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Sumário
 
Editorial
João Baptista N. F. França
 
Artigos premiados do XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise
O quarto pressuposto
Paulo Cesar Sandler - 907
A teoria das transformações e os estados autísticos
Célia Fix Korbivcher - 935
Romance institucional
Carlos Ferreira Lopes Pires Leal - 959
Dirigindo a cena: a dupla analítica no palco das emoções
Gina Khafif Levinzon - 977
 
Artigos
Ars Longa Vita Brevis. Algumas reflexões sobre a idéia de "sucesso" ou "fracasso" em uma análise
Ester Hadassa Sandler e Ligia Todescan Lessa Mattos - 989
Adolescentes sem limites ou "funcionamentos-limite" diante de uma existência que exige a demissão do sujeito?
Mônica Guimarães Teixeira do Amaral - 1001
Sexualidade e criatividade: algumas considerações, com ênfase no masculino
José Nepomuceno - 1023
Para além da transferência - Uma reflexão sobre o uso da capacidade de alucinar
Claudio Castelo Filho - 1039
Anotando o inexprimível: Algumas idéias estimuladas pelo trabalho. "Para além da transferência - uma reflexão sobre o uso da capacidade de alucinar" de Cláudio Castelo Filho
João Carlos Braga - 1053
O dito e o não dito. Estruturas secretas e ideologia nas instituições psicanalíticas
Paulo Soroka - 1061
O desafio da escrita
João Baptista N. F. França - 1079
O terceiro no pensamento
Daniel Widlöcher - 1097
 
Resenhas
Megalomania de Freud
Israel Rosenfield - 1107
Cents ans après
Patrick Froté - 1109
A travessia do trágico em análise
Mauro Pergaminik Meiches - 1120
Psicanálise e Educação - ontem, hoje, amanhã
Alicia Beatriz Dorado de Lisondo - 1129
Hysteria
Chistopher Bollas - 1131
 
