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Sumário
 
Editorial a convite
Wilson Amendoeira - 437
 
Painéis do XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise
A dificuldade de transmissão e prática do método psicanalítico nas condições atuais da clínica
Mauro Gus - 441
Contestações à psicanálise na atualidade
Suad Haddad de Andrade - 453
O término do processo psicanalítico: rimas e rumos
Marcio de Freitas Giovannetti - 463
Recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis conseqüências para a eficácia da prática clínica
Paulo Duarte Guimarães Filho - 471
As recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis contribuições para a eficácia da prática clínica
Sebastião Abrão Salim - 483
Processos possíveis de avaliação da psicanálise
Cláudio Laks Eizirik - 495
Para além da transferência e da contratransferência
Paulo Marchon - 503
Além da transferência e da contratransferência: o encontro
Plinio Montagna - 531
As recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis contribuições para a eficácia na prática clínica
Altamirando Matos de Andrade Júnior - 543
Processos de avaliação da psicanálise e outras psicoterapias
Bernard Miodownik - 551
A especificidade da relação analítica diante de outras psicoterapias
Ryad Simon - 577
A aplicação clínica dos conceitos de neutralidade e abstinência: ontem e hoje
José Luiz F. Petrucci - 591
Principais contestações à psicanálise na atualidade
José Otavio Fagundes - 599
Principais contestações à psicanálise na atualidade. O método psicanalítico dialogando com a semiótica de Peirce
José Antonio Pavan - 617
A psicanálise e as novas formas de experiência humana determinadas pela globalização
Claudio Rossi - 647
Sonhos: uma visão neuro-psicanalítica
Yusaku Soussumi - 665
A psicanálise e as neurociências: os sonhos
Carlos Doin - 687
O paciente psicossomático
David Zimerman - 717
Psicanálise e saúde pública: fertilizações
Roosevelt M. Smeke Cassorla - 729
Psicanálise e política de saúde pública
Darcy Antônio Portolese - 751
Narciso perscrutado: a importância do corpo na cultura contemporânea e suas manifestações clínicas
Luiz Fernando Gallego - 761
A identidade masculina e a identidade feminina: o casal de hoje
Gley P. Costa - 781
A identidade masculina e a identidade feminina: o casal hoje dos Raios X ao casal X
Liana Albernaz de Melo Bastos - 805
Maternidades: novas configurações?
Áurea Maria Lowenkron - 823
O renascimento de Édipo ou A importância da função paterna na configuração das famílias atuais
Maria Cecília Andreucci Pereira Gomes - 843
Possibilidades de pesquisa em psicanálise
Vera Regina J. R. M. Fonseca e Vera Sílvia Raad Bussab - 873
Pesquisando a pesquisa em psicanálise
Theodor S. Lowenkron - 895
 
