavras traumatismo, traumático, trauma,
atribuindo-lhes valências diferentes em relação
à organização psíquica
e ao tratamento psicanalítico. Com referência
à contribuição de Ferenczi,
o autor distingue traumas secundários, organizados
de acordo com o princípio do prazer/desprazer,
desde os traumatismos iniciais que inibem o processo
de fusão das pulsões. Um exemplo clínico
ilustra este último tópico.
Unitermos: cisão auto narcísica,
defusão instintual, destrutividade desesperançada,
Hilflosigkeit - desamparo (estado de), dor mental,
princípio de prazer-desprazer, angústia
primária
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A
situação traumática básica
na relação analítica
Raul Hartke
Resumo: O autor procura desenvolver um conceito
de trauma psíquico que respeite o núcleo
dessa noção freudiana, isto é,
um excesso de excitações não
processável pelo aparelho mental, mas que
também considere as funções
e o papel crucial dos objetos na constituição
do psiquismo e nas condições traumáticas,
bem como leve em conta o posicionamento metodológico
de que a relação analítica
é o único locus possível de
observação, inferência e intervenção
do psicanalista. Considera como uma situação
psicanalítica traumática básica
ou mínima aquela na qual uma magnitude ou
qualidade de emoções excede a capacidade
de continência da dupla analítica,
a ponto de gerar um período ou área
de desmentalização no psiquismo de
um ou ambos os participantes, de necessitar um trabalho
analítico quanto a isso e promover uma significativa
mudança positiva ou negativa na relação.
Valendo-se da teoria de Bion sobre a função
alfa e das concepções metapsicológicas
de Freud e Green acerca das representações
psíquicas, apresenta duas formulações
teóricas relativas a essa situação
traumática, utilizando-as segundo o modelo
do “foco alterado” proposto por Bion.
Três exemplos clínicos servem para
ilustrar o conceito e as formulações
teóricas pertinentes.
Unitermos: trauma psíquico, relação
psicanalítica, continência, função
alfa, representação psíquica,
desmentalização, desligamento psíquico,
investigação psicanalítica.
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Especificidade
da tortura como trauma
O deserto humano quando as palavras se extinguem
Marcelo N. Viñar
Resumo: O autor procura estabelecer a especificidade
da tortura – como expressão da violência
política e do Estado totalitário –
no marco histórico do conceito de Trauma,
em psicanálise.
Na presunção simultânea da mente
do laço social, os aspectos intra-psíquicos
e trans-pessoais do dano se entrecruzam numa trama
complexa e singular. O autor aponta a desmontar
a idéia de vítima, por estigmatizante
e incorreta. O objeto do estudo não é
somente identificar as seqüelas e a incapacidade
dos afetados, e sim integrar a experiência
e o relato a um projeto de vida.
Mais que uma psicopatologia individual, a reflexão
aponta - seguindo o eixo freudiano de Psicologia
das Massas e Análises do Eu – a estudar
os fenômenos da sugestão e hipnose
que operam nos grupos humanos em situações
ordinárias, e se
exacerbam em condições de crises sociais.
Palavras-chave: campo de concentração,
humano, narrativa, política, tortura, trauma,
violência, vitima, mundo
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Los
degradados, pra fora, pra baixo, morte, o trauma
transmitido e infligido, conforme foi encontrado
na análise de uma menina de 6 anos.
James M. Herzog
Resumo: O autor descreve a análise de uma
menina a partir do relato de duas sessões
ocorridas durante o oitavo mês e o terceiro
ano do trabalho psicanalítico. São
descritos detalhadamente jogos e brincadeiras, fantasias
e diálogos deste convívio. O autor
conta como vai desvendando com sua paciente os diferentes
traumas passados, suas camadas distintas e, ainda,
como vai propondo um trabalho de discriminação
em meio à dramática turbulência
emocional que se estabeleceu na sessão. Relaciona,
desta forma, seus jogos e suas fantasias a traumas
do passado, vividos pelos familiares e reencenados
na sala de análise. O autor destaca duas
séries de traumas, a primeira relacionada
aos traumas vividos pelos pais da paciente quando
tiveram que deixar às pressas seu país
de origem em função da situação
política que se estabelecera ali e foram
obrigados a emigrar para os Estados Unidos. A outra
série se refere aos traumas vividos pela
mãe e sua família de origem durante
o Holocausto e pela família de origem do
pai, judeus marranos que aportaram há algumas
gerações na América do Sul
como `degradados´. Através da revelação
gradativa destas diferentes situações
traumáticas, tanto na dupla analítica
quanto na família, é feito um trabalho
com a paciente visando a discriminação
entre situações traumáticas
passadas e situação atual. Desta mesma
maneira é também revelada e esclarecida
uma situação de conluio traumático
da mãe com a paciente. O resultado do trabalho
é libertar a paciente da sobrecarga que havia
lhe sido imposta por esta situação
emocional familiar descrita, possibilitando assim
um desenvolvimento normal voltado para suas reais
e genuínas necessidades. O autor aponta ainda
para a possilibidade de um trauma inflingido ou
transmitido ser de fato ainda somente uma camada
encobridora de um outro trauma, este ainda mais
profundo e perturbador, exemplificando esta idéia
com o caso exposto.
Unitermos: trauma transmitido, caráter
traumático, enactment interativo, enactment,
o papel do pai, trauma transgeracional, modulação
e organização da agressividade, regulação
e desregulação afetiva na família,
acompanhamento em análise de criança,
legado incestuoso, interação sexualizada,
relacionamento erotizado.
