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Sumário
 
Editorial
João Baptista N. F. França - 731
 
Artigos
Lendo Winnicott
Thomas H. Ogden - 737
A tradição freudiana de Donald Winnicott - A situação edípica. E sobre o pai?
José Outeiral e Eloisa Helena Rubello Valler Celeri - 757
O self e o ego na obra de D. W. Winnicott
Maria Ivone Accioly Lins - 779
Explorações: perder-se e achar-se no espaço potencial
Sonia Abadi - 807
Da realidade do mundo ao sentir-se real
Orestes Forlenza Neto - 817
O gesto na tradição
Gilberto Safra - 827
Regressão no processo analítico - a visão de Winnicott
Edna Pereira Vilete - 835
Juliana vai, Juliana vem... movimentos de uma relação transferencial
Cecilia L. Montag Hirchzon e Maria Cecilia Schiller Fonseca - 845
Desamparo <-> autonomia: movimentos do processo de amadurecimento no estágio de concern
Marlene Rozenberg - 859
A trilogia de Aline: entre o ser e o viver ou um sopro de vida
Maria do Carmo Andrade Palhares - 871
Do íntimo à intimidade: ressonâncias de um percurso
Rahel Boraks - 885
A busca do self: ponto de chegada ou de partida
Anna-Maria de Lemos Bittencourt - 899
A tradição ferencziana de Donald Winnicott. Apontamentos sobre regressão e regressão terapêutica
Luís Claudio Figueiredo - 909
Donald W. Winnicott e Maurice Merleau-Ponty: pensando a psicanálise sob o signo da fenomenologia
Roberto Barberena Graña - 929
Regressão e reconstrução
Elney Bunemer - 949
 
Resenhas
El narcisismo como matriz de la teoría psicanalítica
Raúl Jorge Aragonés - 963
A figura na clínica psicanalítica
Eliana Borges Pereira Leite - 969
Escritos clínicos sobre perversiones y adicciones
Rodolfo J. Moguillansky - 974
Estados psicóticos em crianças
Margaret Rustin, Maria Rhode, Alex Dubinsky, Helene Dubinsky - 978
Práticas psicoterápicas na infância e adolescência
Francisco B. Assumpção Jr. - 982
 
