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Editorial
João Baptista N. F. França - 979

Comunicação não-verbal como expressão de onipotência e omnisciência
Virgínia Leone Bicudo - 983

Sobre a clínica psicanalítica da atualidade: novos sintomas ou novas patologias?
Aurea Maria Lowenkron - 993

Comentários ao trabalho de Áurea Maria Lowenkron
Equipe editorial da RBP - 1009

Anotações para uma abordagem às demandas contemporâneas de psicanálise
Luiz Augusto Celes - 1019

Psicanálise e ciência: de que ciência estamos falando?
Maria de Fátima Chavarelli - 1035

O ego corporal e o continuum cérebro-mente. O modo de ação clínica da psicanálise na perspectiva da interface com a neurociência
Victor Manoel de Andrade - 1051

A visão topográfica no processo psicanalítico: o irrepresentável
Ruggero Levy - 1067

Repetição, retranscrições e ressignificação no processo
Deodato Curvo de Azambuja - 1079

Psicanálise em psicóticos
Isac Germano Karniol - 1087

Sodoma e Gomorra – Mille e tre ensaios sobre a sexualidade
Celmy Correa - 1105

O estrangeiro
Carmen C. Mion - 1119

Da UTI psíquica para o divã: a constituição de uma mente através da relação analítica
Gina Khafif Levinzon - 1139

Interdisciplinaridade: um novo desafio à psicanálise?
Odilon de Mello Franco Filho - 1157


Resenhas

Os primórdios do movimento romântico e a psicanálise. As origens da psicanálise na obra de Kant. Turbulência e urgência. Goethe e a psicanálise (A apreensão da realidade psíquica, vols. 2, 3, 4 e 5)
Paulo César Sandler - 1167

Viagem através do cotidiano. Um psicanalista e as paisagens da vida
Marcelo Moraes Forones - 1171