Editorial a convite
Estamos nos despedindo de um século que partejou a psicanálise e assistiu sua vigorosa expansão no pensamento e na cultura ocidentais.
Freud falou do "esplêndido isolamento", sentimento que o habitou nos primórdios da psicanálise, mas este pouco durou. Logo se chegou às reuniões das quartas-feiras, em Viena, e à fundação da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), em 1910, hoje contando com dez mil membros espalhados por 33 países. A Associação Brasileira de Psicanálise, que reúne os psicanalistas brasileiros filiados à IPA, conta com cerca de mil membros, que cobrem quinze Estados da federação. Contamos com cerca de 750 psicanalistas em formação em nossos Institutos. No mundo estimam-se outros vinte mil profissionais com outras filiações, mas com uma prática clínica baseada nas suas concepções.
Estamos diante de um corpo de idéias poderoso, que iniciou seu percurso vencendo o repúdio da sociedade vitoriana às novas idéias sobre a sexualidade. E como, aqui, mais do que nunca, a obra se confunde com o criador, vemos um Freud obstinado, enfrentando o conservadorismo da sociedade de sua época, mergulhando numa cruzada onde vence todos os obstáculos, enfrenta adversários, defende leoninamente suas idéias e, como um verdadeiro conquistador, acaba por triunfar em sua saga, acreditando que a psicanálise traria uma contribuição importante para a compreensão do homem e da humanidade.
Esperança fundada, pois, de fato, a psicanálise contaminou todo o imaginário de nossa época, indo além das suas melhores expectativas.
Como estas idéias se expandiram e fizeram da psicanálise uma das maiores influências na cultura ocidental?
Justamente pelo fato de Freud e seus seguidores ampliarem continuamente seu raio de interesses, incluindo cogitações sobre a vida, a religião, a moral e a política, fazendo com que a psicanálise fosse ampliando seu campo de influência e tomando a si a tarefa de abrir caminhos na compreensão de tudo que era humano, marcando profundamente nossa visão do homem, das relações interpessoais, da educação das crianças, dos conflitos emocionais, da loucura e da sexualidade.
Esta expansão, ao longo do século, sempre esteve acompanhada de críticas, crises e vaticínios os mais variados. Seu ocaso e sua morte foram decretados em várias ocasiões, mas o que vemos, hoje, é a psicanálise como uma robusta criatura, porta-voz do que constitui o âmago do que nos faz humanos - o mundo dos nossos desejos inconscientes.
É verdade que as transformações da cultura contemporânea apontam para uma oposição às tendências que privilegiavam o desenvolvimento e o amadurecimento do indivíduo, o estímulo à singularidade com o realce da subjetividade, privilegiando a eficiência, a eficácia e o desempenho; uma cultura onde os desejos humanos são equacionados a necessidades que, como tais, poderiam ser atendidas e saciadas gerando uma ilusão de satisfação e completude.
Estas mudanças são conseqüência de um processo no qual o incremento do fluxo de informações e sua posse, a velocidade das mudanças socioculturais, a onipresença de um ponto de vista da publicidade, seduzindo e estimulando a gratificação plena e imediata, a adoção de novos valores morais na sociedade, as mudanças no papel da família, têm submetido homens, mulheres, adolescentes e até as crianças a situações de pressões que, medidas pela régua do que pode ser absorvido e transformado para ser utilizado como experiência, são vividas como insuportáveis.
Há a constatação de que este contexto é altamente influenciado pelos meios de comunicação de massa e pelas possibilidades advindas do desenvolvimento da ciência e da técnica, com o incremento do uso da imagem pictórica, que interfere na essência da capacidade de pensar. A presença destes meios na vida de crianças e de adolescentes influi no desenvolvimento e no amadurecimento da personalidade. Em determinadas situações, eles terão que lidar com a revivescência de angústias de aniquilamento, de separação e com a sexualização precoce, provocando mudanças no "eu" decorrentes da alteração do tempo, das elaborações possíveis, das emoções e dos conflitos.
São novos desafios e devemos responder a eles expondo-nos à turbulência, sem nos apegarmos a explicações prematuras e que impeçam a apreensão do que é novo e singular.
Uma boa oportunidade para se refletir sobre estas questões é oferecida naqueles momentos em que podemos reunir o que há de melhor em nosso grupo e, enriquecidos pela presença e participação de estudantes e profissionais interessados no campo, congregar esforços para pensarmos as questões do nosso ofício e do nosso corpo de conhecimentos.
Um destes momentos se dá com o nosso XVIII Congresso Brasileiro de Psicanálise, agora em setembro, em São Paulo. O encontro tem como tema: "O futuro da psicanálise: das construções teóricas às evidências terapêuticas".
Neste número da nossa Revista Brasileira de Psicanálise estão algumas das contribuições que enriquecerão nossos Painéis. O contato prévio com os textos amplia a participação de cada um de nós e cria condições para discussões profícuas e conseqüentes. Devemos manter em foco que o surgimento da psicanálise trouxe uma melhor compreensão, não só das psicopatologias que afetam parte da população, mas também de todo o desenvolvimento emocional do homem, como ser pensante e parte de um grupo social; onde pode influenciar e ser influenciado. Ela se configura como um instrumento de compreensão das relações do homem com o homem, em seu contexto sociocultural, e do homem com o mundo - em constante mutação - que o cerca.
Até setembro!
Wilson Amendoeira
 
A dificuldade de transmissão e prática do método psicanalítico nas condições atuais da clínica*
Mauro Gus**, Porto Alegre
O autor enfoca as dificuldades que, de acordo com seu ponto de vista, podem prejudicar a transmissão e prática do método psicanalítico nos institutos de psicanálise, descrevendo algumas características internas das instituições, dos tempos e dos pacientes atuais. Ressalta a necessidade de re-contextualizar e re-definir o ensino da psicanálise, face às dificuldades do momento, adaptando-o a novas teorizações, enriquecendo e ampliando a metapsicologia freudiana com o acervo de outras ciências. Evoca autores e passagens da história do movimento psicanalítico, trazendo um ensaio de propostas para serem debatidas.
 