Lançamentos - 990
 
Editorial
Por que Winnicott?
Este é um numero dedicado à obra de Winnicott.
Anos atrás, uma edição da RBP dedicada a esse autor alcançou ampla divulgação, indício do interesse despertado por suas idéias no público brasileiro e do desejo de conhecê-lo melhor. As jornadas sobre Winnicott no meio universitário e entre psicólogos alcançam grande afluência de público.
Por que Winnicott? Como explicar tanto frisson por determinado autor?
As opiniões sobre Winnicott variam muito. Temos defensores ferrenhos, temos os apaixonados, há os que não o entendem ou o consideram autor discutível em seu arcabouço teórico.
Lembro-me de uma palestra que assisti no Rio de Janeiro, proferida por H. Thorner, autor muito respeitado da Sociedade Britânica, que viera ao Brasil dar seminários; questionado sobre Winnicott, disse que, em sua opinião, aquele autor tinha medo da agressividade. Recentemente, tivemos opinião semelhante de outro renomado autor que nos visitou, da mesma Sociedade Britânica à qual Winnicott pertenceu, tendo sido seu presidente.
Já uma leitura atenta da obra de Winnicott possibilita encarar de outra perspectiva a questão da agressão, como ela foi vista por ele que a estudou em diversos trabalhos, enfatizando sua necessidade para a constituição de um self sadio. E temos opiniões de peso favoráveis à qualidade científica de nosso autor, da parte de analistas de indiscutível competência e prestígio como André Green e Thomas Ogden que consideram Winnicott um dos maiores ou mais originais autores em psicanálise, talvez comparável a Bion.
Quem é Winnicott? Como explicar o fenômeno de tanta polêmica?
Um clínico? Certamente. Contam-se muitas histórias a seu respeito. Em uma delas, consta que Winnicott atendera uma criança de outra nacionalidade, a quem deu demorada consulta, presumivelmente falando cada um em seu idioma natal. Tempos mais tarde, o garoto pediu para ser levado à consulta com aquele senhor, "que falava tão bem a sua língua!". Podemos pensar que o idioma natal de Winnicott era sua incrível empatia.
Além de todo um folclore a seu respeito, percebe-se sua criatividade, por exemplo, ao se pensar no jogo dos rabiscos, uma das suas fecundas invenções.
Trata-se de um teórico em psicanálise, um escritor com idéias claras e um sistema científico bem armado e coerente? Penso que não.
Se o comparamos com a clareza e discursividade de um Freud, ou mesmo com as observações que brotaram da experiência clínica de Melanie Klein, nosso autor não é claro em seus conceitos, não apresenta um desenvolvimento de suas idéias seguindo um sistema dedutivo coerente. Parece-me pessoa com intuição fabulosa, mas que tinha dificuldade em desdobrar sua linha de raciocínio.
Ao referir-se ao seu estilo próprio de elaboração científica, sua metodologia, que partia de sua grande experiência, ao contrário de um estudo sistemático das idéias dos outros autores, Winnicott dizia: "Não vou fazer uma revisão histórica primeiro e mostrar o desenvolvimento de minhas idéias a partir de teorias de outros, porque minha mente não funciona assim..." Esta citação de Desenvolvimento emocional primitivo, obra de 1945 do autor, é trazida por Ogden no artigo que inicia este número da Revista. Ogden, um admirador confesso de Winnicott, é dos autores mais conhecidos e estudados em nosso meio, particularmente em suas últimas obras sobre os sujeitos da psicanálise, ao focalizar a dialética sujeito-objeto.
"Lendo Winnicott" é o titulo do oitavo capítulo de seu livro Conversas na fronteira do sonhar.1 Nesse texto, diz o autor que "Como na escrita de Winnicott estilo e conteúdo são interdependentes, seus artigos não combinam com uma leitura temática com o único objetivo de aprender 'do que trata o artigo'". Ogden prossegue, examinando vários partes do artigo de Winnicott (1945) nas quais as palavras sugerem, estimulam e prenunciam conceitos que o autor desenvolveu mais adiante, em sua obra.
Como considerar então Winnicott? Um gênio, no sentido de alguém que desafia o establishment científico com idéias criativas e originais, que apresenta, mesmo sem conseguir dar a elas todo um desdobramento cartesiano? Certamente.
Greenberg e Mitchell2 ressaltam duas características do estilo de escrita de Winnicott. Primeiro, de que sua prosa tem a qualidade de ser pouco precisa. Quase todos os seus trabalhos eram de início palestras, seu estilo informal; trata-se de artigos curtos, com predomínio de narrativas clínicas amarradas frouxamente com formulações teóricas epigramáticas.
Os temas centrais eram apresentados como paradoxos que encantam e motivam o leitor a decifrá-los.
Outra característica, no dizer de Greenberg e Mitchell, diz respeito à maneira de Winnicott se relacionar com a teoria psicanalítica clássica. Winnicott refere ser discípulo de mestres como Freud e, de uma maneira um pouco menos entusiasta, de Klein,3 com a qual teve relacionamento difícil. Apresenta sua obra como continuação da desses mestres. No entanto, rejeita a metapsicologia freudiana. "Winnicott preserva a tradição de maneira curiosa, em grande parte distorcendo-a; apresenta uma interpretação de tal forma idiossincrática dos conceitos de Freud e de Klein e tão pouco representativa de suas formulações e intenções originais que as tornam, muitas vezes, irreconhecíveis" (Greenberg e Mitchell, op. cit.).
Uma boa parte dos temas e interesse de Winnicott constam nos artigos que apresentamos neste número.