Lançamentos - 1139
 
Editorial
Com este número, completamos a edição do Volume 35 da Revista Brasileira de Psicanálise.
Nosso percurso, este ano, se iniciou com a edição de "Configurações alternativas", número no qual demos espaço para vozes que são nossas, que nos enriquecem, mas que não são ouvidas no nosso cotidiano.
No número 2, apresentamos as três plenárias do XLII Congresso Internacional de Psicanálise, evento no qual os temas em torno de "Psicanálise, método e aplicações" foram ventilados dentro das preocupações que cercam nossa disciplina, no momento que atravessamos.
No XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise, a mesma temática se expandiu para o estudo do "Futuro da psicanálise - das construções teóricas às evidências terapêuticas", tema do nosso Congresso, no qual focalizamos a contribuição dos psicanalistas brasileiros.
Apresentamos boa parte dos Painéis do Congresso, reunindo trabalhos que permitiram ampla discussão de pontos de vista diversos e contribuições à psicanálise, possibilitando a leitura antecipada dos mesmos e permitindo uma participação dos nossos congressistas nas apresentações e discussões que se seguiram. Esses trabalhos constituíram o número 3 do presente volume da Revista.
Tivemos no Congresso Brasileiro, além das Mesas, Reflexões Psicanalíticas e Cursos, a apresentação de cerca de 90 trabalhos apresentados como Temas Livres; destes, os melhores passaram por nova seleção para a escolha dos trabalhos premiados em suas diversas categorias, os quais fazem parte da presente edição.
Esses trabalhos premiados constituem Ecos do nosso Congresso e a Revista Brasileira de Psicanálise continua assim a tradição de publicar os mesmos.
Este número tem como título, a "Psicanálise em questão". Muitos dos trabalhos aqui apresentados, tanto os premiados como os demais artigos, questionam ou ampliam a visão de psicanálise, apresentando interface com aspectos diversos da sociedade, estudando grupos e organizações, particularmente a nossa própria instituição. Apresentamos ainda artigo sobre a escrita psicanalítica, assunto de enorme importância para o registro fiel, transmissão e divulgação de nossa disciplina.
A visão "com uma grande ocular" de psicanálise, que apresentamos neste número, se verifica nos artigos de Paulo Sandler, de Monica Amaral, de Ester Sandler e Lígia Mattos e, também em outros.
Paulo, vencedor do prêmio "Durval Marcondes", nos trouxe um trabalho sobre mentalidade grupal, suas diversas formas e desdobramentos; aborda questões do âmbito da psicanálise propriamente dita, de consultório, e da psicanálise aplicada aos grupos; baseia-se no trabalho de Bion - "Experiências em grupos" e propõe um quarto (pre)suposto básico, o de inclusão (pertinência) - exclusão, além dos três supostos descritos por Bion.
Mônica nos fala da psicanálise, não apenas como método clínico, mas como método crítico de interpretação da cultura; analisa e observa situações de vida social (inclusive situações catastróficas vividas este ano, atentados terroristas do passado e do presente), contrapondo situações da crise da adolescência, no contexto sociocultural que vivemos; Mônica prossegue neste trabalho, seus estudos baseados nas idéias de Adorno e de Fábio Herrmann.
Ester e Lígia estudam a natureza do trabalho analítico, focalizando o sucesso e o fracasso em análise; examinam o que chamam de "o plano das psicanálises", se contrapondo com "o plano da psicanálise", no qual, além das questões surgidas na prática clínica, somam-se aquelas do estabelecimento da psicanálise como disciplina científica.
Carlos Ferreira Leal, vencedor do prêmio "Mario Martins" nos traz linha de pensamento, na qual focaliza nossa própria instituição, questionando porque não a estudamos mais amiúde, empregando para isto o método psicanalítico; o autor apresenta o trabalho de Freud sobre o "Romance familiar" como uma das bases de suas idéias.
O trabalho de Paulo Soroka, bastante rico e cuidadoso, situa-se na mesma linha de investigações, pois estuda aspectos de conflito da identidade analítica a partir do estudo do funcionamento das instituições psicanalíticas e de sua história.
Como fruto de reflexões que se originaram em várias reuniões do trabalho do Conselho de Assessoria Editorial da Revista Brasileira de Psicanálise, apresentamos nosso trabalho sobre escrita psicanalítica, abordando diversos aspectos através dos quais nossas idéias são transmitidas; chamamos a atenção para o que foi chamado de mítico, se contrapondo ao registro científico das idéias psicanalíticas e fizemos um levantamento da escrita analítica no Brasil, acrescentando dados de nossa experiência editorial.
Ao lado desses artigos, que discutem a psicanálise vista como uma aproximação mais ampla e abrangente de nossa disciplina, apresentamos artigos teóricos e clínicos de psicanálise. Portanto, além dos artigos que constituem questionamentos para a psicanálise de nossos dias, estamos apresentando assuntos ligados ao desenvolvimento de nossa disciplina.
Celia Fix nos brindou em seu trabalho, com um interessante contraponto de idéias de Bion sobre transformação e de Francis Tustin sobre o autismo, conquistando o prêmio "Fabio Leite Lobo".
Gina Levinzon nos traz um belo trabalho clínico, no qual sua sensibilidade e criatividade nos faz participar e assistir a cena de uma feliz interação clínica. Gina fez por merecer o prêmio "João Bosco Calábria de Oliveira"; mais uma vez os nossos candidatos apresentam um bom número de trabalhos muito bons, dos quais este recebeu as melhores notas.
O artigo sobre transformações em alucinose de autoria de Claudio Castelo Filho aborda a questão de transformações e particularmente, transformações em alucinose; na situação clínica, fala das transformações do analista, além daquelas do paciente; e ilustra também sua tese, ao examinar obra literária.
Os comentários de João Carlos Braga surgiram em reunião científica na qual foi apresentado o trabalho de Cláudio e, modificados para ser aqui apresentados, enriquecem o tema com uma nova leitura e apreciação do mesmo.
Estamos trazendo uma contribuição original de José Nepomuceno sobre gênero, abordando o tema da sexualidade, homossexualidade e criatividade. Os assuntos relativos a gênero sempre despertam interesse por constituírem, quando se trata de homossexualidade, campo ainda eivado de preconceitos e que requerem muita reflexão, constituindo assunto polêmico e aguardando estudos.
Contamos ainda neste número com uma contribuição de Daniel Widlöcher sobre o terceiro no pensamento. O autor nos fala do trabalho de Freud sobre ocultismo, transmissão ou transferência de pensamento; fala em transferência e contratransferência em intersubjetividade e destaca a supervisão como elemento de objetividade em psicanálise.
A todos nossos colaboradores e leitores, agradecemos terem nos prestigiado com sua atenção.