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Retraumatização
psicanalítica
Alexandre Kahtalian*
Resumo: Este trabalho aborda de forma clínico-teórica
os elementos que interferem na dupla analítica,
criando retraumatizações. Coloca a
dificuldade de se entender que o processo analítico
pelo viés da intersubjetividade, confere
ao analista uma posição privilegiada
no evoluir da análise, ampliando e proporcionando
um encontro mais vivo da dupla, com manutenção
de assimetria. Também discute a reação
terapêutica negativa e a resistência,
que se apresentam quando a presença subjetiva
do analista não é percebida por ele,
e se torna um fator
traumatizante na análise de seus pacientes.
Unitermos: trauma, retraumatização,
intersubjetividade, contratransferência
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Trauma e subjetivação*
José Nepomuceno**
Resumo: O autor apresenta uma articulação
entre trauma e subjetivação, apontando
que a sexualidade é o elemento que permite
esse vínculo. Apresenta, igualmente, por
meio da valorização do corpo e do
intra-uterino, a possibilidade de que o trauma do
nascimento possa ter uma valência psíquica
consistente e, dessa forma, ser suporte para a efetiva
construção da subjetividade. Em termos
gerais, o trauma é visto em sua dimensão
pulsional e como condição estruturadora,
potencialmente comprometido com a vida. A grande
referência teórica utilizada é
Freud, cotejado com vários outros pensadores.
Uma vinheta clínica é apresentada
para ilustrar, parcialmente, as idéias defendidas
no trabalho.
Unitermos: trauma, subjetivação,
sexualidade, desamparo originário
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Trauma*
Celmy de A. A. Quilelli Corrêa**
Resumo: A autora acompanha a teoria do trauma na
obra de Freud com exemplos clínicos e imagens
de situações traumáticas contemporâneas,
relacionando-os aos vários momentos do pensamento
freudiano e ferencziano. Objetivando um resgaste
conceitual apresenta-o como necessário para
que o diálogo entre psicanalistas se realize
com maior precisão e facilidade. Aponta a
importância da transparência na exposição
clínica dos autores atuais que parecem ter
a mesma preocupação.
Unitermos: Trauma, posterioridade, teorias
do trauma em Freud, Ferenczi, Thalassa , trauma
e ferida narcísica.
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A
clínica psicanalítica do trauma
Luís Carlos Menezes
Resumo: O autor faz considerações
sobre o trauma na clínica referindo-se a
quatro trabalhos previamente enviados pela revista.
Destaca a ação exercida por alguém
sobre o sujeito e o não-dito ou a recusa
em reconhecê-la. Efeitos do trauma, ao se
tornarem presentes na situação analítica,
precisam ser reconhecidos e acolhidos pela linguagem,
condição para serem transformados
em memória.
As vinhetas clínicas dos diferentes autores
são examinados nesta perspectiva.
Considerações são feitas com
relação à violência em
grande escala na história recente, discutida
em um dos trabalhos, dedicado em particular ao trauma
decorrente de torturas. Alguns desenvolvimentos
baseados na teoria freudiana do narcisismo são
apresentados no prolongamento da discussão
sobre o mal do ponto de vista da psicanálise.
Unitermos: trauma, linguagem, genocídio,
tortura, narcisismo.
Voltar
A
teoria freudiana do trauma revisitada
Miguel de la Puente*
Resumo: Numa abordagem freudiana que usa alguns
conceitos lacanianos, o autor apresenta os diversos
tipos de traumas: os filogenéticos e os físicos,
o do recalque primário, os traumas das primeiras
identificações e os traumas das psiconeuroses.
Elabora depois pontualizações reflexivas
acerca da questão do trauma puro; do trauma
das psiconeuroses que implicam as teorias da posterioridade
e das séries complementares; e sobre o trauma
e o complexo de Édipo. Discute também
a retomada da teoria traumática a partir
das neuroses traumáticas e a questão
da pulsão de morte influenciando a teoria
traumática para, finalmente, tecer algumas
considerações acerca dos efeitos do
trauma na clínica dos tempos da pós-modernidade.
Unitermos: conceito de trauma, tipos de trauma,
evolução do conceito de trauma, trauma
puro, pulsão de morte e trauma.
Voltar
A
sublimação no tratamento e na teoria
Francesco Conrotto
Resumo: Embora tenha praticamente desaparecido das
teorizações psicanalíticas
mais recentes, o conceito de “sublimação”
continua a ser útil para compreender algumas
transformações que se verificam tanto
no tratamento analítico como no processo
de civilização. O autor, partindo
de Freud, propõe a tese de que na sublimação,
não são os temas sexuais que são
excluídos do conhecimento, mas sim o gozo
orgástico do objeto que é substituído
pelo investimento da “representação
da representação” do objeto,
com a finalidade de atingir o seu conhecimento.
Essa tese implica que a sublimação
esteja estreitamente conectada ao processo de simbolização
e à gênese das pulsões sexuais
de vida; é lícito, assim, falar de
uma “sublimação originária”
à qual se segue uma “sublimação
secundária”, ligada ao crepúsculo
do complexo edípico. O autor considera que
essas transformações se reproduzem
na situação analítica que,
em virtude das regras do setting, torna-se uma situação
sublimatória e o próprio analista,
como guardião do setting, representa um modelo
de identificação na vertente da sublimação.
Unitermos: sublimação originária
e secundária, processo de sublimação
conectado ao processo de simbolização,
situação analítica como situação
sublimatória
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