Uma das dúvidas freqüentemente levantadas ocorre quando se pensa em termos de parentesco ou linhagem de Winnicott em relação a Freud e a Klein. Neste número apresentamos um minucioso estudo de José Outeiral e Eloísa Helena Celeri sobre as bases freudianas do pensamento de Winnicott. Nesse artigo, os autores defendem a filiação freudiana de Winnicott, base de seus futuros desenvolvimentos, e tomando como base o Édipo, focalizam um Winnicott clássico, por assim dizer, diverso do psicanalista cujas idéias o tornaram um escritor tão fascinante e tão criticado em suas posições inovadoras sobre o desenvolvimento do self, sobre a agressão, sobre a transicionalidade e quanto aos aspectos clínicos relacionados com a regressão. Este último Winnicott é o dos estados mais primitivos da mente, antes que se constitua um self e um objeto diferenciado, permitindo o uso das relações de objeto, no sentido habitual.
Uma análise do contexto histórico das preocupações de Freud situa a psicanálise, disciplina nascente, a partir da observação de fenômenos clínicos em um campo limítrofe da Medicina com a Psicologia. Ambas disciplinas limitadas pelo berço cartesiano que se chocou com as modernas posturas empiristas da época, e que levou Freud a dirigir sua atenção para "uma medicina alternativa" como as técnicas da hipnose e a sugestão. A partir daí, foi tomando corpo, cristalizando-se em sua convicção, a questão da sexualidade; a sexualidade nas relações humanas, em uma sociedade vitoriana.
Se a partir da clínica, a intuição de Freud se voltou para o estudo da sexualidade, em matéria de teorização seu interesse incluiu o estudo do funcionamento mental, resultando na pesquisa e descoberta do inconsciente, espécie de iceberg (o Titanic viria a afundar uns poucos anos depois...), constituindo-se então duas linhas centrais do seu pensamento; quanto ao funcionamento da mente, pensamos no "Projeto...", abandonado pelo autor, e a Traumdeutung que permaneceu como uma das suas obras mestras.
Klein já não era pioneira quanto ao inconsciente e a importância de sexualidade mas o foi no desenvolvimento da observação do brincar e pôde aprofundar as idéias de Freud com o conceito de fantasia inconsciente.
Surge então seu coetâneo, Donald Winnicott. Pediatra, clínico, e que se interessou não só por Freud, mas pelas descobertas e técnicas kleinianas. Mas desenvolveu um pensamento original, com idéias muito pessoais sobre "natureza humana".
Winnicott se dirigiu para um setor mais específico da condição humana. Olhando as pulsões de ponto de vista singularmente diferente, estudou o self, termo tão protéico e difícil de se colocar numa lâmina de microscópio, e que passou a despertar tanto interesse em seu desenvolvimento teórico, e mais tarde em Kohut.
O conceito de self adquire grande importância em Winnicott, tendo sempre como contraponto a provisão ambiental. Mais do que Kohut, que entendia os self-objetos como decorrentes de um dos destinos do narcisismo originário, Winnicott fala de uma evolução a partir do objeto para o sujeito, e a partir de uma fusão original, conceituado como objeto subjetivo.
Neste número apresentamos o trabalho de Maria Ivone Acioly Lins sobre o uso dos termos self e ego na obra de Winnicott. O próprio Freud no início não considerava os termos de maneira definida. O vocábulo ego adquiriu seu estatuto próprio e se difundiu no trabalho de 1923 com a cristalização da segunda tópica, que o autor apresentou como um andaime, um constructo teórico, ao lado dos termos id e superego para serem assim utilizados como facilitadores do seu viés teórico.
Em outros momentos, como no trabalho "A dissociação do self no processo de defesa", Freud utilizou este último termo. Winnicott e Kohut divulgaram o uso preferencial do termo self. Winnicott escreveu muito sobre o self, mas por vezes usa o termo ego, como observou Ivone Lins.
Freud rejeitou seu "Projeto...", e não foi o próprio Bion quem publicou as Cogitations. Quanto a Winnicott, o que foi chamado de "Explorações psicanalíticas" foram compiladas e editadas só tempos depois. Que valor atribuir a esta obra? São essas considerações que levaram Sonia Abadi, autora conceituada com trabalhos em diversas áreas do pensamento psicanalítico, a escrever o artigo que ora publicamos, focalizando de maneira sintética e oportuna seu entendimento sobre aspectos centrais dessa obra. Ela estuda modelos que escolheu e privilegiou nessa obra: a questão do paradoxo, a trasicionalidade e a originalidade da técnica winnicottiana.
Apresentamos neste número vários trabalhos teóricos e outros com ênfase em situações clínicas. Dentre os primeiros, Orestes Forlenza Neto estuda a questão da realidade externa e interna, como é vista a partir de Freud, que destacou a questão da realidade psíquica na sua constatação que pôs em xeque a teoria da sedução. Freud se ocupou da questão da realidade em diversos trabalhos, ao estudar funções do ego e do ego ideal. Orestes estuda ainda a contribuição de outros autores, filósofos e psicanalistas, como Susanne Langer, Leowald e finalmente Winnicott com as idéias deste sobre ilusão e sobre o brincar, bem como os paradoxos a respeito dos objetos transicionais e sua relação com a realidade.
Gilberto Safra nos traz um interessante estudo sobre os destinos do self e sua interface com o transgeracional. O autor diz em seu trabalho que "... o gesto criativo acontece em um determinado contexto histórico, em determinado contexto transgeracional." Safra investiga a questão sob três perspectivas: "O bebê pode encontrar em seu berço uma missão, um enigma ou uma questão...". Discorrendo sobre esses itens, que perpassam questões éticas, de psicologia evolutiva e até de psicodinamismo subjacentes à constituição anti-social, o autor apresenta um trabalho no qual problematiza tais temas que vêm ao encontro do que chamou de "ontologia do homem" percorrendo os caminhos da transgeracionalidade.
