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Sumário
 
Editorial
João Baptista N. F. França - 5
 
Artigos
Ciências cognitivas e psicanálise; uma convergência possível
Antonio Imbasciati - 9
A virtualidade no método psicanalítico
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho - 31
Acerca da verdade do desejo e da virtualidade - As relações com objetos virtuais
Ruggero Levy - 51
A psicanálise e as novas formas de experiência humana determinadas pela globalização
Alirio Dantas Jr. - 67
"- E então? Com ou sem dor?"
Miguel Calmon du Pin e Almeida - 81
Uma sessão de análise e outros devaneios
Maria Helena Souza Fontes - 89
Considerações sobre o complexo de Édipo tardio na mulher
Maria P. Manhães - 109
A saga de Antígona
Wagner Vidille - 127
Análise subalterna
Luiz Meyer - 145
Analistas didatas: origem e contradições
Eustachio Portella Nunes - 161
 
Resenhas
A relação pais-bebê: da observação à clínica
Nara Amália Caron (org.) - 169
A boa sociedade e o mundo interno: psicanálise, política e cultura
Michael Rustin - 173
Da pediatria à psicanálise. Obras escolhidas
D. W. Winnicott - 179
Fundamentos de uma clínica freudiana
Luis Carlos Menezes - 185
Infância e ilusão (psico)-pedagógica
Leandro de Lajonquière - 189
Clínica psicanalítica de crianças e adolescentes
José Outeiral (org.) - 197
The Clinical Thinking of Wilfred Bion
Joan e Neville Symington - 201
Perversão
Flávio Carvalho Ferraz - 206
 
