Painéis do XVIII Congresso Brasileiro
de Psicanálise
A dificuldade de transmissão e prática
do método psicanalítico nas condições
atuais da clínica Mauro Gus - 441
Contestações à psicanálise
na atualidade
Suad Haddad de Andrade - 453
O término do processo psicanalítico:
rimas e rumos
Marcio de Freitas Giovannetti - 463
Recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis
conseqüências para a eficácia
da prática clínica
Paulo Duarte Guimarães Filho - 471
As recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis
contribuições para a eficácia
da prática clínica Sebastião Abrão Salim - 483
Processos possíveis de avaliação
da psicanálise
Cláudio Laks Eizirik - 495
Para além da transferência
e da contratransferência
Paulo Marchon - 503
Além da transferência e da
contratransferência: o encontro
Plinio Montagna - 531
As recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis
contribuições para a eficácia
na prática clínica Altamirando Matos de Andrade Júnior
- 543
Processos de avaliação da
psicanálise e outras psicoterapias
Bernard Miodownik - 551
A especificidade da relação
analítica diante de outras psicoterapias
Ryad Simon - 577
A aplicação clínica
dos conceitos de neutralidade e abstinência:
ontem e hoje
José Luiz F. Petrucci - 591
Principais contestações à
psicanálise na atualidade
José Otavio Fagundes - 599
Principais contestações à
psicanálise na atualidade. O método
psicanalítico dialogando com a semiótica
de Peirce
José Antonio Pavan - 617
A psicanálise e as novas formas de
experiência humana determinadas pela globalização
Claudio Rossi - 647
Sonhos: uma visão neuro-psicanalítica
Yusaku Soussumi - 665
A psicanálise e as neurociências:
os sonhos
Carlos Doin - 687
O paciente psicossomático
David Zimerman - 717
Psicanálise e saúde pública:
fertilizações
Roosevelt M. Smeke Cassorla - 729
Psicanálise e política de
saúde pública
Darcy Antônio Portolese - 751
Narciso perscrutado: a importância
do corpo na cultura contemporânea e suas
manifestações clínicas
Luiz Fernando Gallego - 761
A identidade masculina e a identidade feminina:
o casal de hoje
Gley P. Costa - 781
A identidade masculina e a identidade feminina:
o casal hoje dos Raios X ao casal X
Liana Albernaz de Melo Bastos - 805
Maternidades: novas configurações?
Áurea Maria Lowenkron - 823
O renascimento de Édipo ou A importância
da função paterna na configuração
das famílias atuais Maria Cecília Andreucci Pereira Gomes
- 843
Possibilidades de pesquisa em psicanálise
Vera Regina J. R. M. Fonseca e Vera Sílvia
Raad Bussab - 873
Pesquisando a pesquisa em psicanálise
Theodor S. Lowenkron - 895
Editorial a convite
Estamos nos despedindo de um
século que partejou a psicanálise e
assistiu sua vigorosa expansão no pensamento
e na cultura ocidentais.
Freud falou do "esplêndido isolamento",
sentimento que o habitou nos primórdios da
psicanálise, mas este pouco durou. Logo se
chegou às reuniões das quartas-feiras,
em Viena, e à fundação da Associação
Psicanalítica Internacional (IPA), em 1910,
hoje contando com dez mil membros espalhados por 33
países. A Associação Brasileira
de Psicanálise, que reúne os psicanalistas
brasileiros filiados à IPA, conta com cerca
de mil membros, que cobrem quinze Estados da federação.
Contamos com cerca de 750 psicanalistas em formação
em nossos Institutos. No mundo estimam-se outros vinte
mil profissionais com outras filiações,
mas com uma prática clínica baseada
nas suas concepções.
Estamos diante de um corpo de idéias poderoso,
que iniciou seu percurso vencendo o repúdio
da sociedade vitoriana às novas idéias
sobre a sexualidade. E como, aqui, mais do que nunca,
a obra se confunde com o criador, vemos um Freud obstinado,
enfrentando o conservadorismo da sociedade de sua
época, mergulhando numa cruzada onde vence
todos os obstáculos, enfrenta adversários,
defende leoninamente suas idéias e, como um
verdadeiro conquistador, acaba por triunfar em sua
saga, acreditando que a psicanálise traria
uma contribuição importante para a compreensão
do homem e da humanidade.
Esperança fundada, pois, de fato, a psicanálise
contaminou todo o imaginário de nossa época,
indo além das suas melhores expectativas.
Como estas idéias se expandiram e fizeram da
psicanálise uma das maiores influências
na cultura ocidental?