Intimamente ligada à constituição do self, a teoria do desenvolvimento constitui uma contribuição original de Winnicott e que vem a ser a base dos trabalhos teórico-clínicos que apresentamos a seguir.
Para Winnicott, é o ambiente o responsável, em grande parte, pelo surgimento e vicissitudes do self. A teoria e a clínica winnicottianas conferem um peso muito maior ao fator ambiente do que os psicanalistas clássicos.
Não é fácil a leitura dos trabalhos e descrições clínicas de Winnicott e daqueles que seguem suas idéias.
O público das sociedades psicanalíticas do Brasil está mais formado na tradição de Freud e Klein e num tipo de pensamento dedutivo no qual o argumento e a correlação teórico-clínica se tornam mais facilmente compreendidos, podendo também ser criticados com maior peso de substrato teórico.
No clínica winnicottiana, as questões de relacionamento do bebê com seus cuidadores foi enfatizada pelo autor não sob o ponto de vista de vicissitudes pulsionais, mas em conceitos como os de dependência absoluta, dependência relativa e independência, conforme são observados em diversos trabalhos clínicos e teórico-clínicos que apresentamos neste volume.
Assim como focalizou idéias sobre desenvolvimento, Winnicott estudou situações que as idéias de Freud viam como opostas: as de regressão. Este conceito de Freud, problematizado por Klein e Paula Heimann, adquire uma feição própria em Winnicott com um viés totalmente diverso, em sua concepção teórica e clínica.
Para Winnicott, o que chama de regressão no processo terapêutico é um ponto de retomada de crescimento de áreas nas quais ocorreram fraturas e o desenvolvimento de um falso self, situação que pode ser revista na nova experiência vivida na análise. Apresentamos três artigos referentes a este tema: o trabalho de Edna Vilete sobre regressão no setting analítico, e o de Elney Bunemer, sobre regressão e reconstrução, ilustrados por experiências clínicas, e um terceiro trabalho que consiste em pesquisa mais longitudinal de autoria de Luís Claudio Figueiredo sobre o conceito de regressão em Freud, Ferenczi, Balint e Winnicott.
A difícil questão do entendimento das psicoses é tema ao mesmo tempo estimulante e que desperta no analista a consciência de limite e de perplexidade. Trazemos neste número o relato de uma longa experiência de acompanhamento terapêutico de paciente psicótica relatado por Cecilia Hirchzon e Maria Cecilia Schiller Fonseca, para o entendimento do qual as autoras procuraram subsídios nas concepções winnicottianas em relação a níveis de dependência.
Um outro trabalho que apresentamos refere-se à experiência clínica que Maria do Carmo Palhares nos traz, referente a uma criança muito regredida e o manejo e entendimento da paciente, à luz das idéias de Winnicott.
Os três trabalhos seguintes referem-se a experiências vivas, que nos são transmitidas com cores e impacto.
Marlene Rozenberg nos fala sobre a questão do "desamparo presente nos momentos de integração entre os estados excitados e os estados tranqüilos que o bebê experimenta...". A autora pensa que a autonomia necessária para o desenvolvimento e que pode levar a paciente a atingir um estado de concern e sua evolução até o momento de reconhecimento e concern se enraíza no desamparo e sua continência pela analista.
Anna-Maria Bittencourt coloca indagação teórica de grande interesse, em seu trabalho sobre a busca do self, como ponto de chegada ou ponto de partida. Seu trabalho, lastreado em substrato teórico consistente, apresenta ilustração clínica condizente com a proposta referida, destacando-se a questão da criatividade.
Rahel Boraks fala da questão da intimidade e do íntimo, relacionados ao desenvolvimento do objeto subjetivo e sua evolução na clínica, destacando as dificuldades que sua paciente apresentou na fusão inicial com a mãe e os manejos defensivos que puderam ser trabalhados na análise.
Roberto B. Graña já é conhecido da revista pelos seus trabalhos relacionando a figura e a contribuição científica de Winnicott com pensadores da época. Em seus estudos sobre a influência da filosofia sobre Winnicott, apresenta aqui a correlação com a fenomenologia de Merleau-Ponty, relacionando o espaço transicional de Winnicott e o campo fenomenal de Merleau-Ponty, trazendo ainda contribuições de Husserl e de Lacan referentes ao tema. Um aspecto que ressalta na obra de nosso autor, a meu ver, é sua relação com uma visão filosófica do homem, aspecto também presente em Bion.
Bion fala em diversos vértices que utiliza em sua leitura do ser humano. Penso que tanto ele quanto Winnicott começaram procurando seguir o rigor científico dos primeiros analistas, mas o pensamento criativo de ambos explodiu em outras formas de discursividade e de pensamento ao procurar entender a natureza humana.
A filosofia, a literatura, os mitos, a psicanálise, nos ajudam a descrever e procuram entender o que caracteriza o homem. É animal racional, social? Capaz de ser amoroso, ou então, lobo do homem? Certamente animal simbólico, segundo Cassirer. Animal lúdico, que o diga Winnicott.
Alguns dos nossos pesquisadores são assim também. Destacam-se como figuras humanas ímpares. Pensamos em um Freud. Pensamos em Winnicott.
João Baptista N. F. França
Editor
 