Lançamentos - 213
 
Editorial
O novo e o permanente
Com este número, iniciamos a publicação de mais um volume da Revista Brasileira de Psicanálise.
Este ano ainda nos traz recente a marca de um novo século. Novo? Foi festejado com esperança de paz, de harmonia produtiva, e logo tivemos, em setembro de 2001, a estarrecedora surpresa de um ataque terrorista extremamente eficiente pelas proporções de êxito e horror que produziu. Surgiram novas guerras, que agora se designam pelo irônico adjetivo de "cirúrgicas" e, a seguir, o recrudescimento do conflito do Oriente Médio, velha ferida aberta. Tais fatos situam-se ao lado de acontecimentos bem mais próximas a nós, na América Latina, como violência urbana, desajustes socioeconômicos, que mesmo não tendo a dramaticidade das guerras, levam à mesma conclusão: os homens não se entendem.
A racionalidade deixa a desejar, e emoções sem nome, desafiando as análises dos cientistas sociais, determinam os mais diversos acontecimentos, nos quais o trágico se mescla a outros tipos de realizações, progressos e retrocessos. E a psicanálise? E a nossa psicanálise?
Neste número trazemos um contraponto entre as novas realidades que vão aparecendo ou se delineando, e as conquistas e descobertas relativamente permanentes da psicanálise.
Quando pensamos em virtualidade, assombramo-nos com esta dimensão multiforme, que se caracteriza por uma expansão enorme de nossas capacidades de brincar com símbolos, estabelecer conexões, sejam elas erráticas, ou determinadas por um fio de curiosidade e progresso. Como ressaltou Lúcia Santaella, na III Bienal organizada pelo Departamento Cultural da SBPSP, trata-se da enorme expansão do pensamento humano, mais além de nosso córtex cerebral, delimitado pela prisão de nossa caixa craniana.
Outras expansões já ocorreram, como a invenção da imprensa e uma série de meios de comunicação que foram se aprimorando, às vezes em proporção geométrica, o que fez McLuhan dizer, em 1964, que "O meio é a mensagem". E justamente as mensagens que o meio veicula têm sido a expressão do objeto de nossa disciplina, que lida com a natureza humana, suas dores, expansões e limitações.
Seria a virtualidade, elemento que nos parece tão novo, assunto tão estranho à psicanálise? O que dizer então dos processos de pensamento e da própria transferência que surge na situação analítica, expressão de processo carregado de ambigüidade, como se fosse algo que é e não é ao mesmo tempo? O que dizer do caráter lúdico próprio da experiência terapêutica, que foi tão ressaltado por Winnicott? O que dizer de nossos analisandos psicóticos, que parecem tão "anormais", ou os obsessivos, "excessivamente racionais", pacientes nos quais vislumbramos significativo avanço, no momento em que conseguimos na sessão com eles, o esboçar de um sorriso compartilhado?
Dentro da psicanálise, após Freud, autores como Bion e Winnicott têm ressaltado o vértice da busca da verdade, tanto as possibilidades de acesso à mesma como a questão da autenticidade de cada um de nós. A virtualidade pode servir ao homem ou aliená-lo enquanto o desvia na sua busca de uma relação verdadeira com o outro e consigo mesmo.
A cultura do narcisismo, estudada e denunciada em nossos dias, nos impregna a tal ponto que precisamos nos afastar dela, olhando-a a uma certa distância, para entendermos o quanto já foi considerada por Freud com seu conceito de Ideal do Ego e dos fenômenos de massa.
E a decantada crise da psicanálise, afinal de contas, depende das acentuadas transformações do mundo em que vivemos, ou traduzem novas formas de evasão dos objetivos da psicanálise, que estuda o contraponto entre o princípio do prazer e da realidade? Sabemos ou encontramos o ponto adequado para lidar com a dor, ou nos evadimos dela? O que é mais produtivo ou suportável?
A psicanálise carrega um tributo à sua origem: à prática médica e aos princípios científicos que vigoravam na época de Freud. Os estudos e a teorização que se seguiram, a metapsicologia de Freud, sempre receberam inúmeras críticas, dirigidas também à sua prática. Uma comparação entre os princípios da ciência cognitiva e a psicanálise, ao propor uma leitura dos afetos em conexão com as cognições e o pensamento, é aqui trazida em uma contribuição preciosa de Imbasciati.
Não é fácil integrar e assimilar os autores de hoje que tanto admiramos. Consideremos, de um lado, a recente visita ao Brasil de nossa conhecida de muitos anos, uma sempre jovem e obstinada Betty Joseph, com sua experiência e o exame detalhado das sessões e, por outro lado, as visitas e contribuições de Antonino Ferro, que nos fazem tanto sentido, bem como os ensinamentos tão criativos e sintetizadores que encontramos na obra de Ogden.
O novo e o permanente se explicitam em nossos estudos referentes à clínica. Uma confluência de maior liberdade, uso e respeito em relação à experiência de nossos mestres e criatividade são ingredientes de uma postura clínica como se tem procurado hoje em dia. O analista reflete sobre sua prática, devaneia e se organiza.
Prosseguindo com aquilo que é permanente na temática central da psicanálise: o Édipo continua nosso ponto de referência; reconhecido e considerado nas nossas teorias, será alguma vez esquecido entre nós, quando nos debruçamos sobre novas idéias?
A psicanálise e o estudo dos mitos sempre andaram juntos, e aquela se fertiliza com a reflexão sobre estes. A análise do Édipo geralmente se refere à parte mais conhecida da trilogia tebana; analistas, como Klein e os neo-kleinianos têm valorizado novos aspectos e abordagens do tema. Bion destaca outros personagens, como Tirésias, por exemplo. A própria Revista já trouxe contribuições sobre Édipo e transgeracionalidade. Se geralmente nos referimos ao Édipo-Rei, muitas vezes temos deixado de lado outras partes da trilogia como Édipo em Colona e Antígona; trazemos neste número uma elaboração sobre esta última.
O complexo edípico alcançava seu apogeu, para Freud, na criança dos três aos cinco anos. Melanie Klein, como fruto de sua experiência com crianças menores, priorizou sua ocorrência e ampliou seu significado para etapas anteriores da experiência humana. Neste número, trouxemos uma contribuição clínica focalizando o Édipo tardio, em uma abordagem bastante singular.
No campo das instituições, parece-nos surgir a dificuldade de articulação entre o novo e o permanente. A formação psicanalítica, que permitiu um crescimento orgânico e fecundo da nossa teoria, técnica e prática, tem sido objeto de reflexão e essa discussão continua na ordem do dia. Em meio a resistências e desejos de aprimoramento, a questão da análise didática representa um desses pontos de discussão, navegando, entre Scila e Caribdis. Entre o novo e o permanente, la nave va.
João Baptista N. F. França
Editor
 