Justamente pelo fato de Freud e seus seguidores ampliarem
continuamente seu raio de interesses, incluindo cogitações
sobre a vida, a religião, a moral e a política,
fazendo com que a psicanálise fosse ampliando
seu campo de influência e tomando a si a tarefa
de abrir caminhos na compreensão de tudo que
era humano, marcando profundamente nossa visão
do homem, das relações interpessoais,
da educação das crianças, dos
conflitos emocionais, da loucura e da sexualidade.
Esta expansão, ao longo do século, sempre
esteve acompanhada de críticas, crises e vaticínios
os mais variados. Seu ocaso e sua morte foram decretados
em várias ocasiões, mas o que vemos,
hoje, é a psicanálise como uma robusta
criatura, porta-voz do que constitui o âmago
do que nos faz humanos - o mundo dos nossos desejos
inconscientes.
É verdade que as transformações
da cultura contemporânea apontam para uma oposição
às tendências que privilegiavam o desenvolvimento
e o amadurecimento do indivíduo, o estímulo
à singularidade com o realce da subjetividade,
privilegiando a eficiência, a eficácia
e o desempenho; uma cultura onde os desejos humanos
são equacionados a necessidades que, como tais,
poderiam ser atendidas e saciadas gerando uma ilusão
de satisfação e completude.
Estas mudanças são conseqüência
de um processo no qual o incremento do fluxo de informações
e sua posse, a velocidade das mudanças socioculturais,
a onipresença de um ponto de vista da publicidade,
seduzindo e estimulando a gratificação
plena e imediata, a adoção de novos
valores morais na sociedade, as mudanças no
papel da família, têm submetido homens,
mulheres, adolescentes e até as crianças
a situações de pressões que,
medidas pela régua do que pode ser absorvido
e transformado para ser utilizado como experiência,
são vividas como insuportáveis.
Há a constatação de que este
contexto é altamente influenciado pelos meios
de comunicação de massa e pelas possibilidades
advindas do desenvolvimento da ciência e da
técnica, com o incremento do uso da imagem
pictórica, que interfere na essência
da capacidade de pensar. A presença destes
meios na vida de crianças e de adolescentes
influi no desenvolvimento e no amadurecimento da personalidade.
Em determinadas situações, eles terão
que lidar com a revivescência de angústias
de aniquilamento, de separação e com
a sexualização precoce, provocando mudanças
no "eu" decorrentes da alteração
do tempo, das elaborações possíveis,
das emoções e dos conflitos.
São novos desafios e devemos responder a eles
expondo-nos à turbulência, sem nos apegarmos
a explicações prematuras e que impeçam
a apreensão do que é novo e singular.
Uma boa oportunidade para se refletir sobre estas
questões é oferecida naqueles momentos
em que podemos reunir o que há de melhor em
nosso grupo e, enriquecidos pela presença e
participação de estudantes e profissionais
interessados no campo, congregar esforços para
pensarmos as questões do nosso ofício
e do nosso corpo de conhecimentos.
Um destes momentos se dá com o nosso XVIII
Congresso Brasileiro de Psicanálise, agora
em setembro, em São Paulo. O encontro tem como
tema: "O futuro da psicanálise: das construções
teóricas às evidências terapêuticas".
Neste número da nossa Revista Brasileira de
Psicanálise estão algumas das contribuições
que enriquecerão nossos Painéis. O contato
prévio com os textos amplia a participação
de cada um de nós e cria condições
para discussões profícuas e conseqüentes.
Devemos manter em foco que o surgimento da psicanálise
trouxe uma melhor compreensão, não só
das psicopatologias que afetam parte da população,
mas também de todo o desenvolvimento emocional
do homem, como ser pensante e parte de um grupo social;
onde pode influenciar e ser influenciado. Ela se configura
como um instrumento de compreensão das relações
do homem com o homem, em seu contexto sociocultural,
e do homem com o mundo - em constante mutação
- que o cerca.
Até setembro!
Wilson
Amendoeira
A dificuldade de transmissão e prática
do método psicanalítico nas condições
atuais da clínica*
Mauro Gus**, Porto Alegre
O autor enfoca as dificuldades
que, de acordo com seu ponto de vista, podem prejudicar
a transmissão e prática do método
psicanalítico nos institutos de psicanálise,
descrevendo algumas características internas
das instituições, dos tempos e dos pacientes
atuais. Ressalta a necessidade de re-contextualizar
e re-definir o ensino da psicanálise, face
às dificuldades do momento, adaptando-o a novas
teorizações, enriquecendo e ampliando
a metapsicologia freudiana com o acervo de outras
ciências. Evoca autores e passagens da história
do movimento psicanalítico, trazendo um ensaio
de propostas para serem debatidas.