Clínica del texto: Kafka, Benjamin, Lévinas
José E. Milmaniene - 1173

Ser Humano – La inconsistencia, los vínculos, la crianza
Julio Moreno - 1179

Lançamentos - 1187


Editorial
Psicanálise: ontem e hoje

Com este número, estamos completando o volume 37 da Revista Brasileira de Psicanálise.
No primeiro número deste volume, publicamos as três plenárias do XLIII Congresso Internacional de Psicanálise, que deveria ter se realizado em Toronto e foi transferido para New Orleans. Além dos diversos artigos sobre teoria e clínica, publicamos na ocasião uma supervisão de André Green, comentada por colegas de São Paulo. O exercício se mostrou rico, à medida que o olhar de um respeitado e experiente psicanalista europeu se voltou para um trabalho de Supervisão de colegas da América Latina, com formação e referenciais diversos, constituindo um contraponto para suas idéias, comentadas que foram ainda por colegas de uma sociedade brasileira; um pequeno “simpósio sobre material clínico” como este, constitui uma boa proposta, dentro de uma programação “Da clínica às hipóteses psicanalíticas”.
Temos em comum uma série de invariâncias ou pontos de consenso: o inconsciente, o método psicanalítico, a condição de herdeiros de Freud, particularidade que nos enche de orgulho e enseja um bom número de dificuldades.
Por outro lado, contrapontos, diversidade e pluralismo são ingredientes muito necessários em uma revista de psicanálise. Enriquecemo-nos com a discordância e o debate; o tema da controvérsia tem sido discutido em diversos foros, como aconteceu recentemente nos seminários que Ricardo Bernardi apresentou entre nós.
No segundo e terceiro números desse volume apresentamos a maior parte dos trabalhos para as mesas-redondas do XIX Congresso Brasileiro de Psicanálise, realizado no Recife e que se desenvolveu em torno do tema “Psicanálise em transformação”, apontando para a encruzilhada em que se encontra nossa disciplina nos dias de hoje.
O número 4 do presente volume, coloca-se como continuação e ampliação do anterior, uma vez que muitos dos seus artigos representam ecos do Congresso.
Uma importante atividade paralela desse Congresso foi a reunião dos Editores Regionais da Revista Brasileira de Psicanálise, que habitualmente acontece nestes eventos de congraçamento e discussão científica.
Desta vez, adotamos um novo formato e objetivo em nosso encontro, selecionando para estudo um artigo que representasse as inquietações da psicanálise atual. Neste trabalho, Áurea Maria Lowenkron, nossa colega do Rio de Janeiro, nos fala do palpitante desafio da psicanálise e sua clínica nos dias de hoje, descrevendo os novos quadros psicopatológicos que aparecem na clínica, com a pergunta implícita, se seus sintomas requerem uma nova metapsicologia.
Para enriquecimento desse artigo, nossos Editores se debruçaram sobre o mesmo para trazer críticas, acréscimos e sugestões. Não se tratava de uma avaliação de artigo, mas sim de novas contribuições, ventilando e focalizando as questões centrais veiculadas no trabalho, tais como representação, depressão, histeria, novos modelos para se entender o aparelho psíquico e até mesmo discutindo a questão das neuroses atuais, revisitada pela autora.
Publicamos neste número 4 do volume 37, artigos diversos, que de alguma forma se relacionam com um confronto entre o antigo e o novo.
Luis Augusto Celes estudou a questão da psicanálise na atualidade, diante das modificações sócio-histórico-culturais que ocorreram em nossos dias, procurando caracterizar os pontos mais importantes da psicanálise diante de uma cultura predominantemente narcisista.
Maria de Fátima Chavareli tomou o vértice da psicanálise do ponto de vista da epistemologia, em artigo didático e oportuno, discorrendo sobre questões relacionadas ao neo-positivismo, às críticas de Popper à psicanálise e às contribuições a respeito de paradigmas de Kuhn, entendendo a autora a psicanálise como uma ciência pós-paradigmática.
Victor Manoel de Andrade colabora neste número com um trabalho sobre ego corporal e a relação corpo-mente. Trata-se de um interessante artigo de interface com os subsídios da neurociência, em um momento em que necessitamos nos abrir para novos diálogos, para os quais se requer uma sólida compreensão de nossos princípios teóricos.
Outros colegas privilegiaram o tema das representações, que emergiu no cerne do trabalho sobre novos sintomas ou novas patologias.
Ruggero Levy, que também participou e discutiu o trabalho na reunião de Editores como consultor convidado, além de participar da mesa-redonda, relacionada ao tema de representações, articula as idéias de Freud de representações de objeto e representações de palavras com aspectos ampliados do conceito de representação, contidos nas idéias de Klein, Bion e Meltzer, e nas idéias de não-representação, trazendo também a contribuição de autores como Botella e E. Parsons. A re-apresentação do trabalho de Deodato Azambuja possibilitou novo acesso a assunto próximo da temática desse número.
Estamos publicando também um artigo de Isac Germano Karniol se refere ao tratamento de psicóticos pela psicanálise, as limitações e possibilidades de êxito do tratamento. O autor emprega técnicas diversas como a utilização de contribuições de Ferro e as de Nise da Silveira como instrumental para se comunicar com pacientes esquizofrênicos.
Como fazemos habitualmente, publicamos ainda os trabalhos vencedores dos prêmios que a ABP concedeu no Congresso.
O trabalho de Celmy A. Quilelli Correa aborda tema polêmico e atual sobre identidade de gênero, enfatizando a necessidade de referenciais histórico-culturais para abordar o tema.
Os trabalhos premiados de Carmem Mion e Gina Levinzon são predominantemente clínicos. Carmen nos traz o tratamento de paciente de difícil acesso, devido a dificuldade de vivenciar situações emocionais significativas e de se comunicar consigo mesmo, enquanto Gina apresenta o caso clínico de pessoa caracterizada por imobilismo, encapsulamento e de como foi necessário o uso de adaptações técnicas durante um longo período para conseguir acesso ao paciente.
Como estudo sobre interdisciplinaridade temos o trabalho de Odilon de Mello Franco Filho, que faz uma apresentação concisa e correta sobre a natureza e a singularidade da interface da psicanálise com outras disciplinas, os ganhos e limites em termos de desenvolvimento para nossa disciplina e a oportunidade adequada de diálogo com outros ramos do conhecimento que resultam desse empreendimento.
Nossa história do presente, focalizada em um volume tão marcadamente voltado para os temas atuais, tem um lastro de passado.
Tivemos em 2003 muitas perdas preciosas entre os nossos pioneiros. Só em São Paulo, nos deixaram Virgínia, Lígia Amaral, Darcy M. Uchôa e Yutaka Kubo.
Virgínia Bicudo foi um exemplo de pioneirismo e dedicação; como Klein, ela não era psicóloga de formação; iniciou seus estudos em sociologia, como professora e ligada a trabalhos de Higiene Mental (com Durval Marcondes) e participou do primeiro grupo de analisandos da Dra. Koch, a primeira analista credenciada pela IPA que chegou ao Brasil. Virgínia muito fez pela instituição psicanalítica no Brasil. Difusora da psicanálise, fez como Juscelino: saiu por diversos anos de sua terra, dirigiu-se ao planalto central, onde fundou a Sociedade de Psicanálise de Brasília. A própria RBP teve sua fundação e primeiros anos acompanhada por Virgínia, entre outros colegas igualmente pioneiros.
Uma das primeiras psicanalistas brasileiras com trânsito e publicações internacionais, sua vida que ora se findou, faz uma ponte entre presente e passado, entre ontem e hoje
.

