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Editorial
Leopold Nosek - 781

Alteropoese: sobre a gênese da ideogramaticização no trabalho-onírico-alfa
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho - 785
Freud e a literatura: fronteiras e atravessamentos
Camila Pedral Sampaio - 803

A dimensão trágica do psiquismo: um ensaio
Eva Maria Migliavacca - 843
Conjeturando a expressão dos estados mentais primitivos na relação analítica
Thaís Helena Thomé Marques - 867
A clínica do vazio: novas exigências para o psicanalista
Regina Lúcia Braga Mota - 885
A paciência na elaboração psicanalítica
Manuel José Gálvez - 895
O homem de alma oxidada
José Otávio Fagundes - 915
No limiar do pensável: intolerância à frustração, pensamento e dor mental
Manuela Fleming - 927
Freud e Ésquilo: uma visão psicanalítica das relações da tragédia grega com o desenvolvimento da civilização
Roberto Santoro Almeida - 943
Resenhas
Circuitos da solidão – Entre a clínica e a cultura
Bernardo Tanis - 967
Linguagem verbal e funcionamento mental
Alessandra Ricciardi Gordon - 970
Videologias: ensaios sobre a televisão
Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl - 973


 

Editorial
Leopold Nosek

Não é fácil tomar um trem em movimento; mais difícil ainda é tentar dirigi-lo. Assim, nossos leitores não terão alternativa ao pedido para que apreciem nosso trabalho inicial com tolerância. A Revista Brasileira de Psicanálise, que iniciou sua viagem em plena efervescência modernista da década de 1920, sofreu as injunções das distâncias dos centros produtores da cultura, injunções essas que levaram à interrupção da sua produção e retomada no momento em que já tínhamos a confiança de começar a “substituir as importações”. Estávamos na década de 1950, esquentando os motores para um salto desenvolvimentista.
Acompanhei de perto o trabalho editorial de Elias Mallet da Rocha Barros, Plinio Montagna e João Baptista Novaes Ferreira França. Um enorme esforço foi feito para que a Revista adquirisse corpo. Projeto gráfico e política editorial foram seriamente avaliados, padrões de escrita e produção teórica se impuseram. Simultaneamente à estruturação da federação de sociedades psicanalíticas num movimento coerente, discutimos, no âmbito institucional e em nossas publicações, se podíamos ou não falar de uma psicanálise brasileira. Tivemos editores incansáveis e dedicados. Quero deixar assinalada nossa gratidão aos que nos precederam e, em particular, a João França, cuja gentileza, prontidão em transmitir as informações e generosidade da ajuda foram exemplares. Possamos nós fazer o mesmo quando terminarmos nosso período.
O mundo mudou, é o que se diz em todas as esquinas. Aliás, todas as gerações do passado também diziam o mesmo. Mas isto não nos exime de ver o que se passa desta vez, inclusive porque a velocidade das mudanças se torna mais acelerada, tornando mais aguda a premência das respostas. A economia de mercado resplandece gloriosa em suas últimas conquistas. Tem o poder de cooptar inclusive mentes que iniciam seu trajeto opondo-se à sua onipresença. A concentração de recursos desfaz o poder de intervenção dos estados e privatiza todos os esforços sociais. Surge uma competição mais aguda, e até o trabalho sofre dessa necessidade de concentração de eficácia. Se, por um lado, os recursos para o fluir da vida são mais amplos, as possibilidades de desfrute, por outro, se estreitam (quem trabalha quarenta horas semanais?). Vivemos mais tempo, mas nos tornamos obsoletos mais cedo. A liberdade se amplia, mas a insegurança a acompanha. Temos cem canais de TV, mas com qual programação? Os filmes a que assistimos têm cada vez menos tomadas longas, que indicam estados subjetivos. As ações têm que se suceder em ritmo alucinante. O recurso eletrônico coloca diante de nós assombrosa carga de informações que elaboramos em qual tempo e em que sistema? Temos uma aposição de singularidades, mas em qual totalidade, ou organização? Quando lemos ou sonhamos?
Nestas condições, como se constrói nossa subjetividade? Qual a correlação nova entre ação e poesia? Se para Freud interessava a oposição entre uma Weltanschauung religiosa e uma científica, quais são as concepções de mundo que nos interessa debater?