Contestações à psicanálise na atualidade*
Suad Haddad de Andrade**, Ribeirão Preto
As transformações sociais que sobrecarregam o cotidiano com um sentido de premência e de homogeneização confrontam com nossa prática clínica e com nossos fundamentos teóricos. Mas este não é o maior obstáculo à psicanálise: o trato com a intimidade sempre foi tarefa difícil.
Mais importante do que estarmos sendo contestados, é o fato de sermos propiciadores e participantes ativos de uma revolução social necessária, criadora de homens mais livres, criativos e responsáveis pelo seu destino.
Nossa inserção dentro das mais diferentes atividades sociais está se fazendo cada vez mais necessária e possível. O importante é não perdermos nossa especificidade científica.
 
O término do processo psicanalítico: rimas e rumos*
Marcio de Freitas Giovannetti**, São Paulo
Para abordar a temática de término de análise, o autor lança mão das idéias drummondianas da vastidão do mundo, da importância das rimas e da inexistência de soluções. Contrapõe a vastidão do mundo ao espaço da análise possível entre um par analista-analisando, limitado que este último é tanto pela brevidade da vida humana quanto pela impossibilidade de um ego, qualquer que seja ele, abarcar a vastidão do id.
Segue com a idéia de que a cura, em análise, não se aproxima de forma alguma à idéia de solução, mas sim à da possibilidade de transformar "rimas pobres" - arranjos mentais estereotipados - em "rimas ricas"- maior capacidade egóica de caminhar pela vastidão do mundo. Questiona o aprisionamento do analista dentro de sua própria ideologia de pensamento, ressaltando que a palavra final deve ser sempre a do paciente. Duas pequenas vinhetas clínicas são utilizadas para ilustrar as idéias acima.
 
Recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis conseqüências para a eficácia da prática clínica*
Paulo Duarte Guimarães Filho**, São Paulo
Inicialmente é feita uma apreciação das diferenças entre critérios usados para avaliar a validade do conhecimento científico tradicional e do psicanalítico. Em seguida é examinada a ocorrência recente de confluências teóricas entre algumas das mais significativas correntes psicanalíticas e de como essas confluências parecem decorrer da escolha de hipóteses que vão se mostrando mais eficazes na prática clínica.
O valor epistemológico desse fato é considerado e sugere-se que essa escolha de concepções, a partir de um processo crítico intergrupal, pode ser uma das formas de se alcançar uma maior consistência do conhecimento psicanalítico.
São também considerados alguns benefícios a que o aprofundamento da investigação desse processo de confluências pode levar, particularmente em três áreas: a da troca de experiências entre os grupos analíticos, no plano da formação analítica e na discussão sobre que tipos de pesquisa são apropriadas para a psicanálise.
 
As recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis contribuições para a eficácia da prática clínica*
Sebastião Abrão Salim**, Belo Horizonte
O autor utiliza material clínico seu, para ilustrar o desenvolvimento de recentes teorias psicanalíticas.
O trabalho está baseado em quatro eixos teóricos, que se articulam dialeticamente: o desenvolvimento emocional primitivo, a transferência-contratransferência e a intersubjetividade, a neuropsicanálise e a aplicação clínica.
 
Processos possíveis de avaliação da psicanálise*
Cláudio Laks Eizirik**, Porto Alegre
O autor discute as razões atuais que tornam necessária a avaliação de resultados em psicanálise. Descreve dois tipos de avaliação e sugere que a avaliação interna é a que permite uma abordagem especificamente psicanalítica das mudanças psíquicas. Discute algumas dificuldades para realizar tal avaliação e sugere alguns possíveis critérios para uma avaliação interna da psicanálise.
 
Para além da transferência e da contratransferência*
Paulo Marchon**, Fortaleza
O autor realiza um estudo crítico de alguns trabalhos da corrente intersubjetivista, notadamente de T. Jacobs, T. Ogden, O. Renik e R. Stolorow. Retoma alguns trabalhos de C. Hanly, M. Cavell e M. Wasserman. Tece alguns questionamentos a respeito do "terceiro sujeito" de Ogden e faz ligeiro apanhado da produção brasileira a respeito da intersubjetividade.
 
Além da transferência e da contratransferência: o encontro*
Plinio Montagna**, São Paulo
O autor desenvolve a idéia do Encontro entre duas pessoas como elemento fundamental do desenvolvimento positivo de um processo psicanalítico, elemento esse que vai além das polaridades unicamente transferenciais e contratransferenciais.
 