Contestações à psicanálise
na atualidade*
Suad Haddad de Andrade**, Ribeirão
Preto
As transformações
sociais que sobrecarregam o cotidiano com um sentido
de premência e de homogeneização
confrontam com nossa prática clínica
e com nossos fundamentos teóricos. Mas este
não é o maior obstáculo à
psicanálise: o trato com a intimidade sempre
foi tarefa difícil.
Mais importante do que estarmos sendo contestados,
é o fato de sermos propiciadores e participantes
ativos de uma revolução social necessária,
criadora de homens mais livres, criativos e responsáveis
pelo seu destino.
Nossa inserção dentro das mais diferentes
atividades sociais está se fazendo cada vez
mais necessária e possível. O importante
é não perdermos nossa especificidade
científica.
O término do processo psicanalítico:
rimas e rumos*
Marcio de Freitas Giovannetti**, São
Paulo
Para abordar a temática
de término de análise, o autor lança
mão das idéias drummondianas da vastidão
do mundo, da importância das rimas e da inexistência
de soluções. Contrapõe a vastidão
do mundo ao espaço da análise possível
entre um par analista-analisando, limitado que este
último é tanto pela brevidade da vida
humana quanto pela impossibilidade de um ego, qualquer
que seja ele, abarcar a vastidão do id.
Segue com a idéia de que a cura, em análise,
não se aproxima de forma alguma à idéia
de solução, mas sim à da possibilidade
de transformar "rimas pobres" - arranjos
mentais estereotipados - em "rimas ricas"-
maior capacidade egóica de caminhar pela vastidão
do mundo. Questiona o aprisionamento do analista dentro
de sua própria ideologia de pensamento, ressaltando
que a palavra final deve ser sempre a do paciente.
Duas pequenas vinhetas clínicas são
utilizadas para ilustrar as idéias acima.
Recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis conseqüências
para a eficácia da prática clínica*
Paulo Duarte Guimarães Filho**,
São Paulo
Inicialmente é feita uma
apreciação das diferenças entre
critérios usados para avaliar a validade do
conhecimento científico tradicional e do psicanalítico.
Em seguida é examinada a ocorrência recente
de confluências teóricas entre algumas
das mais significativas correntes psicanalíticas
e de como essas confluências parecem decorrer
da escolha de hipóteses que vão se mostrando
mais eficazes na prática clínica.
O valor epistemológico desse fato é
considerado e sugere-se que essa escolha de concepções,
a partir de um processo crítico intergrupal,
pode ser uma das formas de se alcançar uma
maior consistência do conhecimento psicanalítico.
São também considerados alguns benefícios
a que o aprofundamento da investigação
desse processo de confluências pode levar, particularmente
em três áreas: a da troca de experiências
entre os grupos analíticos, no plano da formação
analítica e na discussão sobre que tipos
de pesquisa são apropriadas para a psicanálise.
As recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis contribuições
para a eficácia da prática clínica*
Sebastião Abrão Salim**,
Belo Horizonte
O autor utiliza material clínico
seu, para ilustrar o desenvolvimento de recentes teorias
psicanalíticas.
O trabalho está baseado em quatro eixos teóricos,
que se articulam dialeticamente: o desenvolvimento
emocional primitivo, a transferência-contratransferência
e a intersubjetividade, a neuropsicanálise
e a aplicação clínica.
Processos possíveis de avaliação
da psicanálise*
Cláudio Laks Eizirik**, Porto
Alegre
O autor discute as razões
atuais que tornam necessária a avaliação
de resultados em psicanálise. Descreve dois
tipos de avaliação e sugere que a avaliação
interna é a que permite uma abordagem especificamente
psicanalítica das mudanças psíquicas.
Discute algumas dificuldades para realizar tal avaliação
e sugere alguns possíveis critérios
para uma avaliação interna da psicanálise.
Para além da transferência e
da contratransferência*
Paulo Marchon**, Fortaleza
O autor realiza um estudo crítico
de alguns trabalhos da corrente intersubjetivista,
notadamente de T. Jacobs, T. Ogden, O. Renik e R.
Stolorow. Retoma alguns trabalhos de C. Hanly, M.
Cavell e M. Wasserman. Tece alguns questionamentos
a respeito do "terceiro sujeito" de Ogden
e faz ligeiro apanhado da produção brasileira
a respeito da intersubjetividade.
Além da transferência e da contratransferência:
o encontro*
Plinio Montagna**, São Paulo
O autor desenvolve a idéia
do Encontro entre duas pessoas como elemento fundamental
do desenvolvimento positivo de um processo psicanalítico,
elemento esse que vai além das polaridades
unicamente transferenciais e contratransferenciais.