Tornou-se consensual o tema “patologias atuais”. Tornou-se consenso a historicidade da construção da subjetividade analítica. Somos auxiliados, agora, por mais de cem anos de perspectiva de nossa prática. Mas, como sempre, é mais fácil ver o que foi do que o que está sendo. Também aqui sofremos de reminiscências. O desenvolvimento teórico e clínico da psicanálise é grande, mas somos bombardeados por demandas que nos inspiram, e outras que nos colocam em desarmonia com nosso objeto. Como grupo sofremos de um certo envelhecimento. Somos um grupo idoso. A pergunta é se atraímos jovens e se temos algo a oferecer-lhes. Somos um campo de desafio tão ao gosto da juventude ou pertencemos ao campo da tradição e da cultura estabelecida?
Na nossa área, a psicanálise, e em particular na área de revistas, temos acesso pleno à versão eletrônica das principais publicações internacionais. Se para a impressão em papel há limitações de espaço, o formato eletrônico não padece desta mazela. Nesta infinitude, nos perdemos. Como produtores de cultura padecemos do mal da relação metrópole-periferia e talvez sejamos beneficiários, paradoxalmente, de um certo atraso da “crise da psicanálise”, tão apregoada nos centros mais desenvolvidos.
Neste quadro, qual o papel de uma revista de psicanálise? Para que serve? Em que forma? Em qual ideologia? Deve ser um acervo que divulga a produção que já existe atualmente? Deve propor uma direção? Deve procurar a dita vanguarda? Deve ser nacional ou integradora à produção global?
Dissemos antes que necessitamos agudamente de respostas, pois no nosso mundo nos movimentamos na área do traumático, da perplexidade e da reação, ou ainda nos protegemos na rotina da tradição. Mas, pensando melhor… sabemos quais as questões que seria importante formular? Freud, em “Projeto para uma psicologia científica”, tinha uma boa questão: num mundo físico que nos bombardeia e desafia com quantidades, como ocorre a transformação destas em qualidades psíquicas? Com esta pergunta ele se ofereceu um bom programa para a vida. Esta questão nunca se esvaziou, ao contrário, foi de uma fertilidade que todos conhecem.
Almejamos criar as condições de perguntar. Queremos fazer isto amplamente, inclusive, partindo de nós mesmos. O que é uma revista hoje? Podemos concluir que pode ser extinta, que outros meios de divulgação a substituirão. Não devemos temer a crise. A psicanálise é uma disciplina peculiar que depende e se nutre de crise e conflito. Importa-nos também saber quem somos e onde estamos, pois este é o único ponto de partida possível. Partindo de nosso acervo e de nossa perplexidade, nos interessam as perguntas. Se de início pedimos a condescendência do leitor, pedimos agora a sua cumplicidade e a dos autores para que nos ajudem nas perguntas e na melhor forma de conduzi-las. Aceitamos a crise – como forma de humildade, pois quem pode hoje se apresentar com a arrogância de um saber instituído?
Isto já estava sendo feito e recebemos esta herança, e podemos ler este número também com esta inflexão. Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho nos propõe a pergunta: o processo de elaboração relativo à função, do que trata afinal? Elementos e função, que na sua origem propunham normas sem associação prévia, não se tornaram eles mesmos pressupostos, tradição?
Na esteira de seu artigo, não poderíamos supor que a função da revista é auxiliar, a partir da prática psicanalítica, que esta encontre seu sonho atual?
O artigo de Camila Pedral Sampaio nos coloca na discussão áurea da psicanálise compartilhando a genética da ciência ou da literatura. Jaques Vieira Engel nos propõe a reflexão sobre nossa participação no ato analítico. Com Eva Maria Migliavaca temos um elaborado pensamento sobre o gênero trágico e a psicanálise. Thais Helena Thomé Marques traz questões relativas às perplexidades de nossa prática. Regina Lúcia Braga Mota nos apresenta um mapeamento das questões atuais relativas à “clínica do vazio”. Manuel José Galvez detém o olhar, mais uma vez, sobre o futuro do analista em sua tarefa. José Otávio Fagundes nos propõe um trajeto na elaboração analítica – novamente transitamos no território onírico. De Portugal, com Manuela Fleming, vemos que esta preocupação é comum ao nosso universo analítico, as vicissitudes da construção do pensar. Com Roberto Santos Almeida, reflexões a partir de Freud e Ésquilo – esta particular relação nunca definida da psicanálise com a literatura.
O que nos interrogamos? Como nos constituímos, como nos constituímos na sessão e como o fazemos na literatura? Quem somos, para onde vamos? Perguntas que qualquer criança faz e que sempre estarão incompletas em seu trajeto, mas que são ao mesmo tempo impossíveis de não serem feitas. Prossigamos então e continuemos inevitavelmente com as perguntas.