João Baptista N. F. França
Editor


Comunicação não-verbal como expressão de onipotência e omnisciência
Virgínia Leone Bicudo (1917-2003)

As comunicações não-verbais, em situação analítica , correspondem aos meios regressivos de o paciente relacionar-se com seus objetos externos e internos. Substituem as comunicações verbais na medida em que angústias paranóides ou depressivas estão mobilizadas. Os mecanismos psíquicos diretamente relacionados com as comunicações não-verbais regressivas são os de identificações projetiva e introjetiva. Quanto mais profunda a regressão, tanto mais intenso o mecanismo de identificação projetiva e introjetiva: onipotentemente, o paciente força partes do self no objeto e introjeta partes deste, de forma a provocar o estado de negação da realidade psíquica interna e externa. Através da identificação projetiva (meio de comunicação mais primitivo), sob angústias esquizoparanóides ou medo de perder o objeto bom, o paciente controla o objeto no sentido de deixar dentro deste partes más do self e retirar-lhe as boas qualidades.
Distúrbios na relação com os objetos primários, por intolerância à frustração e, conseqüentemente, o recurso exagerado ao mecanismo de identificação projetiva inibem a formação de concepção, pensamento e símbolos, e portanto o desenvolvimento da verbalização.
O paciente, em grau maior ou menor, segundo a extensão da regressão, espera ser compreendido pela analista através da onipotência das ações e dos gestos, e, assim, nas relações com os objetos primários, obter a satisfação concreta de seus desejos frustrados. Se aos pais cabia confortar a criança persecutoriamente angustiada, aumentando-lhe a freqüência de experiências gratificadoras, ao analista cabe unicamente entender e interpretar as angústias transferidas através das comunicações do paciente, quer verbais, quer não-verbais. À medida que o paciente ganha em insight, diminuem suas angústias e abrem-se caminhos para ele se desinibir na produção de fantasias, símbolos e pensamentos. Ampliados pela diminuição de angústias seus recursos de comunicação verbal interna, o paciente se capacita cada vez mais a comunicar-se por meio da verbalização e a desfazer-se do recurso à onipotência dos gestos, das ações e dos sintomas psicossomáticos, que de certo modo são equivalentes a gestos.