Lendo Winnicott
Thomas H. Ogden, M.D., San Francisco
A psicanálise teve vários grandes pensadores, no seu primeiro século, mas do ponto de vista do autor, apenas um grande escritor de língua inglesa: Donald Winnicott. Como na escrita de Winnicott estilo e conteúdo são interdependentes, seus artigos não combinam com uma leitura temática com o único objetivo de apreender "do que trata o artigo". Freqüentemente, tais esforços resultam em aforismos triviais. Na maioria das vezes, Winnicott não usa a linguagem para chegar a conclusões. Ao contrário, usa a linguagem para criar experiências de leitura inseparáveis das idéias que apresenta ou, mais acuradamente, as idéias com as quais brinca.
O autor faz uma leitura de "Desenvolvimento emocional primitivo" (1945) de Winnicott, obra que contém virtualmente as sementes das contribuições mais importantes para a psicanálise que Winnicott faria ao longo dos 26 anos subseqüentes. O autor demonstra a interdependência da vitalidade das idéias desenvolvidas com a vitalidade da escrita nesse artigo seminal de Winnicott. O que o "Desenvolvimento emocional primitivo" tem a oferecer a um leitor de psicanálise não pode ser dito de outra forma (o que quer dizer que a escrita é extraordinariamente resistente à paráfrase). Na experiência do autor - o que ele espera transmitir ao leitor - a percepção da maneira pela qual a linguagem funciona nos escritos de Winnicott aumenta significativamente o que pode ser aprendido da sua leitura.
 