As recentes confluências teóricas
na psicanálise e suas possíveis contribuições
para a eficácia na prática clínica*
Altamirando Matos de Andrade Júnior**,
Rio de Janeiro
O autor pretende, neste trabalho,
discutir o fato de que é possível confluir
teoricamente em psicanálise desde que haja
diálogo entre os psicanalistas. Afirma também
que deve haver pontos mínimos em comuns entre
colegas representantes de diferentes escolas teóricas
para que seja possível o diálogo. Discute
também a questão de que o surgimento
de novas teorias em psicanálise permite a evolução
da mesma, pois muito se debate entre o novo que surge
e o já existente. Dá o exemplo de grandes
produções teóricas de Freud a
partir de contestações a teorias desenvolvidas
por alguns dissidentes, como Jung, Adler e mesmo Ferenczi
que, embora não tenha sido de fato um dissidente,
manteve com Freud discussões sobre divergências
técnicas.
Afirma ainda que o debate entre escolas diferentes
incrementa o estudo da teoria e da técnica,
trazendo, conseqüentemente, benefícios
para a eficácia clínica.
Processos de avaliação da psicanálise
e outras psicoterapias*
Bernard Miodownik**, Rio de Janeiro
O autor discute a dificuldade
em se elaborar processos de avaliação
da psicanálise comparativamente a outras terapias
mais adequadas ao modelo médico-psiquiátrico
vigente. A partir das idéias contidas no livro
A loucura e as épocas, de Isaías Pessotti,
mostra que na sua história a humanidade tentou
compreender o fenômeno da perda da razão
de diversas formas, e organizou a sua subjetividade
em torno dessas explicações. No seu
surgimento, a psicanálise buscava a compreensão
dos quadros clínicos mentais dentro de uma
subjetividade herdeira do Iluminismo, e coerente com
a psiquiatria da época. O organicismo da psiquiatria
carecia de comprovações neuro-fisiológicas,
e a complexidade da psicanálise atendeu às
demandas subjetivas mais complexas do século
XX. Na década de 70, houve a mudança
da subjetividade vigente para a necessidade de mostrar
resultados e eficácia. O desenvolvimento das
neurociências e da psicofarmacologia, aliadas
às frustrações da experiência
analítica, obrigaram a psicanálise a
uma grande revisão da sua metodologia, e a
uma preocupação em elaborar processos
de avaliação.
Discute as dificuldades específicas dos processos
de avaliação em psicanálise,
principalmente a intensa participação
de aspectos subjetivos e a existência de diversas
escolas teórico-clínicas que interpretam
os conceitos de forma diversa. A partir de duas situações
clínicas, sugere um referencial avaliador por
meio da percepção dos afetos envolvidos
no desenvolvimento da relação.
A seguir, discute os processos de avaliação
de resultados da psicanálise comparada à
psicoterapia analítica. Apresenta duas situações
clínicas para demonstrar quais seriam as diferenças
quantitativas e qualitativas entre as terapias.
A especificidade da relação
analítica diante de outras psicoterapias (e da
psicanálise diante da psicoterapia psicanalítica)*
Ryad Simon**, São Paulo
De início são procuradas
as especificidades das psicoterapias suportivas (uso
da transferência positiva como veículo
da sugestão, sem preocupação
com insight sobre motivações inconscientes)
e psicoterapias reeducativas (insight ao nível
consciente e pré-consciente, procurando conexões
entre soluções inadequadas e equívocos
que as sustentam). A seguir são revistas as
especificidades da psicanálise propostas por
vários autores, começando por Freud
e indo até Bion. O autor apresenta sua contribuição
sobre a especificidade da relação analítica,
considerando como peculiar a percepção
da oscilação entre a contratransferência
interferindo sobre o estado de atenção
livremente flutuante do analista, para cujo restabelecimento
este recorre à auto-análise. A seguir,
considera as relações que caracterizam
a psicanálise em comparação com
a psicoterapia psicanalítica.
O autor utiliza sua Escala diagnóstica adaptativa
operacionalizada (EDAO), para sugerir duas modalidades
de psicoterapia psicanalítica: para quadros
graves e quadros medianos.
A aplicação clínica dos
conceitos de neutralidade e abstinência:ontem
e hoje*
José Luiz F. Petrucci**, Porto
Alegre
Partindo da idéia de que a evolução
dos conceitos de neutralidade e abstinência foram
conseqüência das aquisições
na instrumentação psicanalítica,
e não de fatores extra-analíticos (mudanças
sociológicas ou filosóficas, por exemplo)
o autor, com o intuito de abrir a discussão,
faz um relato dos principais avanços teóricos
e técnicos que acabaram por impor esta evolução.