Ciências cognitivas e psicanálise; uma convergência possível
Antonio Imbasciati, Milão
Este trabalho parte de uma comparação entre a descrição da experiência interior fornecida pela psicanálise e a explicação dada pelas ciências cognitivas em termos de processamento das informações. Os dois vértices de observação dizem respeito aos mesmos eventos mentais. O autor considera a possibilidade de cotejar as duas descrições e traduzi-las uma na outra. É preciso discriminar quais são as "informações" a serem processadas na experiência interior profunda, afetiva inconsciente, que ocorre no contexto relacional. Isto pode ser possível à medida que se poderá formular uma teoria geral do funcionamento mental que leve em consideração os dados da observação psicanalítica em termos semântico-mnésicos e de comunicação. Considerando a tradição teórica da psicanálise, o autor sublinha as incertezas determinadas pela metapsicologia freudiana. A teoria das pulsões tinha um valor explicativo, além de descritivo-clínico, que colocava a psicanálise em contato com as outras ciências da mente daquela época. Tal valor explicativo não é atualmente válido, e as teorizações psicanalíticas sucessivas a Freud parecem ter deixado de lado a "explicação", criando um vazio teórico que isolou a psicanálise das outras ciências da mente. O autor faz considerações sobre como as teorias de relação de objeto podem servir de ponto de partida para explorar a experiência em termos de aprendizagem e de traços mnêmicos, e propõe um cognitivismo psicanalítico a partir de uma teoria pessoal explicativa sobre o desenvolvimento da mente.
 
A virtualidade no método psicanalítico
Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, São Paulo
Avolumam-se atualmente as indagações a respeito da eficácia do método psicanalítico para promover uma humanização real, num contexto sociocultural cada vez mais envolvido nas teias da realidade virtual e da globalização.
No entanto, se observarmos atentamente os desdobramentos teórico-clínicos da psicanálise, veremos que a virtualidade sempre esteve presente em sua trajetória, seja como elemento intrínseco aos processos de pensamento, que configuram seu objeto, seja na operacionalidade da "neurose de transferência" que configura sua técnica. De fato, a re-encenação dos conflitos infantis no cenário transferencial, ou seja, sua repetição como disse Freud, ou sua atualização, como diríamos hoje, constitui o paradoxo central de nosso método ao apresentar-se como atividade ao mesmo tempo real e ilusória.
E o que sustentaria este paradoxo? No meu entender, e esta é uma das teses deste trabalho, aquilo que poderíamos chamar de "espírito lúdico" e que Winnicott valoriza, ao dizer ter sido a psicanálise desenvolvida como forma altamente especializada do brincar. Impõe-se, portanto, um aprofundamento deste "fator lúdico", o que tentei fazer a partir das idéias do historiador e filósofo Johan Huizinga, expostas em seu magistral ensaio "Homo Ludens - O jogo como elemento da cultura".
Por outro lado, tendo em vista um melhor entendimento epistemológico de nosso paradoxo, são apresentadas resumidamente as teses de Deleuze sobre o atual e o virtual e contrapontisticamente as reflexões de Pierre Levy (professor de hipermídia na Universidade de Paris VIII) sobre a importância da realidade virtual no ciberespaço e na constituição da inteligência coletiva.
Finalmente, a partir da constatação de que o método psicanalítico encontra-se essencialmente estruturado para ajudar na promoção de uma humanização atual e virtual, é sugerida uma provável forma de inserção para a psicanálise na Era da Virtualização.
 
Unitermos
Atual/virtual brincar neurose de transferência método psicanalítico repetição virtualidade
 
Acerca da verdade, do desejo e da virtualidade. As relações com objetos virtuais
Ruggero Levy, Porto Alegre
O autor inicia o trabalho tecendo comentários acerca da questão da verdade em psicanálise, tanto como construção epistemológica que visa a apreensão da realidade psíquica do sujeito, quanto como sentimento de ser verdadeiro, de existir como sujeito com um desejo próprio. Compreende, a partir de contribuições de Bion e Winnicott, que, tanto a apreensão da realidade psíquica, como o sentimento de ser verdadeiro, de existir, são construídos na intersubjetividade, sendo que o outro, enquanto objeto, tem um papel estruturante fundamental. É estudado como as novas tecnologias, especialmente a virtualidade, podem interferir neste processo, afetando o sentimento de ser verdadeiro e podendo alienar o sujeito de seu próprio desejo. Para isto, é feito um estudo do que vem a ser o objeto virtual, suas características e a que tipo de relação objetal ele remete.
 