As recentes confluências teóricas na psicanálise e suas possíveis contribuições para a eficácia na prática clínica*
Altamirando Matos de Andrade Júnior**, Rio de Janeiro
O autor pretende, neste trabalho, discutir o fato de que é possível confluir teoricamente em psicanálise desde que haja diálogo entre os psicanalistas. Afirma também que deve haver pontos mínimos em comuns entre colegas representantes de diferentes escolas teóricas para que seja possível o diálogo. Discute também a questão de que o surgimento de novas teorias em psicanálise permite a evolução da mesma, pois muito se debate entre o novo que surge e o já existente. Dá o exemplo de grandes produções teóricas de Freud a partir de contestações a teorias desenvolvidas por alguns dissidentes, como Jung, Adler e mesmo Ferenczi que, embora não tenha sido de fato um dissidente, manteve com Freud discussões sobre divergências técnicas.
Afirma ainda que o debate entre escolas diferentes incrementa o estudo da teoria e da técnica, trazendo, conseqüentemente, benefícios para a eficácia clínica.
 
Processos de avaliação da psicanálise e outras psicoterapias*
Bernard Miodownik**, Rio de Janeiro
O autor discute a dificuldade em se elaborar processos de avaliação da psicanálise comparativamente a outras terapias mais adequadas ao modelo médico-psiquiátrico vigente. A partir das idéias contidas no livro A loucura e as épocas, de Isaías Pessotti, mostra que na sua história a humanidade tentou compreender o fenômeno da perda da razão de diversas formas, e organizou a sua subjetividade em torno dessas explicações. No seu surgimento, a psicanálise buscava a compreensão dos quadros clínicos mentais dentro de uma subjetividade herdeira do Iluminismo, e coerente com a psiquiatria da época. O organicismo da psiquiatria carecia de comprovações neuro-fisiológicas, e a complexidade da psicanálise atendeu às demandas subjetivas mais complexas do século XX. Na década de 70, houve a mudança da subjetividade vigente para a necessidade de mostrar resultados e eficácia. O desenvolvimento das neurociências e da psicofarmacologia, aliadas às frustrações da experiência analítica, obrigaram a psicanálise a uma grande revisão da sua metodologia, e a uma preocupação em elaborar processos de avaliação.
Discute as dificuldades específicas dos processos de avaliação em psicanálise, principalmente a intensa participação de aspectos subjetivos e a existência de diversas escolas teórico-clínicas que interpretam os conceitos de forma diversa. A partir de duas situações clínicas, sugere um referencial avaliador por meio da percepção dos afetos envolvidos no desenvolvimento da relação.
A seguir, discute os processos de avaliação de resultados da psicanálise comparada à psicoterapia analítica. Apresenta duas situações clínicas para demonstrar quais seriam as diferenças quantitativas e qualitativas entre as terapias.
 
A especificidade da relação analítica diante de outras psicoterapias (e da psicanálise diante da psicoterapia psicanalítica)*
Ryad Simon**, São Paulo
De início são procuradas as especificidades das psicoterapias suportivas (uso da transferência positiva como veículo da sugestão, sem preocupação com insight sobre motivações inconscientes) e psicoterapias reeducativas (insight ao nível consciente e pré-consciente, procurando conexões entre soluções inadequadas e equívocos que as sustentam). A seguir são revistas as especificidades da psicanálise propostas por vários autores, começando por Freud e indo até Bion. O autor apresenta sua contribuição sobre a especificidade da relação analítica, considerando como peculiar a percepção da oscilação entre a contratransferência interferindo sobre o estado de atenção livremente flutuante do analista, para cujo restabelecimento este recorre à auto-análise. A seguir, considera as relações que caracterizam a psicanálise em comparação com a psicoterapia psicanalítica.
O autor utiliza sua Escala diagnóstica adaptativa operacionalizada (EDAO), para sugerir duas modalidades de psicoterapia psicanalítica: para quadros graves e quadros medianos.
 
A aplicação clínica dos conceitos de neutralidade e abstinência:ontem e hoje*
José Luiz F. Petrucci**, Porto Alegre
Partindo da idéia de que a evolução dos conceitos de neutralidade e abstinência foram conseqüência das aquisições na instrumentação psicanalítica, e não de fatores extra-analíticos (mudanças sociológicas ou filosóficas, por exemplo) o autor, com o intuito de abrir a discussão, faz um relato dos principais avanços teóricos e técnicos que acabaram por impor esta evolução.
 