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Alteropoese: sobre a gênese da ideogramaticização no trabalho-onírico-alfa
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, São Paulo


Bion aludiu à importância central do processo de ideogramaticização no trabalho onírico alfa, mas não expandiu este tema. Encontrei em Eisenstein, o pai da montagem cinematográfica, um estudo sobre os ideogramas copulativos que enfatiza a colisão entre os hieróglifos elementares, como o fator determinante da transformação da imagem em conceito.
Em seu ensaio A Chapter on Dreams, R. L. Stevenson descreve a existência no bastidor de sua criação literária de uma instância do Eu, uma espécie de homúnculo, que intermedeia a produção do sonho e a sua recepção, uma espécie de RNA mensageiro que também facilita a compreensão do sonho.
Um caso clínico é discutido a partir do surgimento de um ideograma num sonho representando um “bebê quase-nascido”. Em função de um padrão transferencial de comportamento que levava a analisanda a “esconder-se atrás da própria existência”, por assim dizer, proponho a existência de um “objeto disjuntor da dupla-face”, encarregado de modular suas necessidades emocionais de existência e não-existência.
Combinando a figura do Anel de Moëbius com a Configuração Continente-Contido de Bion, ofereço também um modelo para as transições entre consciência e inconsciência, sensorial e psíquico, imagem e palavra, existência e não-existência.
Discute-se, finalmente, as afinidades entre a entidade proposta por Stevenson, o homúnculus de Goethe oscilando entre a imaterialidade e a encarnação, a presença psíquica descrita por Grotstein como sendo o Sonhador que torna o Sonho Compreensível, e o objeto disjuntor inspirado na minha experiência psicanalítica.

Unitermos
Alteropoese – ideogramaticização – trabalho onírico-alfa – objeto disjuntor da dupla-face.

 

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Freud e a literatura:
fronteiras e atravessamentos
Camila Pedral Sampaio , São Paulo


O presente trabalho tem como objetivo discutir a marca do literário na obra freudiana, a partir da diversidade de lugares que Freud atribui à literatura em seus escritos, sugerindo que esta marca alimenta até hoje a relação da Psicanálise com a Literatura. Em síntese, o que se propõe é que, na obra de Freud, a literatura figuraria como um outro, no sentido preciso de coadjuvante da constituição de um eu, o eu indicando aqui o lugar da construção psicanalítica inventada por ele. É esta sugestão que o trabalho procura examinar, a partir das situações concretas em que Freud nos reporta à interlocução com os escritores. Ao mesmo tempo ubíqua e estrangeira, a literatura deixou sua marca na invenção da psicanálise e em sua posteridade. No entanto, pela multiplicidade de posições que se podem depreender, na leitura do texto freudiano, sobre suas relações com a literatura, o parentesco entre a psicanálise e as obras literárias não nos deve confundir ou apagar suas especificidades. Mantendo a tensão da diferença entre os dois campos é que seria possível encontrar uma viva interlocução entre eles.


Unitermos
Psicanálise/Literatura – estilo freudiano – interpretação.

 

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A questão das interpretações inconscientes
Jaques Vieira Engel, Rio de Janeiro


O autor entende que o conceito restrito que a interpretação passou a ter em psicanálise, para indicar apenas as intervenções verbais do analista, limita e dificulta o entendimento do fenômeno interpretativo e de sua função.
A partir de um conceito geral de interpretação é feita uma revisão do conceito que a “interpretação” passou a ter em psicanálise e também da importância e natureza de sua ação no processo terapêutico.
É introduzido o conceito de “interpretação inconsciente” e discutido seu papel frente ao que muitos autores consideram “mecanismos não interpretativos” relacionados à memória processual (implícita).
O papel das interpretações no processo terapêutico analítico é redimensionado e muitos outros fatores não considerados como interpretações são incluídos no conceito apesar de poderem ser inteiramente inconscientes. Isto implica uma ampliação da tarefa interpretativa do analista, que mais do que nunca necessita ter consciência dos fatores operantes no mecanismo de ação terapêutica e não apenas de que eles existem embutidos genérica e vagamente na “relação terapêutica”.


Unitermos
Interpretação – conceito geral – conceito restrito – revisão – ação terapêutica – interpretação inconsciente.