Principais contestações à
psicanálise na atualidade*
José Otavio Fagundes**, São
Paulo
O autor tece considerações
sobre as principais contestações a que
a psicanálise está sujeita na atualidade.
A primeira vem da cultura atual que, marcada pela
tecnologia, consumo e gratificação imediata,
tende a uma superficialização emocional
e da consciência, ocasionando resistência
para o contato com a subjetividade.
A segunda vem das novas terapias e esoterismo que
prometem curas mais rápidas e eficazes do que
a psicanálise.
A terceira vem da neurociência que, através
dos psicofármacos, supõe o fracasso
da psicanálise em lidar com as perturbações
psíquicas.
O autor reflete sobre essas contestações,
utilizando-se também de observações
de outros autores. Enfatiza a necessidade de os psicanalistas
não ficarem alheios a isso, mas estabelecerem
um exame aprofundado e diálogo com as disciplinas
contestadoras para que haja um maior desenvolvimento
da psicanálise.
O método psicanalítico dialogando
com a semiótica de Peirce*
José Antonio Pavan**, Marília
Neste trabalho foi considerada
a criação e o desenvolvimento do método
psicanalítico por Sigmund Freud, com as posteriores
contribuições de seus seguidores filiados
às idéias de Melanie Klein, especialmente
Wilfred Bion.
Procedeu-se, então, ao estudo semiótico
da prática psicanalítica, com atenção
ao método empregado na mesma, particularmente
em seus aspectos de observação e investigação.
Para alcançar este objetivo, preliminarmente
foram expostas as concepções de Charles
Sanders Peirce sobre Ciências e Semiótica.
Para melhor representar o objeto de estudo, foi construído
um diagrama tomando ao acaso uma sessão de
análise, procedendo-se à observação
da semiose que ocorreu no processo.
Estima-se que a aplicação desse procedimento
a um universo mais diversificado, e maior número
de casos, poderá tornar mais operativo, e confiável
a aproximação entre a Semiótica
e a Psicanálise para, por meio da interdisciplinaridade,
promover-se com o diálogo um mútuo enriquecimento.
A psicanálise e as novas formas de
experiência humana determinadas pela globalização*
Claudio Rossi**, São Paulo
Encarada com pessimismo ou otimismo,
sendo vista como a decadência da humanidade
ou, pelo contrário, como uma manifestação
do progresso, a globalização é
considerada pela maioria dos autores como um fenômeno
de enorme importância que tem aspectos extremamente
problemáticos. Suas repercussões sobre
a estrutura psicológica das pessoas é
bastante grande e suas conseqüências são
sentidas na clínica psicanalítica. A
própria psicanálise, suas instituições
e suas organizações são influenciadas
pela ideologia que está associada a esse fenômeno
mundial. Apesar de não acreditar que possa
haver uma cultura na qual não hajam conflitos
e sofrimentos, a psicanálise tem uma ética
e uma concepção do humano que a impedem
de ser neutra em relação aos movimentos
sociais. Após apresentar uma série de
dados econômicos e sociológicos a respeito
da globalização, o autor discute as
repercussões sobre a subjetividade contemporânea
decorrentes do capitalismo internacionalizado que
se apóia nas novas tecnologias. Para poderem
lidar com a clínica do dia-a-dia sem se afastarem
de sua ética e de seus principais objetivos,
os psicanalistas precisam ter consciência desses
fenômenos socioculturais nos quais estamos imersos
e que fazem parte das matrizes que engendram a realidade
psíquica de todos nós.
Sonhos: uma visão neuro-psicanalítica*
Yusaku Soussumi**, São Paulo
A investigação
do fenômeno do sonho pela neurociência
tem trazido uma compreensão quanto à
sua localização e dinâmica cerebral.
Os dados resultantes destas investigações,
no entanto, não podem ser trabalhados por todos
os neurocientistas dentro de um referencial comum
quanto à natureza dos fenômenos psíquicos.
Para a grande maioria dos neurocientistas não
afeitos com os fenômenos psíquicos inconscientes,
o trabalho do sonho fica reduzido ao trabalho neurobiológico,
neurofisiológico do sono REM. Para os neurocientistas
com fundamentação psicanalítica,
há uma nítida separação
na gênese dos fenômenos do sonho e dos
fenômenos do sono, permitindo a apreensão
do significado das localizações e dinamismos
com as funções do sonho, dos conteúdos
e elementos constituintes como concebeu Freud.
Para o autor, os achados neurocientíficos do
sonho corroboram as hipóteses sobre os trabalhos
de sonho de Freud, como também permitem pensar
sobre os esquemas subjacentes que estavam presentes
não só no seu trabalho dos sonhos, mas
em todas as suas teorias psicanalíticas.