Principais contestações à psicanálise na atualidade*
José Otavio Fagundes**, São Paulo
O autor tece considerações sobre as principais contestações a que a psicanálise está sujeita na atualidade.
A primeira vem da cultura atual que, marcada pela tecnologia, consumo e gratificação imediata, tende a uma superficialização emocional e da consciência, ocasionando resistência para o contato com a subjetividade.
A segunda vem das novas terapias e esoterismo que prometem curas mais rápidas e eficazes do que a psicanálise.
A terceira vem da neurociência que, através dos psicofármacos, supõe o fracasso da psicanálise em lidar com as perturbações psíquicas.
O autor reflete sobre essas contestações, utilizando-se também de observações de outros autores. Enfatiza a necessidade de os psicanalistas não ficarem alheios a isso, mas estabelecerem um exame aprofundado e diálogo com as disciplinas contestadoras para que haja um maior desenvolvimento da psicanálise.
 
O método psicanalítico dialogando com a semiótica de Peirce*
José Antonio Pavan**, Marília
Neste trabalho foi considerada a criação e o desenvolvimento do método psicanalítico por Sigmund Freud, com as posteriores contribuições de seus seguidores filiados às idéias de Melanie Klein, especialmente Wilfred Bion.
Procedeu-se, então, ao estudo semiótico da prática psicanalítica, com atenção ao método empregado na mesma, particularmente em seus aspectos de observação e investigação. Para alcançar este objetivo, preliminarmente foram expostas as concepções de Charles Sanders Peirce sobre Ciências e Semiótica.
Para melhor representar o objeto de estudo, foi construído um diagrama tomando ao acaso uma sessão de análise, procedendo-se à observação da semiose que ocorreu no processo.
Estima-se que a aplicação desse procedimento a um universo mais diversificado, e maior número de casos, poderá tornar mais operativo, e confiável a aproximação entre a Semiótica e a Psicanálise para, por meio da interdisciplinaridade, promover-se com o diálogo um mútuo enriquecimento.
 
A psicanálise e as novas formas de experiência humana determinadas pela globalização*
Claudio Rossi**, São Paulo
Encarada com pessimismo ou otimismo, sendo vista como a decadência da humanidade ou, pelo contrário, como uma manifestação do progresso, a globalização é considerada pela maioria dos autores como um fenômeno de enorme importância que tem aspectos extremamente problemáticos. Suas repercussões sobre a estrutura psicológica das pessoas é bastante grande e suas conseqüências são sentidas na clínica psicanalítica. A própria psicanálise, suas instituições e suas organizações são influenciadas pela ideologia que está associada a esse fenômeno mundial. Apesar de não acreditar que possa haver uma cultura na qual não hajam conflitos e sofrimentos, a psicanálise tem uma ética e uma concepção do humano que a impedem de ser neutra em relação aos movimentos sociais. Após apresentar uma série de dados econômicos e sociológicos a respeito da globalização, o autor discute as repercussões sobre a subjetividade contemporânea decorrentes do capitalismo internacionalizado que se apóia nas novas tecnologias. Para poderem lidar com a clínica do dia-a-dia sem se afastarem de sua ética e de seus principais objetivos, os psicanalistas precisam ter consciência desses fenômenos socioculturais nos quais estamos imersos e que fazem parte das matrizes que engendram a realidade psíquica de todos nós.
 
Sonhos: uma visão neuro-psicanalítica*
Yusaku Soussumi**, São Paulo
A investigação do fenômeno do sonho pela neurociência tem trazido uma compreensão quanto à sua localização e dinâmica cerebral. Os dados resultantes destas investigações, no entanto, não podem ser trabalhados por todos os neurocientistas dentro de um referencial comum quanto à natureza dos fenômenos psíquicos. Para a grande maioria dos neurocientistas não afeitos com os fenômenos psíquicos inconscientes, o trabalho do sonho fica reduzido ao trabalho neurobiológico, neurofisiológico do sono REM. Para os neurocientistas com fundamentação psicanalítica, há uma nítida separação na gênese dos fenômenos do sonho e dos fenômenos do sono, permitindo a apreensão do significado das localizações e dinamismos com as funções do sonho, dos conteúdos e elementos constituintes como concebeu Freud.
Para o autor, os achados neurocientíficos do sonho corroboram as hipóteses sobre os trabalhos de sonho de Freud, como também permitem pensar sobre os esquemas subjacentes que estavam presentes não só no seu trabalho dos sonhos, mas em todas as suas teorias psicanalíticas.
 