 

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A dimensão trágica do psiquismo: um ensaio
Eva Maria Migliavacca, São Paulo


O objetivo deste trabalho consiste em investigar possíveis correspondências entre o herói desenhado pela tragédia grega e o homem investigado pela psicanálise, tendo como foco a questão da conquista da consciência de si. De início, são abordados alguns aspectos da teoria psicanalítica desenvolvida por Sigmund Freud, procedendo-se a uma caracterização dos aspectos da tragédia e do homem trágico que interessam aos propósitos deste estudo. Toma-se a figura de Édipo na peça Édipo Rei, de Sófocles, como representante modelar da questão central aqui desenvolvida, reconhecendo-se também sua importância na descoberta da psicanálise. Ao final, procede-se a uma integração que contempla as complexas relações entre tragédia e psicanálise, destacando-se o valor dos elementos trágicos para a apreensão do psiquismo humano.


Unitermos
Psicanálise – mito – tragédia grega – conhecimento.

 

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Conjeturando a expressão dos estados mentais primitivos na relação analítica
Thaís Helena Thomé Marques, Marília


A autora, a partir do relato de sua experiência clínica com um paciente adulto, desenvolve considerações a respeito da expressão de estados mentais primitivos no processo analítico. Tendo como base a busca de elementos para o desenvolvimento do pensamento e as conjeturas imaginativas propostas por Bion a respeito das proto-emoções, descreve a instrumentalização de suas interpretações, considerando as sensações e a excitação física como níveis de expressão presentes na experiência emocional, tomando-os como proto-pensamentos.
Essa abordagem visa propiciar tanto a captação do trânsito de um estado mental que se expressa a partir de um nível de “pensamento corpóreo” para um estado mental que possa ser representado pelo pensamento simbólico como a tentativa de compreensão de suas obstruções.


Unitermos
Proto-emoções.

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A clínica do vazio: novas exigências para o psicanalista
Regina Lúcia Braga Mota, Brasília


A autora reconhece que faz uma proposta ambiciosa e instigante ao sugerir que se conceitue a patologia borderline como uma nova estrutura, evitando o “entre” que até agora a define. Percorre a opinião dos principais estudiosos do tema, contextualizando os casos-limite na “clínica do vazio”, que acarreta novas exigências teóricas e técnicas para o psicanalista. Um exemplo clínico é relatado, alertando para a dificuldade de diagnóstico nesses casos, em que aspectos patológicos mais graves ficam camuflados por um comportamento neurótico, bem como por suas defesas. A autora compartilha da opinião de que se trata de construir e criar neste vazio algo novo e representável.


Unitermos
Patologias fronteiriças – casos-limite – clínica do vazio.

 

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A paciência na elaboração psicanalítica
Manuel José Gálvez, Buenos Aires


Tratarei aqui a respeito do trabalho clínico do analista e de um de seus elementos essenciais, que implica lançar mão de uma capacidade especial: a paciência.
Se a paciência, como veremos, implica tolerância ao sofrimento, quais são suas relações com o masoquismo, especialmente com o masoquismo primário erógeno, definido como a capacidade de tolerância ao desprazer? Na paciência do analista entra em jogo algo do seu masoquismo?
Considerando a paciência uma forma de sublimação, será que existe o risco de um deslizamento para o masoquismo de morte, com o qual seria necessário que cada analista pudesse reconhecer os limites de sua tolerância?
Freud relacionou o masoquismo com a feminilidade: poderia se estabelecer uma relação entre a paciência, a tolerância ao sofrimento ou à excitação e a feminilidade do analista de ambos os sexos?
Esta paciência “feminina” do analista corresponderá ao núcleo do ser, que Winnicott chama “elemento feminino puro”, originado em sua primeira relação com o feminino do objeto primário?
A qualidade “lúdica” do trabalho analítico dependerá do modo como estejam cindidos ou relacionados na bissexualidade do analista os elementos femininos e masculinos?

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O homem de alma oxidada
José Otávio Fagundes, São Paulo


O autor faz referências à literatura psicanalítica e situa a onipotência narcísica como uma defesa contra a frustração da realidade; é usada como um processo mecânico pelo sujeito, como no modelo causal-determinista.
A partir de material clínico de uma sessão de análise, o autor tece considerações sobre o sonho acordado do analista em relação a um analisando, como forma possível de trabalhar essa situação.
O autor faz considerações sobre o processo de sonhar do analista, como forma de captação de partes cindidas e expulsas pelo paciente, que podem se transformar em elementos alfa e ser usadas para interpretação. O analisando, por sua vez, ao sentir que o analista faz esse tipo de contato emocional com ele, se sente estimulado a produzir elementos alfa para pensar suas emoções, e pensar sua dicotomia onipotência-desamparo.