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Sobre a clínica psicanalítica da atualidade: novos sintomas ou novas patologias?
Aurea Maria Lowenkron, Rio de Janeiro

Uma importante questão que surge do exercício diário da clínica é a observação de que os pacientes psicanalíticos de hoje são muito diferentes daqueles do início da psicanálise. Alguns autores acreditam que não há uma verdadeira mudança nas estruturas clínicas e, nesse caso, as diferenças observadas estão relacionadas meramente à aparência das manifestações. Os conflitos infantis comuns a todos os tempos poderiam estar sendo exacerbados pela vida moderna e mesmo mascarados por descrições subordinadas a paradigmas médicos. Por isso, em vez de novas patologias, deve-se considerar que tais pacientes contemporâneos seriam portadores de novos sintomas. Outros autores estão convencidos de que estamos de fato diante de novas patologias, compreendidas como efeitos de transformações socioeconômicas, da revolução tecnológica, de mudanças de sistemas simbólicos, de crenças e inclusive das relações humanas. Nesses pacientes, a interpretação do sentido é substituída por atos ou por sintomas somáticos. Realçando a inibição da vida psíquica associada à deficiência considerável de representação psíquica e à inabilidade para simbolizar experiências significantes, este trabalho propõe uma comparação entre tais traços característicos de pacientes dos tempos de hoje e aqueles que Freud descreveu como uma categoria diagnóstica denominada neuroses atuais. Unitermos
Psicopatologia contemporânea • diagnóstico • novos sintomas • novas doenças da alma • neuroses atuais.

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Anotações para uma abordagem às demandas contemporâneas de psicanálise
Luiz Augusto Celes, Brasília

O artigo busca estabelecer, em grandes passos, as transformações havidas em psicanálise em face de mudanças sócio-histórico-culturais. Discute a imprecisão das relações assim estabelecidas, para em seguida caracterizar certo lastro comum à psicanálise na atualidade. A ênfase dada à transferência como possibilidade de abertura para a alteridade é discutida como resposta característica da psicanálise às demandas contemporâneas, entendidas, grosso modo, como narcisísticas.

Unitermos
Transformações em psicanálise • transferência • alteridade • demandas contemporâneas.

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Psicanálise e ciência: de que ciência estamos falando?
Maria de Fátima Chavarelli Campo Grande

Este artigo procura contextualizar a psicanálise no corpo das escolas epistemológicas. A autora utiliza para suas reflexões, o neopositivismo, o pensamento de Carl R. Popper e Tomás S. Kuhn. Encontra na teoria dos paradigmas subsídios para a compreensão do significado da psicanálise enquanto ciência na modernidade. Constrói um “diálogo” entre a metapsicologia e a teoria dos paradigmas e, dessa forma, inscreve a psicanálise como uma ciência pós-paradigmática. Finalmente, conceitua o termo pós-paradigmático, como sendo um pensamento que causa rupturas e transcendências permanentes.

Unitermos
Psicanálise e ciência • a cientificidade da psicanálise • a psicanálise e a teoria dos paradigmas

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O ego corporal e o continuum cérebro-mente.
O modo de ação clínica da psicanálise na perspectiva da interface com a neurociência
Victor Manoel de Andrade, Rio de Janeiro

O desenvolvimento da neurociência começa a tornar realidade o vaticínio de Freud de que no futuro as hipóteses psicanalíticas seriam explicadas pela biologia. Admite-se hoje que a mente é o trabalho do cérebro. Dentre os achados neurocientíficos no âmbito do psiquismo, destaca-se a ação da relação afetiva sobre circuitos neurais de bebês – estes podem sofrer atrofia cerebral se cuidados inadequadamente. Outra descoberta importante é o surgimento de novas conexões neurais capazes de substituir neurônios lesados. Há evidências de que métodos psicológicos podem promover modificações no cérebro. Este ponto é de especial interesse para a psicanálise, cujo método se baseia numa relação afetiva (transferência). Considerando que nos transtornos narcísicos há desenvolvimento deficiente do ego, por relações objetais inadequadas, presume-se que essas falhas básicas correspondem a alterações cerebrais, corroborando o conceito de ego corporal. A repetição das relações reais inadequadas do passado no cenário virtual do processo psicanalítico permite que a relação transferencial (virtual) promova modificações no ego, corrigindo suas falhas. Sabendo-se que os psicofármacos são artificiais, tendo ação genérica e grosseira sobre o organismo, pode-se dizer que a psicanálise é uma espécie de psicofarmacoterapia natural, pois preenche lacunas da relação afetiva mãe-bebê original, agindo sobre a mente e o cérebro.