Pela Revista Brasileira de Psicanálise,
João Baptista N. F. França
Editor

 
O quarto pressuposto
Paulo Cesar Sandler, São Paulo
O presente estudo foi gerado nas questões que encontramos na clínica, da qual foram extraídas as experiências que formam a base empírica que o respalda. Refere-se ao âmbito da psicanálise propriamente dita, de consultório, e da psicanálise aplicada aos grupos. Tenta contribuir para um encaminhamento psicanalítico do que tem sido visto como "crises" no movimento psicanalítico. Pode interessar aos colegas que se dedicam à atividade institucional, e se refere ao relacionamento intra-grupal dos analistas, à formação analítica. Parte da observação que grupos sociais forjam-se na alucinação compartilhada; favorecem guerras contra a realidade à medida que proporcionem um lócus social para abrigar e estimular uma característica psicótica, a fantasia de superioridade vinculada a narcisismo primário (Freud), inveja primária (Klein) e congelamento na posição esquizoparanóide; produz desprezo à verdade e à vida. O estudo explicita o material, métodos, hipótese, fornece ilustrações que originaram a hipótese e a discute. A descrição da base empírica no final do estudo inclui, além de trabalho com psicanálise em consultório, tentativas de aplicação de psicanálise em comunidade. A observação se estendeu por vinte e cinco anos; a hipótese surgiu como fato selecionado, que deu coerência a dados que ficaram dispersos por quinze anos.
Penso ter observado a existência de um quarto "pressuposto básico", obstáculo à formação de um grupo de trabalho, além dos três descritos por Bion. O quarto pressuposto pode ser chamado, "Alucinose de Exclusão/Pertinência". Seria uma tendência de seres em grupo alucinarem que pertencem ao grupo ou estão excluídos do grupo. A origem psíquica parece ter duas bases, uma mais primitiva, ligada aos processos de clivagem (splitting) e outra mais madura, baseada em fantasias edipianas de exclusão.
 
Unitermos
Psicanálise posição esquizoparanóide pressupostos básicos em grupos segundo Wilfred Bion fantasias de superioridade inveja e rivalidade Édipo.
 
A teoria das transformações e os estados autísticos. Transformações autísticas: uma proposta
Celia Fix Korbivcher, São Paulo
O trabalho integra duas áreas de reflexão: uma em que a autora desenvolve considerações acerca do método de observação dos fenômenos mentais em psicanálise, partindo da Teoria das Transformações de Bion; e outra, em que se ocupa com a investigação dos estados primordiais da mente - estados protomentais - mais especificamente os estados autísticos presentes em pacientes neuróticos, descritos por Frances Tustin.
Elabora algumas idéias acerca da postura "filosófica" subjacente à Teoria das Transformações, dando ênfase especial à idéia de que um mesmo fenômeno em psicanálise pode ser considerado a partir de diferentes vértices, desde que se situe dentro do referencial teórico ao qual pertence. Pondera sobre a idéia de que este modo de observação dos fenômenos faz parte de um contexto mais amplo do conhecimento humano em geral, em que a incerteza e a relatividade dos conceitos são os principais ingredientes.
Ao adotar a Teoria das Transformações como um vértice de observação dos fenômenos que permeiam o encontro analítico, a autora indaga se é possível incluir em tal teoria outros tipos de transformações da experiência emocional nas quais se evidenciam fenômenos particulares com qualidades específicas, diversos daqueles destacados por Bion.
Sugere, como hipótese, que os fenômenos autísticos presentes em pacientes neuróticos, caracterizando os estados autísticos, possam ser considerados e destacados, compondo um tipo particular de transformação da experiência emocional, com a qual o analista freqüentemente é confrontado no cotidiano de sua prática clínica. Propõe o termo Transformações Autísticas para designá-la.
 