A psicanálise e as neurociências: os sonhos*
Carlos Doin**, Rio de Janeiro
O interesse pelas relações entre a mente e o corpo e pelos sonhos acompanha a psicanálise desde Freud. Porém, as últimas décadas, com suas crises e anseios de progresso, vêm presenciando, em múltiplas fronteiras, a mobilização redobrada dos psicanalistas, empenhados nos diálogos interdisciplinares acerca dessas e de muitas outras questões. Notáveis avanços nas neurociências estão abrindo perspectivas bastante promissoras de intercâmbio com a psicanálise. Sobre elas o presente trabalho pretende dar uma ligeira visão panorâmica e aplicá-la à problemática dos sonhos.
 
O paciente psicossomático*
David Zimerman**, Porto Alegre
Inicialmente o artigo faz uma breve revisão do histórico, da conceituação, da multideterminação e das recíprocas inter-relações entre os processos mentais, orgânicos e ambientais que cercam os fenômenos das psicossomatizações.
A seguir, são destacadas algumas das mais importantes contribuições de prestigiosos autores de distintas correntes psicanalíticas, como Freud, M. Klein, os americanos Alexander, Sifneos e Nemiah, os franceses Lacan, alguns conceitos de autores do Instituto de Psicossomática de Paris e Joyce McDougall, além das proposições originais de Bion.
O autor dá destaque ao importante problema clínico da "dor", os fatores que determinam o seu processamento e as suas múltiplas manifestações psicossomáticas.
Por fim, o trabalho enfoca alguns aspectos relativos ao manejo técnico que parecem indispensáveis na prática analítica com o paciente somatizador.
 
Psicanálise e Saúde Pública: fertilizações*
Roosevelt M. Smeke Cassorla**, Campinas
A partir da apresentação de duas situações-problema, relacionadas a gravidez em adolescentes, o autor reflete sobre aspectos concernentes à interação entre psicanálise e saúde pública. Discute-se a viabilidade de a psicanálise poder ser aplicada ao coletivo, para além da relação dual transferencial-contratransferencial. São levantadas possibilidades de intervenção em saúde pública, levando em conta o conhecimento psicanalítico. Abordam-se, também, os estudos qualitativos em sua interface com a psicanálise, e as experiências com equipes de saúde, baseadas nos trabalhos de Balint.
 
Psicanálise e política de saúde pública*
Darcy Antônio Portolese**, São Paulo
O autor desenvolve o tema proposto procurando enfatizar a necessidade de uma orientação na transmissão do conhecimento psicanalítico para a comunidade, sem se descuidar do rigor na formação do psicanalista.
Traz experiências próprias no campo do trabalho comunitário, num município de 600.000 habitantes, e as estratégias de atendimento e prevenção com profissionais que dispunham de supervisão psicanalítica.
Assinala a importância do papel do pensamento psicanalítico em programas de educação, prevenção e atendimento nos programas de prevenção e saúde da criança por meio de sua participação na elaboração, supervisão e atendimento em postos de saúde no cuidado a gestantes, puérperas e crianças.
Propõe também algumas contribuições no trabalho com creches.
Ressalta ainda a importância do papel da pesquisa em psicanálise após as contribuições de Melanie Klein, W. R. Bion, D. W. Winnicott, Frances Tustin, Herbert Rosenfeld, Hanna Segal, entre outros.
Finaliza destacando a importância do atual momento histórico na criação de um Terceiro Setor na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, que visa cuidar da inserção e desenvolvimento de diferentes vínculos de trabalho com diversos setores da comunidade.
 