Unitermos
Afeto como expressão do corpo • psicofarmacoterapia natural • transferência • relação virtual.

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A visão topográfica no processo psicanalítico: o irrepresentável
Ruggero Levy, Porto Alegre

O autor estuda duas grandes alterações havidas, desde Freud, na compreensão e conceituação da topografia do aparelho mental e suas repercussões no processo psicanalítico. Uma, foi a partir das contribuições de Klein que ampliou a geografia dos fenômenos mentais, especialmente em função da descrição da identificação projetiva, pois passou a incluir o interior do objeto como mais um espaço capaz de conter fantasias ou partes do self do sujeito. E outra, foi a partir da impossibilidade de representação de algumas vivências traumáticas, gerando zonas de não representação no aparelho psíquico. A primeira, a ampliação da geografia dos espaços mentais, como que expandiu as fronteiras da topografia clássica. E a segunda, passou a conceber, dentro do espaço psíquico do próprio sujeito, uma zona que vai além do que seria considerado o mental propriamente dito. As duas contribuições repercutiram sobre a concepção de processo psicanalítico e são estudadas ao longo do trabalho.

Unitermos
Topografia psíquica • representação • não representação • irrepresentável • geografia dos espaços mentais.

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Repetição, retranscrições e ressignificação no processo
Deodato Curvo de Azambuja, São Paulo

O trabalho procura acompanhar alguns insights que se estenderam a partir do 11 de setembro de 2001. O autor destaca alguns modelos, a partir de seus insights, de realidades absurdas, que se revelam a partir de acontecimentos surpreendentes e às vezes inusitados. São sonhos, estados alucinóticos, esquizoparanóides, o “espetáculo do crescimento e reprodução” pela conjugação feminino/masculino, o desmoronamento das Torres Gêmeas do WTC. Todos eles abrindo espaço por meio da linguagem e comunicação para retranscrições e ressignificações, e para as incertezas da realidade, ao lado de absolutismos que buscam uma eterna repetição.

Unitermos
Insight • repetição • retranscrição • ressignificação • linguagem • liberdade • absolutismo • relativismo • êxito • realidade • absurdo.

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Psicanálise em psicóticos
Isac Germano Karniol, Campinas

O emprego da psicanálise no tratamento de psicóticos é limitado atualmente. Isto ocorre apesar do grande desenvolvimento teórico-prático atingido. Considerar a provável existência de um substrato orgânico subjacente, além da dificuldade de comunicação destes pacientes, deve contribuir para tanto.
Neste trabalho descrevemos nossa experiência nos últimos 15 anos no tratamento psicanalítico de esquizofrênicos. Nele aliamos a técnica desenvolvida por Antonino Ferro com crianças, com a possibilidade de comunicação de psicóticos pela arte como demonstrado por Nise da Silveira.
Verificamos que a psicanálise ainda tem um importante papel a desempenhar na área; que em termos bionianos os nossos pacientes tiveram um nítido desenvolvimento mental.

Unitermos
Psicanálise • psicóticos • esquizofrênicos • arte • comunicação.

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Sodoma e Gomorra – Mille e tre ensaios sobre a sexualidade
Celmy Correa, Rio de Janeiro

Tomando como eixo o texto de Proust – Sodoma e Gomorra – o autor escolhe metáforas para os conceitos freudianos de pulsão e de objeto, para com eles refletir sobre o tema homossexualismo, recentemente tão visitado na literatura psicanalítica internacional.
A necessidade de referências histórico-culturais para que se compreendam a sexualidade humana e seus destinos, torna-se argumento que vem dificultar, se não impedir, uma conceituação de identidade homossexual enquanto perfil psicopatológico, como apontado por grande parte de autores psicanalíticos.
O preconceito com que foi tratado o tema reduziu a compreensão das singularidades, fazendo a psicanálise atuar como instrumento de ortodoxia.