Unitermos
Virtualidade objeto virtual verdade
 
A psicanálise e as novas formas de experiência humana determinadas pela globalização
Alirio Dantas Jr., Recife
O autor busca fazer uma reflexão sobre algumas conseqüências que o processo da globalização pode trazer para o homem contemporâneo e para a psicanálise. Considerando o crescimento da freqüência e a abrangência de fenômenos patológicos decorrentes do sofrimento psíquico, o autor questiona criticamente o efeito destas mudanças sobre o homem. Apoiando-se no conceito de "Ideal do ego" o artigo busca ressaltar a natureza predominantemente narcísica desta modernidade, definida como "cultura do narcisismo" ou como "era da imagem". Ele sublinha que este "projeto" tem por finalidade contornar a "angústia de castração" e substituir, defensivamente, as limitações impostas pela natureza frustrante da experiência humana. Ressalta que há muito os psicanalistas estão familiarizados com o uso da regressão às formas narcísicas e à onipotência como uma alternativa à angústia de castração. E, finalmente, enfatiza que qualquer projeto humano apoiado em tais regressões somente pode resultar em fracasso, acarretando enorme sofrimento e uma forte propensão ao adoecer, psíquica ou fisicamente.
 
Unitermos
psicanálise e globalização psicanálise e modernidade ideal do ego era da imagem narcisismo primário
 
"- E então? Com ou sem dor?"
Miguel Calmon du Pin e Almeida, Rio de Janeiro
O autor discute as resistências à psicanálise. No primeiro momento as resistências oriundas da contemporaneidade e, mais tarde, o modo com que a psicanálise resiste à própria psicanálise.
Não reconhece na exigência de novos conceitos uma marca distintiva dos tempos atuais e discute os riscos do imediatismo e eficácia para a aplicação do método psicanalítico; estuda a concepção de dor como desvio; e conclui com uma pequena reflexão sobre a clínica psicanalítica, tomando o paradoxo como o mais próprio desse discurso.
 
Unitermos
Dor e contemporaneidade paradoxos e sentidos
 
Uma sessão de análise e outros devaneios
Maria Helena Souza Fontes, São Paulo
O trabalho está composto pela narrativa de uma sessão de análise e dos comentários e devaneios suscitados pelo encontro do material clínico com uma formulação de Bion, contida em Elementos de psicanálise.
Faço uma proposta lúdica, onde o leitor poderá escolher ler o trabalho de acordo com sua preferência - ler apenas os fatos, isto é, a sessão e seus comentários ou ler os devaneios que foram despertados por situações que emergem da sessão: o prazer, a memória e o sentimento de solidão.
 
Unitermos
Devaneios sonhos prazer memória solidão
 
Considerações sobre o complexo de Édipo tardio na mulher. A filha mais velha e o pai idoso. A mãe viúva. A mãe solteira.
Maria P. Manhães, Rio de Janeiro
Com base no atendimento de dois casos de clientes idosos, a autora levanta hipóteses sobre o Édipo tardio, levando em consideração, primordialmente, o desempenho de filhas com situação edipiana mal resolvida. Trata-se de mais um capítulo para o estudo do complexo de Édipo e suas variações, focalizando, nesses estudos, a mulher-filha de meia idade.
Quanto ao caso das mães viúvas ou solteiras, este trabalho tem por objetivo a relação neurótica que a mulher (aqui ponho em relevo as condições da mãe viúva e da mãe solteira) pode ter com seu filho homem.
O comportamento que elas desenvolvem em relação a seus filhos do sexo masculino pode correr por conta de fantasia incestuosa, comum a todos os seres humanos. Quanto aos atos incestuosos, ocorrem porque as pessoas são incapazes de reprimir o desejo.
O ato é uma descarga - atuação - uma experiência à guisa de tentar satisfazer as fantasias incestuosas. Prevalece a agressividade sob forma de ódio, e não o amor.
A autora tenta esclarecer a situação estudando o incesto, a mitologia e a história. Apresenta casuística própria e de observação geral.
 