Romance institucional
Carlos Ferreira Lopes Pires Leal, Nova Friburgo
O autor assinala neste trabalho que nestes 100 anos da história da psicanálise somente uma ocorrência pode rivalizar em freqüência com as crises vividas por suas instituições: a não utilização da própria psicanálise para compreendê-las e elaborá-las. Discorre sobre a constituição da instituição como objeto para a psicanálise propondo, em seguida, o conceito romance institucional para assinalar ocorrências e fenômenos especificamente engendrados pelas relações grupais-institucionais. Sugere que o pioneirismo na atualidade se relacionaria à recuperação da responsabilidade autoral na expansão da psicanálise, que depende da compreensão e transformação das instituições psicanalíticas.
 
Unitermos
Instituição grupo romance familiar formação psicanalítica futuro da psicanálise história da psicanálise análise institucional crise institucional
 
Dirigindo a cena: a dupla analítica no palco das emoções
Gina Khafif Levinzon, São Paulo
O método psicanalítico caracteriza-se pela busca de aproximação do que é singular no psiquismo. Tem como pilares o estabelecimento de um setting, a compreensão da transferência e da contratransferência, o uso da interpretação e o encontro com o novo ainda não formulado.
Este trabalho examina estes pontos à luz de um caso clínico em que o analista é convidado a participar ativamente do enredo criado pelo paciente e os papéis de autor, diretor, ator, espectador, analisando e analista se entrelaçam.
A sessão se passa como num teatro, e o setting delimita o palco onde ocorrem as transformações. Na transferência, são vividos personagens imaginários, resultantes do terceiro-analítico, o espaço de intersecção do analisando e do analista. A atividade interpretativa tem como enfoque a busca de um canal apropriado de comunicação, utilizando para este fim os personagens criados pelo paciente.
Neste processo de representação e descobrimento de si mesmo por meio do processo analítico, estabelecem-se condições para o encontro da musa, fonte de inspiração criativa, compartilhada pela dupla.
 
Unitermos
Técnica psicanalítica psicanálise de crianças dramatização setting transferência interpretação criatividade
 
Ars Longa Vita Brevis. Algumas reflexões sobre a idéia de "sucesso"
Ester Hadassa Sandler e Ligia Todescan Lessa Mattos, São Paulo
Neste artigo, tomando como ponto de partida uma leitura da trilogia Uma memória do futuro, as autoras trazem algumas reflexões sobre a natureza do trabalho analítico, sobre os fundamentos de sua prática e sobre concepções do que pode ser chamado de "sucesso" ou "fracasso" em psicanálise. São propostos dois planos de exame: aquele que denominam de plano das "psicanálises", o do cotidiano do analista exercendo seu ofício, com as dificuldades e frustrações inerentes ao trabalho com pacientes ditos "difíceis"; e o plano da "Psicanálise", onde as repercussões das angústias mobilizadas na prática clínica somam-se às questões específicas do estabelecimento da psicanálise enquanto disciplina científica, cujo objeto de investigação é tão amplo quanto a própria vida, a própria condição humana. Pode uma ciência permanecer fiel a si mesma e, ao mesmo tempo, evoluir? Que percalços se interpõem entre o trabalho cotidiano e a manutenção do método do vértice psicanalítico?
 