Unitermos
Homoerotismo • pulsão • objeto • Proust.

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O estrangeiro
Carmen C. Mion, São Paulo

O trabalho refere-se à apresentação de um caso clínico e às reflexões teóricas por ele originadas. Trata-se de uma experiência analítica de nove anos com um paciente que apresentava como principal característica uma aparente impossibilidade de experimentar e expressar sentimentos. Logo de início, fui confrontada com a questão da viabilidade de trabalho analítico, por meio de interpretações transferenciais, na ausência de estabelecimento perceptível de vínculo afetivo por parte do paciente. O fato de o paciente ser muito pontual, jamais faltar e suas comunicações apresentarem a peculiaridade de serem sempre por meio de imagens visuais, contrariamente ao esperado, em nada diminuiu a dificuldade, contribuindo apenas para aumentar o sentimento de incompetência. Embora houvesse riqueza de material nas sessões, os acontecimentos relativos à sua vida, tudo que dizia, ouvia e observava eram desprovidos manifestamente de qualquer significado emocional para ele e, portanto, desprovidos de sentido. Se no início a questão era como me comunicar com Pedro, após algum tempo ela passou a ser como possibilitar a comunicação de Pedro com ele mesmo. Confirmando uma observação de Bion de que o paciente é o melhor colega que o analista pode ter, o caminho foi indicado pelo próprio Pedro. Este trabalho é um exercício de reflexão sobre o que se passou daí para frente, utilizando-me para isso de conceitos de W. Bion, A. Ferro e D. Winnicott.

Unitermos
Narcisismo • sonhos • função alfa • continência • holding.

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Da UTI psíquica para o divã: a constituição de uma mente através da relação analítica
Gina Khafif Levinzon, São Paulo

Este trabalho aborda, por meio do relato de uma experiência analítica que se estende por dez anos, o tema do imobilismo psíquico, dos estados mentais que se caracterizam pela paralisação e encapsulamento. É ressaltada a necessidade de se desenvolver recursos técnicos que possibilitem a compreensão e o manejo dos casos que não se adequam aos “padrões clássicos da psicanálise.”
A paciente descrita apresentava como característica a inacessibilidade e a resistência ao estabelecimento de uma aliança terapêutica, o que foi comparado pela analista a uma situação de UTI, onde a paciente parecia estar “respirando por aparelhos”, e a analista era a responsável por todos os procedimentos de reanimação. A situação de impasse analítico, que durou cerca de cinco anos, começou a apresentar mudanças quando o trabalho analítico culminou com a atitude da analista, que pôde reconhecer os seus limites e os da possibilidade de trabalho analítico. A partir de então, pôde-se observar mudanças na paciente, e evidenciou-se um movimento psíquico que denotava o início de um processo de constituição de uma mente…

Unitermos
Imobilismo psíquico • organizações patológicas da personalidade • inacessibilidade • o negativo • técnica psicanalítica • a constituição da mente.

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Interdisciplinaridade:
um novo desafio à psicanálise?
Odilon de Mello Franco Filho, São Paulo

O chamado à psicanálise para um pensar interdisciplinar envolve questões complexas que vão desde esforços autênticos para consolidação do saber, até distorções geradas por apelos com fundo de onisciência, rivalidade, busca de prestígio e moda. Diante desse quadro, este relato se propõe a conceituar a interdisciplinaridade, compreender os limites desse esforço e situar a psicanálise nesse contexto.
O tema se torna oportunidade para uma reflexão sobre a natureza da psicanálise, focalizada a partir de seu método e objeto, ressaltando, ao mesmo tempo, sua singularidade na interface com outras disciplinas. A idéia proposta é que, sem consenso razoável entre nós a esse respeito, nossos esforços interdisciplinares se arriscam a não promover desenvolvimento próprio e um diálogo consistente com outras disciplinas.

Unitermos
Interdisciplinaridade • epistemologia • método psicanalítico • psicanálise e verdade.

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