Narciso perscrutado: a importância do corpo na cultura contemporânea e suas manifestações clínicas*
Luiz Fernando Gallego**, Rio de Janeiro
O autor entende a cultura contemporânea como a "Cultura do narcisismo", tal como foi estudada por Christopher Lasch, cuja abordagem, aqui articulada às teorias de Heinz Kohut sobre o narcisismo, permite compreender várias características do homem contemporâneo, incluindo o fenômeno de culto ao corpo. Discute a pressão social sobre os indivíduos quanto à busca do ideal inatingível de um corpo conformado com os modelos vigentes, a partir de um texto de Jurandir Freire Costa sobre violência e narcisismo, e traz a leitura que considera mais pertinente do mito de Narciso. Neste contexto, percebe-se que o corpo se transformou numa fonte virtual de prazer, se reproduzir o modelo estético quase sempre inalcançável, e numa fonte de tormento, se é vivido como insatisfatório do ponto de vista da estética em voga e da cobrança cultural de se perseguir a saúde e evitar a doença (equacionada com envelhecimento e morte). Sugere que estamos mais próximos do que pensamos das culturas que chamamos de "primitivas" no uso do corpo como tela a ser exibida, exemplo que se articula com a estética nazista da "cineasta de Hitler", Leni Riefenstahl.
Em seguida, apresenta resumos de situações clínicas em que questões corporais tiveram destaque ainda mais prevalente do que em outras análises: casos apropriados pelas teorias psicossomáticas, de sintomas conversivos, de desenvolvimentos hipocondríacos, de possível negação de doenças físicas, de nosofobia, bulimia, alextimia e de auto-imagem desvalorizada. Propõe que situações mais recentes na clínica psicanalítica devem ser abordadas sempre na busca da singularidade de cada pessoa, como sempre deve ser a escuta analítica do discurso dos analisandos, procurando-se ir além da classificação da estrutura patológica.
 
A identidade masculina e a identidade feminina:O casal de hoje
Gley P. Costa**, Porto Alegre
A importância concedida ao amor, à individualidade, à independência emocional e econômica e, principalmente, ao prazer sexual em um mundo globalizado, que se movimenta em uma velocidade jamais imaginada, expôs o relacionamento do casal, nos últimos anos, a uma gama bem maior de exigências.
Tendo presente esta realidade, neste trabalho o autor procura realizar uma abordagem psicanalítica do tema do casamento na atualidade e suas implicações na estruturação das identidades masculina e feminina.
Com esse objetivo, estuda as relações da identidade com o sexo, com o relacionamento conjugal, com o poder econômico, com a função paterna, com a pós-modernidade e com as mudanças de papéis decorrentes das novas configurações familiares.
 
A identidade masculina e a identidade feminina: o casal hoje dos Raios X ao casal X*
Liana Albernaz de Melo Bastos**, Rio de Janeiro
Tendo como cenário o Carnaval do Rio, a autora, a partir de um programa de televisão, propõe que a constituição da identidade na articulação com a imagem expõe sua dimensão social-histórica. Desse modo, a compreensão das subjetividades contemporâneas implica considerar-se o capitalismo atual e suas relações de consumo, incluindo aí o biotecnológico. Traz a identidade brasileira sustentada na imagem paradigmática do Carnaval para tratar do uso de próteses mamárias de silicone como revelador das mudanças nos sujeitos e nas suas relações. O casal de hoje perdeu os referenciais seguros - embora incômodos e tediosos - do passado mostrando-se plural em suas novas organizações. Nestas, as configurações narcísicas dos sujeitos e suas falhas vêm mais facilmente à tona. Para exemplificar, a autora denuncia a propaganda enganosa do casal televisivo X que, numa per-versão do mito de Pigmalião, anuncia que o amor está à venda e que a felicidade pode ser comprada apelando aos desejos narcísicos de beleza, perfeição e eternidade presentes em todos nós.
 
Maternidades: novas configurações?*
Áurea Maria Lowenkron**, Rio de Janeiro
A autora enfatiza a relação que existe entre transformações socioeconômicas, revolução tecnológica, mudanças de valores e de sistemas simbólicos, incluindo as relações de parentesco e de filiação. Entre estas, focaliza particularmente dois tipos de situação de monoparentalidade materna. A primeira, refere-se principalmente a diferenças culturais e, a segunda, diz respeito a dilemas relacionados à aplicação de novas tecnologias de reprodução humana. São discutidos alguns questionamentos a aspectos importantes da teoria psicanalítica trazidos por essas mudanças.
 