A psicanálise e as neurociências:
os sonhos*
Carlos Doin**, Rio de Janeiro
O interesse pelas relações
entre a mente e o corpo e pelos sonhos acompanha a
psicanálise desde Freud. Porém, as últimas
décadas, com suas crises e anseios de progresso,
vêm presenciando, em múltiplas fronteiras,
a mobilização redobrada dos psicanalistas,
empenhados nos diálogos interdisciplinares
acerca dessas e de muitas outras questões.
Notáveis avanços nas neurociências
estão abrindo perspectivas bastante promissoras
de intercâmbio com a psicanálise. Sobre
elas o presente trabalho pretende dar uma ligeira
visão panorâmica e aplicá-la à
problemática dos sonhos.
O paciente psicossomático*
David Zimerman**, Porto Alegre
Inicialmente o artigo faz uma
breve revisão do histórico, da conceituação,
da multideterminação e das recíprocas
inter-relações entre os processos mentais,
orgânicos e ambientais que cercam os fenômenos
das psicossomatizações.
A seguir, são destacadas algumas das mais importantes
contribuições de prestigiosos autores
de distintas correntes psicanalíticas, como
Freud, M. Klein, os americanos Alexander, Sifneos
e Nemiah, os franceses Lacan, alguns conceitos de
autores do Instituto de Psicossomática de Paris
e Joyce McDougall, além das proposições
originais de Bion.
O autor dá destaque ao importante problema
clínico da "dor", os fatores que
determinam o seu processamento e as suas múltiplas
manifestações psicossomáticas.
Por fim, o trabalho enfoca alguns aspectos relativos
ao manejo técnico que parecem indispensáveis
na prática analítica com o paciente
somatizador.
Psicanálise e Saúde Pública:
fertilizações*
Roosevelt M. Smeke Cassorla**, Campinas
A partir da apresentação
de duas situações-problema, relacionadas
a gravidez em adolescentes, o autor reflete sobre
aspectos concernentes à interação
entre psicanálise e saúde pública.
Discute-se a viabilidade de a psicanálise poder
ser aplicada ao coletivo, para além da relação
dual transferencial-contratransferencial. São
levantadas possibilidades de intervenção
em saúde pública, levando em conta o
conhecimento psicanalítico. Abordam-se, também,
os estudos qualitativos em sua interface com a psicanálise,
e as experiências com equipes de saúde,
baseadas nos trabalhos de Balint.
Psicanálise e política de saúde
pública*
Darcy Antônio Portolese**, São
Paulo
O autor desenvolve o tema proposto
procurando enfatizar a necessidade de uma orientação
na transmissão do conhecimento psicanalítico
para a comunidade, sem se descuidar do rigor na formação
do psicanalista.
Traz experiências próprias no campo do
trabalho comunitário, num município
de 600.000 habitantes, e as estratégias de
atendimento e prevenção com profissionais
que dispunham de supervisão psicanalítica.
Assinala a importância do papel do pensamento
psicanalítico em programas de educação,
prevenção e atendimento nos programas
de prevenção e saúde da criança
por meio de sua participação na elaboração,
supervisão e atendimento em postos de saúde
no cuidado a gestantes, puérperas e crianças.
Propõe também algumas contribuições
no trabalho com creches.
Ressalta ainda a importância do papel da pesquisa
em psicanálise após as contribuições
de Melanie Klein, W. R. Bion, D. W. Winnicott, Frances
Tustin, Herbert Rosenfeld, Hanna Segal, entre outros.
Finaliza destacando a importância do atual momento
histórico na criação de um Terceiro
Setor na Sociedade Brasileira de Psicanálise
de São Paulo, que visa cuidar da inserção
e desenvolvimento de diferentes vínculos de
trabalho com diversos setores da comunidade.
Narciso perscrutado: a importância do
corpo na cultura contemporânea e suas manifestações
clínicas*
Luiz Fernando Gallego**, Rio de Janeiro
O autor entende a cultura contemporânea
como a "Cultura do narcisismo", tal como
foi estudada por Christopher Lasch, cuja abordagem,
aqui articulada às teorias de Heinz Kohut sobre
o narcisismo, permite compreender várias características
do homem contemporâneo, incluindo o fenômeno
de culto ao corpo. Discute a pressão social
sobre os indivíduos quanto à busca do
ideal inatingível de um corpo conformado com
os modelos vigentes, a partir de um texto de Jurandir
Freire Costa sobre violência e narcisismo, e
traz a leitura que considera mais pertinente do mito
de Narciso. Neste contexto, percebe-se que o corpo
se transformou numa fonte virtual de prazer, se reproduzir
o modelo estético quase sempre inalcançável,
e numa fonte de tormento, se é vivido como
insatisfatório do ponto de vista da estética
em voga e da cobrança cultural de se perseguir
a saúde e evitar a doença (equacionada
com envelhecimento e morte). Sugere que estamos mais
próximos do que pensamos das culturas que chamamos
de "primitivas" no uso do corpo como tela
a ser exibida, exemplo que se articula com a estética
nazista da "cineasta de Hitler", Leni Riefenstahl.