Unitermos
Fracasso sucesso psicanálises psicanálise
 
Adolescentes sem limites ou "funcionamentos-limite" diante de uma existência que exige a demissão do sujeito?
Mônica Guimarães Teixeira do Amaral, São Paulo
O trabalho pretende abordar as dimensões regressiva e autoritária do mundo contemporâneo, procurando estabelecer um diálogo tenso - ou seja, resguardando a especificidade dos discursos de cada autor - entre as idéias do filósofo alemão Theodor W. Adorno acerca do caráter regressivo da Razão ocidental e as idéias de psicanalistas como Fábio Herrmann, que propõe uma leitura crítica do processo autoritário que tem invadido a própria noção de cotidiano na atualidade. Concebendo a psicanálise, portanto não apenas como método clínico, mas como método crítico de interpretação da cultura, e apoiando-se na experiência de atendimento psicanalítico de adolescentes considerados "sem limites", a autora procura repensar a idéia de "acting-out" na adolescência sob a ótica do "regime do atentado", conforme concebido por Herrmann (1982) a propósito do real autoritário, além de procurar articulá-la com as concepções de alguns psicanalistas franceses a respeito dos funcionamentos-limite, em que se destacam as reflexões de André Green (1999). Propõe-se, por fim, o refletir sobre os limites e possibilidades da técnica psicanalítica a partir da radicalização do método psicanalítico, para a qual urge contemplar a dimensão sociopolítica dos fenômenos do inconsciente na contemporaneidade.
 
Unitermos
Regressão real autoritário acting-out e adolescência funcionamentos-limite.
 
Sexualidade e criatividade: algumas considerações, com ênfase no masculino
José Nepomuceno, Brasília
O autor apresenta algumas considerações sobre sexualidade e criatividade, enfatizando o vínculo entre essas situações com a identificação e o desejo. É realçada, ainda, as vicissitudes da sexualidade masculina, em especial a questão homossexual.
O veio que permeia a explanação é aquilo que pode ser considerado aspecto fulcral do legado freudiano, isto é, o fato de sermos seres desejantes, instaurado em função da impossibilidade da "cria" humana sobreviver sem os cuidados de um outro ser humano. Assim, em torno disso, se articulam, em termos gerais, os três pontos principais do artigo. O primeiro aborda e critica uma certa visão freudiana, em que o sexo masculino é apresentado como originário e completo. O segundo ponto trata da sexualidade e seu imbricamento com a identificação subjetiva, sendo também frisado que a homossexualidade pode comprometer esse processo, via a fantasia de completude que desempenha papel fundante naquele comportamento sexual. O terceiro tece considerações sobre sexualidade e criatividade, sendo aventado que a constituição da masculinidade seja signo de um ato criativo diferenciado, quando comparado com aquele ligado à feminilidade.
Finalmente, é apresentada a possibilidade que a homossexualidade seja expressão de maturidade, se nela é barrada a não-diferenciação insinuada pelos corpos iguais. Dessa forma, é dito, estabelece-se uma condição de alteridade, que é requisito de base para estar-se no mundo, independentemente de questões sexuais, de forma não-doentia e implicada com a vida.
 
Unitermos
Sexualidade masculinidade homossexualidade criatividade.
 
Para além da transferência. Uma reflexão sobre o uso da capacidade de alucinar
Claudio Castelo Filho, São Paulo
Limitações do trabalho no campo transferencial acabaram por impor a necessidade de uma evolução do pensamento e da prática da psicanálise. Este, se deu com a teoria das transformações, de Bion. Na transferência (renomeada transformações em movimento rígido), o analista interpreta reações a estímulos perceptíveis com os órgãos dos sentidos que são de senso comum a ele e ao paciente. Nas transformações projetivas e em alucinose, os estímulos não são observáveis pelo analista. A tarefa primordial consiste em perceber a que estímulos o paciente reage. Esta se faz a partir do que os sentidos percebem, porém, visando intuir e "ver" o que eles não captam. Para se alcançar tal objetivo, o analista afasta memórias e desejos, e usa sua capacidade de alucinar (em sonhos e pensamentos-sonho) para entrar em contato com a realidade psíquica do analisando. A diferença do uso da capacidade de alucinar pelo analista daquele do paciente seria: o primeiro a emprega para entrar em contato com a verdade psíquica e, o, último para se evadir dela. O autor se vale de uma situação clínica e da peça Hamlet para substanciar suas considerações.
 