Unitermos
Complexo de Édipo complexo de Édipo tardio psicologia feminina homens idosos esposas e amantes idosas filha em idade madura filha casada com homem casado castração do homem idoso pela filha ciúme vingança ternura e gratidão geriatria
 
A saga de Antígona
Wagner Vidille, São Paulo
O autor examina as prováveis motivações inconscientes da personagem mítica Antígona na escolha da própria morte, usando como referência dois textos de Sófocles, Antígona e Édipo em Colono. A heroína, condenada por um decreto do tirano Creonte ao confinamento a uma caverna onde morreria por asfixia, antecipa a própria morte suicidando-se por enforcamento.
Para a compreensão da personagem, acha necessário o entendimento da atmosfera que envolvia as representações dramáticas, das funções do drama como decorrência da constituição política da pólis, da matriz social da qual emerge, das normas da ideologia funerária na Atenas do século V a.
Considerando que o paradigma da morte feminina na tragédia grega era o sacrifício das virgens e o suicídio das esposas, o autor entende os eventos anteriores ao suicídio e o próprio ato suicida de Antígona como um conjunto de ações que permitem a ela engendrar uma morte fora das normas. Por meio do uso de uma "zona tanática" diferente da que lhe caberia como virgem, a nuca (aukhén) em vez da garganta (dére), ela afirma sua progressão em direção a uma posição mais evoluída do desenvolvimento feminino, adquirindo fantasticamente o status peculiar das esposas. Ao violar a norma trágica segundo a qual as virgens não se matam, mas são mortas, assume a autoria do seu destino, incrimina Creonte como algoz de sua condenação, ao mesmo tempo em que atende à premência de seus desejos incestuosos, encontrando a feminilidade renegada e a maturidade sexual, post-mortem.
 
Unitermos
Antígona Mitologia Grega morte ideologia funerária zona tanática métis
 
Análise subalterna
Luiz Meyer, São Paulo
"Deve a análise didática ser mantida?". Esta pergunta, feita por Elias Rocha Barros, chair do Congresso de Analistas Didatas da IPA, de 2001, é usada como estímulo, pelo autor, para apresentar suas idéias sobre o tema. O trabalho é dividido em três partes: na primeira é feita uma recensão das principais críticas dirigidas à análise didática desde 1930; a segunda propõe-se a compreender a estrutura de funcionamento da análise didática, a partir das críticas apresentadas na primeira parte; e, na terceira, são apresentados dois fatores que dão sustentação à análise didática apesar da profundidade das críticas que lhe são dirigidas. A análise didática é então descrita como um fetiche e uma formação ideológica. Enquanto fetiche ela é utilizada pelos analistas para recusar as limitações da análise tout-court, e como formação ideológica é usada para ocultar seu caráter sintomático, naturalizando-o pelo funcionamento institucional prescritivo. O autor responde então pela negativa à pergunta inicial, sugerindo mesmo que toda análise diferenciada de formação deve ser abolida, deixando-se aos analistas o trabalho de cuidar de suas análises. Esta seria uma medida que também auxiliaria na des-ideologização do modo de funcionar da Instituição.
 
Unitermos
Análise didática formação instituição fetiche ideologia
 
Analistas didatas: origem e contradições
Eustachio Portella Nunes, Rio de Janeiro
0 autor pretende mostrar que o papel do didata vem sendo nocivo às sociedades psicanalíticas. Isso não se deve ao fato de pessoalmente serem maus ou incapazes. De um modo geral são escolhidos entre os melhores de cada sociedade. Há, entretanto, uma contradição intrínseca entre o papel de analista e o trabalho de um didata, que, como indica o próprio nome, deve ensinar. 0 analista, enquanto analista não pode ser professor nem juiz. 0 objetivo é deixar o paciente expressar-se, da maneira mais livre possível, em todos os seus aspectos amorosos e agressivos sem precisar agradar a nenhum professor que o esteja julgando. Desse modo, o importante é que o analisando possa pensar de modo diferente do analista em todos os aspectos teóricos ou práticos da vida.
Uma análise bem-sucedida é aquela em que o analisando pode ser livremente o que ele é, sabendo que o analista lhe permite essa liberdade. Um analista que passe suas concepções doutrinárias aos analisandos está deixando de ser analista para ser professor. Esse papel é dos professores que dão os cursos teóricos e dos supervisores que orientam o trabalho clínico dos alunos e, mesmo nessa condição, devem respeitar os alunos e permitir que possam pensar de modo diferente. Como não existe o triângulo quadrado não deve existir o analista didata.
 
Unitermos
Análise didática posição substitutiva dominadora psicanálise posição antecipadora liberativa verdade e liberdade
 
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