Unitermos
Onipotência narcísica – desamparo – vazio psíquico – psicose – dor mental – frustração – realidade – amor objetal – rêverie – pictograma – imagens oníricas – elementos beta – elementos alfa – pensamento – criatividade.

 

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Psicanálise hoje: o trauma, a desconexão e o
transtorno do estresse pós-traumático
Sebastião Abrão Salim, Belo Horizonte


A comunidade científica tem manifestado a necessidade da psicanálise promover atualização no seu referencial teórico e técnico clássico e inserir-se como uma ciência natural cujos princípios são a pesquisa, a experimentação e a comprovação. Sugere a aproximação desta com a psiquiatria e a neurobiologia.
Talvez, atendendo a este manifesto, a Associação Psicanalítica Internacional está enfatizando o estudo do trauma, como tema central do próximo Congresso Internacional de Psicanálise, a realizar-se em 2005.
Concordo com esta proposição, considerando meu estudo e minha experiência clínica sobre o trauma e seus efeitos na clínica, cada vez mais atípica, mergulhada em profundas mudanças científicas, culturais e econômicas.
Este estudo permitiu-me esboçar o conceito de desconexão: esta é um movimento do indivíduo em busca do seu existir autista ao ser vítima de um trauma, quando este lhe produz um medo de morrer ou de ficar louco. Como decorrência, desenvolve defesas para autoproteger-se e auto-apaziguar-se, as quais se traduzem por uma sintomatologia específica, embora diversificada.
Vou utilizar este conceito como auxiliar na compreensão da etiologia do Transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), até hoje desconhecida.
Este transtorno é freqüente na clínica psicanalítica atual, e tem como elementos centrais, segundo penso, o trauma e a desconexão. Seu portador é, habitualmente, diagnosticado como paciente narcíseo; como paciente de difícil manejo clínico; como paciente borderline; como paciente deprimido; ou ainda como paciente maníaco pela exuberância e diversidade da sua sintomatologia e a presença de comorbidades.
Apresento material clínico ilustrativo.


Unitermos
Trauma – TEPT – desconexão – etiologia – tratamento.

 

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No limiar do pensável: intolerância à frustração, pensamento e dor mental
Manuela Fleming, Porto


O presente artigo tem por objetivo esclarecer aspectos relacionados com a capacidade de pensar e com os eventos psíquicos que a autora situa no limiar do pensável. Aborda o tema a partir das primeiras hipóteses que Freud colocou sobre a articulação entre os conceitos de frustração e pensamento e a sua expansão na obra de Bion. Desenvolve o tema, sublinhando as principais contribuições que as teorias bionianas do pensamento e a teoria dos vínculos trouxeram e a extensão a que procede Bion ao introduzir a questão da intolerância à dor mental. A transformação das emoções dolorosas e impensáveis em emoções toleradas e suscetíveis de serem pensadas e integradas na vida mental é uma das questões aprofundadas neste artigo. A autora apresenta material clínico ilustrativo e sublinha a importância da dor mental, conceito que apresenta como uma “dor sem nome” e refere a necessidade de identificá-la no relato dos pacientes. Propõe algumas orientações técnicas para a prática psicanalítica.


Unitermos
Freud – Bion – emoções dolorosas – interações precoces – capacidades negativas – técnica psicanalítica – dor sem nome.

 

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Freud e Ésquilo: uma visão psicanalítica das relações da tragédia grega com o desenvolvimento da civilização
Roberto Santoro Almeida, Rio de Janeiro


Este trabalho estuda as relações ocultas entre o pensamento freudiano e as tragédias de Ésquilo. Partindo da pré-história da arte dramática, por meio das origens do teatro grego, analisam-se, das sete peças que restaram do autor, o Prometeu acorrentado e a Oréstia. Do ponto de vista psicanalítico, lança-se luz sobre as motivações psicológicas que informam tais obras, revelando-se o processo pelo qual o indivíduo humano se civiliza, e refletindo-se o nascimento, o desenvolvimento e as dificuldades atuais da Cultura Ocidental.


Unitermos
Tragédia grega – cultura ocidental – sublimação.

 

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