A tradição freudiana de Donald Winnicott - A situação edípica. E sobre o pai?
José Outeiral, Porto Alegre - Eloisa Helena Rubello Valler Celeri, Campinas
Os autores têm por objetivo realizar uma aproximação entre o pensamento de Winnicott e o de Freud, tomando como ponto de intersecção a questão do complexo de Édipo e o papel do pai. Não buscam legitimar o pensamento de Winnicott através de Freud; pretendem, sim, através do resgate de seu pensamento teórico e do material clínico descrito em "Holding e interpretação" e "The Piggle", demonstrar a significativa importância que este autor dava ao complexo de Édipo e ao pensamento teórico e clínico de S. Freud.
 
Unitermos
Winnicott Freud pai complexo de Édipo holding e interpretação
 
O self e o ego na obra de D. W. Winnicott
Maria Ivone Accioly Lins, Rio de Janeiro
Seguindo a evolução do pensamento de D. W. Winnicott, o emprego dos termos ego e self, na obra do autor, é estudado no contexto de artigos selecionados. Analisam-se a significação dessas expressões e a diferença de sentido entre elas em textos teóricos e clínicos escritos entre 1945 e 1971.
 
Unitermos
Ego self verdadeiro self falso self processos primários mente psicose agressividade clínica winnicottiana meio ambiente
 
Da realidade do mundo ao sentir-se real
Orestes Forlenza Neto, São Paulo
Após rápida revisão do "conceito de realidade" em Freud e outros autores (Piera Aulagnier, Wohl, Berger e Luckmann), foram destacadas várias concepções de realidade em Freud que variaram de acordo com o tema desenvolvido por Freud em suas necessidades para explicar o funcionamento e organização do aparelho psíquico. O autor chama atenção para o uso inadvertido que podemos fazer de "realidade" em nossa clínica, como se fosse um conceito unívoco e a realidade sendo um fato universal e aceito igualmente por todos. Examina-se também sucintamente os conceitos de realidade psíquica, realidade externa, prova de realidade, questionando a primazia do princípio do prazer. Discute a questão da dicotomia externo-interno, a colaboração de Suzanne Langer na apreensão da "realidade" e finalmente usa as idéias de Winnicott que lidam com "virada" da "realidade do mundo" para o "sentir-se real e ser criativo", dentro do espaço potencial de Winnicott.
 
Unitermos
Conceito de realidade realidade interna e realidade exterior apreensão da realidade espaço transicional sentir-se real
 
O gesto na tradição
Gilberto Safra, São Paulo
Esse trabalho aborda, a partir da contribuição de Winnicott, a maneira pela qual o self do bebê constitui-se na tradição de sua família. O bebê cria o que lá está para ser criado, significando criar não só a sua mãe, mas também a situação psíquica transgeracional encontrada por ele no momento de seu nascimento. O bebê pode encontrar três diferentes situações no início de sua vida: missão, enigma e questão. Procura-se descrever as conseqüências para a constituição do self em cada uma dessas situações.
 
Unitermos
Self transgeracional gesto Winnicott
 
Regressão no processo analítico - a visão de Winnicott
Edna Pereira Vilete, Rio de Janeiro
A autora descreve o quadro regressivo prolongado de uma paciente, em análise há cinco anos. Utiliza o conceito de Winnicott sobre o descongelamento da situação de falha ambiental para a compreensão do quadro.
Em seguida, expõe idéias de Winnicott que apontam, no seu ponto de vista, para uma nova teoria da técnica.
 