O renascimento de Édipo ou A importância da função paterna na configuração das famílias atuais*
Maria Cecília Andreucci Pereira Gomes**, São Paulo
A velocidade com que avançam a tecnologia e a ciência, a bioquímica, a genética moderna, as técnicas de reprodução e clonagem, a informática e a globalização, gera no homem uma vertiginosa aceleração de sua onipotência e onisciência e desaceleração em relação às realidades universais e eternas: seu nascimento, sua vida, sua percepção das diferenças e seu percurso para a morte.
O anseio mítico pela androginia gera "monstros", objetos internos combinados (Klein) ou bizarros (Bion), atuando no psiquismo dos componentes do núcleo familiar, obstruindo a triangulação, espaço propício para a simbolização. Figuras que se aglutinam, provocando confusões na constituição da identidade de cada um dos componentes do núcleo familiar, seja na identidade sexual, seja nas diferenças geracionais, são problemas para os quais a psicanálise deveria voltar sua atenção, e que tento explicitar na epígrafe deste trabalho, com o objetivo de pensarmos sobre o uso que poderemos fazer da tecnologia e da ciência neste início de século.
Destaco, portanto, na elaboração deste trabalho, a importância da configuração do mito edípico no psiquismo humano e a constituição do espaço triangular (Britton), como pedra fundamental no processo de desenvolvimento. Na constituição desse espaço a figura do pai, ou o masculino opera como ponto de equilíbrio e equidistância entre a criança e a mãe ou o feminino, obstruindo a fusão e a confusão entre ambos, dando nascimento à percepção das diferenças e à simbolização.
Enfoco, por esses motivos, o trabalho sob três vértices: a) o vértice mítico, enfatizando duas figuras míticas ancestrais: a Esfinge tebana, enigmática e devoradora, e a Esfinge egípcia, guardiã do túmulo dos reis; b) o vértice da teoria psicanalítica; c) o vértice da clínica psicanalítica, focalizando a história de Dario, o menino que apresentava sintoma de mudez escolar e que, por meio de sua análise e de sua produção gráfica, conta-nos todo o seu drama na tentativa da configuração de seu espaço triangular e da sua situação edipiana em sua família.
 
Possibilidades de pesquisa em psicanálise*
Vera Regina J. R. M. Fonseca**, São Paulo
Vera Sílvia Raad Bussab***, São Paulo
Partindo do pressuposto de que a psicanálise deve buscar os métodos de investigação mais adequados a seu campo, o artigo apresenta resumidamente as características da pesquisa qualitativa, sugerindo que se estude mais os recursos de tais métodos de modo a podermos utilizá-los em nossas pesquisas. Em seguida é discutido o material clínico de uma criança com Transtorno Global do Desenvolvimento, abordado tanto pela psicanálise quanto pela etologia, como exemplo de uma das várias formas possíveis de se fazer um estudo qualitativo em psicanálise.
 
Pesquisando a pesquisa em psicanálise*
Theodor S. Lowenkron**, Rio de Janeiro
Considero que o método de investigação ocupa a posição primordial em relação aos três sentidos propostos por Freud para psicanálise - método de investigação, forma de tratamento e teoria -, bem como admito considerar a psicanálise uma ciência empírica, remetendo a representação da empiria, particularmente, ao campo da transferência.
Segundo Cooper, entretanto, a pesquisa empírica consiste no estudo sistemático de qualquer fenômeno realizado por meio de uma metodologia que permita alguma forma de análise estatística e que forneça elementos que possibilitem a outros tentar replicar a experiência. Wallerstein e Green ilustram exemplarmente a polêmica que essa concepção de pesquisa empírica suscita em psicanálise. Herrmann considera que pesquisa dita empírica em psicanálise é tentativa de imitação do modelo positivista de erradicação de desvios interpretativos do pesquisador, o que preside esse tipo de pesquisa é a verificação objetiva e o fascínio por experimentos quantitativos, que não passa de uma certa nostalgia da ciência natural, do desejo de substituir o método psicanalítico pelo método de verificação quantitativa. Já Renato Mezan delineia duas direções para a pesquisa em psicanálise: a vertente incluída nos programas universitários, cujo objeto de pesquisa é constituído, principalmente, por textos, e a vertente do modo de produção dos conhecimentos psicanalíticos de Freud, Kohut e Green. A coesão interna, a comunicabilidade, a verificabilidade e a cumulatividade aparentam a psicanálise às formulações científicas e os aspectos da prática terapêutica a aparentam às artes e à ourivesaria. A contribuição de Birman ao debate valoriza, por um lado, o espaço psicanalítico não por sua exterioridade, mas pela dimensão básica do processo psicanalítico e, por outro, a interdisciplinaridade para o avanço do saber psicanalítico, afirmando que é a experiência psicanalítica que tanto define a direção da pesquisa em psicanálise como admite diversas possibilidades de clínica.
Com minha experiência em pesquisa, e a reflexão teórica apresentada, insiro-me neste debate posicionando-me com Freud: se a experiência estiver alicerçada nos conceitos fundamentais da psicanálise - o inconsciente, a resistência e a transferência, qualquer linha de investigação tem o direito de chamar-se psicanalítica. Enfim, trata-se primordialmente de qualidade e não de quantidade.
 
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