Em seguida, apresenta resumos de situações
clínicas em que questões corporais tiveram
destaque ainda mais prevalente do que em outras análises:
casos apropriados pelas teorias psicossomáticas,
de sintomas conversivos, de desenvolvimentos hipocondríacos,
de possível negação de doenças
físicas, de nosofobia, bulimia, alextimia e
de auto-imagem desvalorizada. Propõe que situações
mais recentes na clínica psicanalítica
devem ser abordadas sempre na busca da singularidade
de cada pessoa, como sempre deve ser a escuta analítica
do discurso dos analisandos, procurando-se ir além
da classificação da estrutura patológica.
A identidade masculina e a identidade feminina:O
casal de hoje
Gley P. Costa**, Porto Alegre
A importância concedida
ao amor, à individualidade, à independência
emocional e econômica e, principalmente, ao
prazer sexual em um mundo globalizado, que se movimenta
em uma velocidade jamais imaginada, expôs o
relacionamento do casal, nos últimos anos,
a uma gama bem maior de exigências.
Tendo presente esta realidade, neste trabalho o autor
procura realizar uma abordagem psicanalítica
do tema do casamento na atualidade e suas implicações
na estruturação das identidades masculina
e feminina.
Com esse objetivo, estuda as relações
da identidade com o sexo, com o relacionamento conjugal,
com o poder econômico, com a função
paterna, com a pós-modernidade e com as mudanças
de papéis decorrentes das novas configurações
familiares.
A identidade masculina e a identidade feminina:
o casal hoje dos Raios X ao casal X*
Liana Albernaz de Melo Bastos**, Rio
de Janeiro
Tendo como cenário o Carnaval
do Rio, a autora, a partir de um programa de televisão,
propõe que a constituição da
identidade na articulação com a imagem
expõe sua dimensão social-histórica.
Desse modo, a compreensão das subjetividades
contemporâneas implica considerar-se o capitalismo
atual e suas relações de consumo, incluindo
aí o biotecnológico. Traz a identidade
brasileira sustentada na imagem paradigmática
do Carnaval para tratar do uso de próteses
mamárias de silicone como revelador das mudanças
nos sujeitos e nas suas relações. O
casal de hoje perdeu os referenciais seguros - embora
incômodos e tediosos - do passado mostrando-se
plural em suas novas organizações. Nestas,
as configurações narcísicas dos
sujeitos e suas falhas vêm mais facilmente à
tona. Para exemplificar, a autora denuncia a propaganda
enganosa do casal televisivo X que, numa per-versão
do mito de Pigmalião, anuncia que o amor está
à venda e que a felicidade pode ser comprada
apelando aos desejos narcísicos de beleza,
perfeição e eternidade presentes em
todos nós.
Maternidades: novas configurações?*
Áurea Maria Lowenkron**, Rio
de Janeiro
A autora enfatiza a relação
que existe entre transformações socioeconômicas,
revolução tecnológica, mudanças
de valores e de sistemas simbólicos, incluindo
as relações de parentesco e de filiação.
Entre estas, focaliza particularmente dois tipos de
situação de monoparentalidade materna.
A primeira, refere-se principalmente a diferenças
culturais e, a segunda, diz respeito a dilemas relacionados
à aplicação de novas tecnologias
de reprodução humana. São discutidos
alguns questionamentos a aspectos importantes da teoria
psicanalítica trazidos por essas mudanças.
O renascimento de Édipo ou A importância
da função paterna na configuração
das famílias atuais*
Maria Cecília Andreucci Pereira
Gomes**, São Paulo
A velocidade com que avançam
a tecnologia e a ciência, a bioquímica,
a genética moderna, as técnicas de reprodução
e clonagem, a informática e a globalização,
gera no homem uma vertiginosa aceleração
de sua onipotência e onisciência e desaceleração
em relação às realidades universais
e eternas: seu nascimento, sua vida, sua percepção
das diferenças e seu percurso para a morte.
O anseio mítico pela androginia gera "monstros",
objetos internos combinados (Klein) ou bizarros (Bion),
atuando no psiquismo dos componentes do núcleo
familiar, obstruindo a triangulação,
espaço propício para a simbolização.