Unitermos
Regressão dependência colapso falha do analista defesa psicossomática personalização
 
Juliana vai, Juliana vem... movimentos de uma relação transferencial
Cecilia L. Montag Hirchzon - Maria Cecilia Schiller Fonseca, São Paulo
O presente trabalho é uma reflexão sobre o caso clínico de uma paciente psicótica, à luz do referencial winnicottiano. É um caso atípico, com a duração de vinte anos de contato, dos quais apenas os seis primeiros foram atendidos em consultório. Os aspectos centrais focalizados são a regressão à dependência absoluta e a busca da independência no processo de amadurecimento da paciente. São abordadas as dificuldades no manejo clínico e as características da transferência e da contratransferência.
 
Unitermos
Regressão à dependência rumo à independência raiva transferência contratransferência
 
Desamparo <-> autonomia: movimentos do processo de amadurecimento no estágio de concern
Marlene Rozenberg, São Paulo
Neste trabalho a autora aborda o conceito de concern de Winnicott, termo usado pelo autor para se referir à Posição Depressiva, conceito desenvolvido por Melanie Klein. Winnicott inicialmente usava este termo, mas o modificou conforme foi desenvolvendo sua teoria. A autora destaca uma questão bastante específica que diz respeito ao sentimento de desamparo presente no movimento de integração entre os estados excitados e os estados tranqüilos que o bebê experimenta e que é indispensável para que conquiste o estágio de concern. A autonomia se enraíza no desamparo vivido inevita-velmente pelo bebê. Uma situação clínica com uma criança é utilizada para ilustrar a questão abordada.
 
Unitermos
Autonomia concern desamparo estados excitados estados tranqüilos mãe-ambiente mãe-objeto posição depressiva
 
A trilogia de Aline: entre o ser e o viver ou Um sopro de vida
Maria do Carmo Andrade Palhares, Rio de Janeiro
Neste trabalho buscamos abordar e desenvolver uma das mais importantes formulações de Winnicott acerca da natureza humana: "Ser, antes de tudo". A partir daí surge uma concepção psicanalítica que prioriza a constituição da identidade humana como possibilidade de abertura ontológica para a vivência dos fenômenos subjetivos valorizados pela psicanálise. A apresentação do caso clínico de uma criança nos permite compreender os processos iniciais da vida humana responsáveis pela constituição e pelo estabelecimento da condição de Ser. Ao mesmo tempo, esta mesma situação clínica nos revela a fragmentação do Ser diante de situações ambientais adversas. Neste contexto, destacamos o manejo do setting analítico, levando-se em conta as situações regressivas da paciente e a gradativa retomada do seu processo de desenvolvimento pessoal.
 
Unitermos
Desenvolvimento dependência solidão não-ser ser identidade paradoxo
 
Do íntimo à intimidade: ressonâncias de um percurso
Rahel Boraks, São Paulo
Este trabalho, diz respeito ao conceito introduzido por Winnicott de objeto subjetivo e sua participação no processo de amadurecimento pessoal e constituição do íntimo.
Para ilustrar o enraizamento do íntimo, a autora busca apresentar, por meio de um caso clínico, os aspectos que se relacionam com a formação da identidade primária que surge a partir de um amálgama inicial com a mãe.
 