Unitermos
Transferência transformações em movimento rígido projetivas e em alucinose alucinação.
 
O dito e o não dito. Estruturas secretas e ideologia nas instituições psicanalíticas
Paulo Soroka, Porto Alegre
Tomando como ponto de partida a estruturação do Comitê Secreto, nos primórdios da história da psicanálise, o autor estuda o funcionamento dinâmico das instituições psicanalíticas, cotejando-as com algumas características das Sociedades Secretas. Neste estudo, a perversão da ideologia é compreendida como mecanismo de defesa socialmente compartilhado, sustentado com o intuito de manter a coesão grupal, colocando em risco a autonomia de seus integrantes e os princípios de subjetivação norteadores da própria psicanálise. São destacados alguns aspectos conflituosos da identidade analítica e os mecanismos de idealização a que dão origem, bem como o colorido que imprimem à ideologia, no âmbito da vida institucional.
 
Unitermos
Perversão da ideologia identidade analítica sociedades secretas educação psicanalítica
 
O desafio da escrita
João Baptista N. F. França, São Paulo
Este trabalho apresenta uma reflexão sobre o desafio da escrita psicanalítica, abordando três aspectos.
O primeiro consiste em uma reflexão teórica a respeito do caráter mítico da psicanálise e de sua influência sobre a escrita psicanalítica.
A proposta apresentada sugere que na disciplina e na práxis psicanalítica predominam aspectos míticos que se devem à sua origem, à figura ímpar de Freud e também à instituição que foi criada para proteger e dar continuidade à ortodoxia freudiana.
O caráter oral da transmissão psicanalítica, centralizado na experiência do divã, recebe um destaque especial neste trabalho.
O segundo aspecto focalizado é a discussão sobre o caráter científico da psicanálise; é ressaltada a importância do registro da produção escrita para a nossa disciplina e como isto é necessário para a respeitabilidade do nosso objeto de trabalho, para não dizer, até mesmo para garantir a sua sobrevivência.
Na terceira parte do trabalho o autor dirige seu olhar para a produção escrita em psicanálise no Brasil, observando suas carências e particularidades. Seguem-se reflexões surgidas da experiência editorial da Revista Brasileira de Psicanálise e são apresentadas algumas conclusões, resultado do trabalho realizado pelo Conselho de Assessoria Editorial da Revista sobre avaliações de artigos e critérios de avaliação dos mesmos.
O autor espera que essas reflexões contribuam para o aprimoramento da escrita psicanalítica entre nós, propondo caminhos para chegar a este objetivo.
 
Unitermos
Escrita psicanalítica mito transmissão oral e escrita caráter científico avaliação de trabalhos.
 
O terceiro no pensamento
Daniel Widlöcher, Paris
Freud, durante toda sua vida, demonstrou um forte interesse pelo ocultismo, mais precisamente pela transmissão de pensamento (Denkenübertragung). Este interesse ocupou em grande parte seu rela-cionamento com Ferenczi entre 1909 e 1912, constituindo-se em tema de três textos importantes entre 1921 e 1933.
Como poderia tal interesse ser compatível com a preocupação de Freud de proteger o seu método contra a acusação de sugestão e manter a sua objetividade? O papel da empatia, de transferência de pensamento, apresenta-nos a solução desta questão e constitui a ética da psicanálise, por meio do princípio geral da supervisão, enquanto processo de transmissão de uma experiência intersubjetiva para uma terceira pessoa.
 
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