Figuras que se aglutinam, provocando confusões
na constituição da identidade de cada
um dos componentes do núcleo familiar, seja
na identidade sexual, seja nas diferenças geracionais,
são problemas para os quais a psicanálise
deveria voltar sua atenção, e que tento
explicitar na epígrafe deste trabalho, com
o objetivo de pensarmos sobre o uso que poderemos
fazer da tecnologia e da ciência neste início
de século.
Destaco, portanto, na elaboração deste
trabalho, a importância da configuração
do mito edípico no psiquismo humano e a constituição
do espaço triangular (Britton), como pedra
fundamental no processo de desenvolvimento. Na constituição
desse espaço a figura do pai, ou o masculino
opera como ponto de equilíbrio e equidistância
entre a criança e a mãe ou o feminino,
obstruindo a fusão e a confusão entre
ambos, dando nascimento à percepção
das diferenças e à simbolização.
Enfoco, por esses motivos, o trabalho sob três
vértices: a) o vértice mítico,
enfatizando duas figuras míticas ancestrais:
a Esfinge tebana, enigmática e devoradora,
e a Esfinge egípcia, guardiã do túmulo
dos reis; b) o vértice da teoria psicanalítica;
c) o vértice da clínica psicanalítica,
focalizando a história de Dario, o menino que
apresentava sintoma de mudez escolar e que, por meio
de sua análise e de sua produção
gráfica, conta-nos todo o seu drama na tentativa
da configuração de seu espaço
triangular e da sua situação edipiana
em sua família.
Possibilidades de pesquisa em psicanálise*
Vera Regina J. R. M. Fonseca**, São
Paulo
Vera Sílvia Raad Bussab***, São Paulo
Partindo do pressuposto de que
a psicanálise deve buscar os métodos
de investigação mais adequados a seu
campo, o artigo apresenta resumidamente as características
da pesquisa qualitativa, sugerindo que se estude mais
os recursos de tais métodos de modo a podermos
utilizá-los em nossas pesquisas. Em seguida
é discutido o material clínico de uma
criança com Transtorno Global do Desenvolvimento,
abordado tanto pela psicanálise quanto pela
etologia, como exemplo de uma das várias formas
possíveis de se fazer um estudo qualitativo
em psicanálise.
Pesquisando a pesquisa em psicanálise*
Theodor S. Lowenkron**, Rio de Janeiro
Considero que o método
de investigação ocupa a posição
primordial em relação aos três
sentidos propostos por Freud para psicanálise
- método de investigação, forma
de tratamento e teoria -, bem como admito considerar
a psicanálise uma ciência empírica,
remetendo a representação da empiria,
particularmente, ao campo da transferência.
Segundo Cooper, entretanto, a pesquisa empírica
consiste no estudo sistemático de qualquer
fenômeno realizado por meio de uma metodologia
que permita alguma forma de análise estatística
e que forneça elementos que possibilitem a
outros tentar replicar a experiência. Wallerstein
e Green ilustram exemplarmente a polêmica que
essa concepção de pesquisa empírica
suscita em psicanálise. Herrmann considera
que pesquisa dita empírica em psicanálise
é tentativa de imitação do modelo
positivista de erradicação de desvios
interpretativos do pesquisador, o que preside esse
tipo de pesquisa é a verificação
objetiva e o fascínio por experimentos quantitativos,
que não passa de uma certa nostalgia da ciência
natural, do desejo de substituir o método psicanalítico
pelo método de verificação quantitativa.
Já Renato Mezan delineia duas direções
para a pesquisa em psicanálise: a vertente
incluída nos programas universitários,
cujo objeto de pesquisa é constituído,
principalmente, por textos, e a vertente do modo de
produção dos conhecimentos psicanalíticos
de Freud, Kohut e Green. A coesão interna,
a comunicabilidade, a verificabilidade e a cumulatividade
aparentam a psicanálise às formulações
científicas e os aspectos da prática
terapêutica a aparentam às artes e à
ourivesaria. A contribuição de Birman
ao debate valoriza, por um lado, o espaço psicanalítico
não por sua exterioridade, mas pela dimensão
básica do processo psicanalítico e,
por outro, a interdisciplinaridade para o avanço
do saber psicanalítico, afirmando que é
a experiência psicanalítica que tanto
define a direção da pesquisa em psicanálise
como admite diversas possibilidades de clínica.
Com minha experiência em pesquisa, e a reflexão
teórica apresentada, insiro-me neste debate
posicionando-me com Freud: se a experiência
estiver alicerçada nos conceitos fundamentais
da psicanálise - o inconsciente, a resistência
e a transferência, qualquer linha de investigação
tem o direito de chamar-se psicanalítica. Enfim,
trata-se primordialmente de qualidade e não
de quantidade.
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