Unitermos
Objeto subjetivo íntimo intimidade identidade holding
 
A busca do self: ponto de chegada ou de partida
Anna-Maria de Lemos Bittencourt, Rio de Janeiro
Examinando o conceito de self na obra de Winnicott, a autora concilia algumas de suas características que, num primeiro momento, parecem contradizer-se: a do self unidade e totalidade com as do self "transicional", mutante no tempo e no espaço, "going on being". Isto será possível ao se considerar, tal totalidade, como totalidade aberta onde o todo, a cada momento se forma, se desfaz e se refaz: é experimento contínuo e pressupõe a existência de um campo relacional dinâmico. Aproxima as idéias de Winnicott do conceito de operação transdutiva do cientista contemporâneo Simondon que, deslocando o foco da noção de indivíduo, privilegia o processo de individuação, produto de um campo pré-estrutural, em que as organizações só podem se configurar, a partir da relação. A unidade que interessa não é mais individual, porém dual, germinada ali no campo, como ocorre, por exemplo, na relação analítica. Partindo da expressão busca do self, freqüente na obra de Winnicott, a autora propõe que se considere self e busca fenômenos da mesma ordem, não cabendo questionar ser ele ponto de chegada ou de partida para o processo criativo. Sempre movente, ele se recria em cada experiência relacional.
É ainda apresentada uma experiência clínica em que a autora procura ilustrar as condições propiciadoras ao surgimento de um gesto espontâneo que favoreceram, naquele caso, um contato com o verdadeiro self.
 
Unitermos
Winnicott self-unidade/totalidade individuação totalidade aberta self transicional
 
A tradição ferencziana de Donald Winnicott. Apontamentos sobre regressão e regressão terapêutica
Luís Claudio Figueiredo, São Paulo
No presente trabalho, defende-se o ponto de vista de que é vantajoso estudar e avaliar as contribuições de Winnicott nos diversos contextos históricos e teóricos do movimento psicanalítico em que seu pensamento se insere e no das tradições clínicas de que participa. Em especial, é focalizada a posição de Winnicott na tradição clínica e teórica ferencziana, com uma particular atenção às questões da regressão e da regressão à dependência nos processos vitais e nos processos terapêuticos.
 
Unitermos
Winnicott Ferenczi regressão clínica psicanalítica
 
Donald W. Winnicott e Maurice Merleau-Ponty: pensando a psicanálise sob o signo da fenomenologia
Roberto Barberena Graña, Porto Alegre
Este ensaio pretende relacionar os trabalhos de Winnicott e Merleau-Ponty, dois pensadores contemporâneos estreitamente aparentados por uma perspectiva fenomenológica, adotada formalmente pelo filósofo e "inadvertidamente" pelo psicanalista, em que as formulações centrais estão organizadas em torno da postulação de uma área de entrelaçamento, ou área de interseção, das minhas percepções com as percepções do outro, lugar denominado por Winnicott como espaço transicional, e por Merleau-Ponty como campo fenomenal, e que é convergente com a noção de mundo da vida de Husserl e com a de campo do significante de Lacan. Nesta terceira área da experiência, nem interna nem externa, está sediado o viver, a realidade compartilhada diariamente pelos indivíduos, a realização cultural e a experiência psicanalítica propriamente dita.
 
Unitermos
Fenomenologia campo fenomênico espaço transicional fenômenos transversos fenômenos transicionais quiasma transicionalidade síntese de transição síntese fenomenal ontologia ontogênese aparência essência existência fé perceptiva vivência corporal
 
Regressão e reconstrução
Elney Bunemer, São Paulo
A autora discute as possibilidades reconstrutivas da regressão tomando como base as idéias de Winnicott (1954), que fez um amplo estudo sobre o assunto, caracterizando-a como corolário de expansão e libertação do self, enquanto inscrita no setting analítico. A regressão entendida na atualidade do pensamento psicanalítico tem uma função terapêutica configurada, traz possibilidades reconstrutivas e está relacionada à retomada, no interior do indivíduo, da força inata que o empurra em direção à saúde e ao desenvolvimento.
Ressalta-se que a regressão à dependência é o "árduo caminho das pedras", envolvendo uma técnica específica na qual é preciso diferenciar necessidades constitutivas da gratificação de desejos. Nesta, o analista é "usado" pelo analisando que o toma como veículo da descoberta e exploração do self.
Apresenta-se uma situação clínica para ilustrar as idéias propostas, na qual houve uma regressão à dependência, fortemente marcada por intensos temores de perda do vigor mental e de uma força regressiva sem retorno.
 
Unitermos
Regressão reconstrução fraturas no self necessidades e desejos
 
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