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Sumário
 
Editorial
João Baptista N. F. França - 217
 
Artigos
Psicanálise pós-moderna
Arnold Goldberg - 219
A regra fundamental e a situação de análise
Jean Luc Donnet - 227
O vínculo e o outro
Isidoro Berenstein - 243
Repensando a educação psicanalítica
Elias Mallet da Rocha Barros - 253
Revisitando os sonhos e o sonhar: de Freud a Bion
Martha Maria de Moraes Ribeiro - 265
Uma experiência transdisciplinar entre psicanálise e crítica literária:
sobre "O cavaleiro inexistente", de Ítalo Calvino
Stefania Chiarelli, Paulo Luis Rosa Sousa - 283
Indivíduo - universo dos mitos
Armando Bianco Ferrari - 305
Mater certa, Pater incertus. Sobre a possibilidade de exercer a função paterna
Iara Spada Bondioli de Souza Noto - 317
Transferência e contratransferência como fatores da transiência
José Américo Junqueira de Mattos - 335
Interpretação: revelação ou criação?
Ana Maria Andrade de Azevedo - 359
Leonardo, Freud e nós: um vôo imaginário entre telas, lentes e espelhos
Raul Hartke - 375
 
Resenhas
From Oedipus to Dream
Mauro Mancia - 393
Transformatividade
Silvana Rea - 396
Depressão: clínica psicanalítica
Daniel Delouya - 399
Autismos
Leo Kanner et all - 401
Psicanálise fim de século
Carone, I. - 403
Melanie Klein: cierre y apertura
Elsa M. del Valle Echegaray - 406
La sensualidad femenina
Alcira Marian Alizade - 414
Nas encruzilhadas do ódio: paranóia-masoquismo-apatia
Micheline Enriquez - 419
Quando Nietzsche chorou
Irvin D. Yalom - 424
 
Editorial
Neste segundo número do Volume 35, a Revista Brasileira de Psicanálise está trazendo a seus leitores os trabalhos pré-publicados do Congresso Internacional de Nice, cujo tema é "Psicanálise: método e aplicações". Os autores das três conferências plenárias são Arnold Goldberg, Jean-Luc Donnet e Isidoro Berenstein, cujas contribuições abordam o tema de maneira bastante pessoal.
Em seu trabalho, Donnet discorre sobre o método: estuda a questão do inconsciente, associação livre e o paradoxo da regra fundamental; Berenstein fala sobre sujeito, objeto e vincularidade, assunto de seu interesse e larga experiência; Goldberg se posiciona sobre a crise da psicanálise nos tempos pós-modernos, colocando um questionamento das regras e abordando aspectos éticos e técnicos ligados à atuação dos analistas de nossos dias.
Tanto Donnet como Berenstein citam o posicionamento de Freud, de 1922 (o artigo que Freud escreveu para a Enciclopédia Britânica) a respeito do que é psicanálise.
Uma clara definição que temos, tal qual Freud nos legou de forma sucinta e precisa, do que é nossa disciplina, remete-nos imediatamente àquilo que ela não é. A distinção é fundamental e ponto de partida para inúmeros desdobramentos, haja vista a questão das dissensões, problema que Freud viveu e teve de lidar politicamente para a proteção do método e das idéias, de acordo com a natureza de suas descobertas. Na época, Freud argumentou que as pessoas que usavam o termo psicanálise para designar idéias e práticas diferentes daquelas que introduziu, deveriam escolher outro termo que os representassem, e criou um organismo internacional para defender a continuidade de suas idéias.
No Brasil, as Sociedades de Psicanálise e Grupos de Estudos que seguem uma formação psicanalítica rigorosa baseada no tripé análise didática, supervisões e cursos, reuniram-se, constituindo a Associação Brasileira de Psicanálise.
Ao fato da delimitação do que o termo psicanálise designa não ter conseguido evitar o mau uso de mesmo, se acresce a banalização de que tem sido vítima, situação incômoda que fica um pouco amenizada ao lembrarmos que a compartilhamos com artistas como Beethoven e Leonardo, cujas obras (haja vista a Pour Elise e a Mona Lisa), se popularizam em detrimento de uma justa apreciação.
Mas há aspectos positivos no sucesso que acompanhou a difusão da psicanálise: seu reconhecimento cultural e científico permitiu que os analistas que a vivenciam se relacionem com outros campos do saber humano, como o estudo das artes, literatura, filosofia, além do berço no qual ela nasceu, a medicina, levando a interface e articulações, com potencial de fertilização e desenvolvimentos.
A necessidade de interagir e de nos voltarmos para as Universidades vai se contrapondo ao caráter quase religioso e fechado que muitas Sociedades de Psicanálise acabaram por adquirir ao longo de suas histórias, assunto que tem preocupado nossos associados e suscitado inquietações, particularmente devido as grandes mudanças culturais e socioeconômicas que atravessamos: não podemos mais nos isolar.
Método psicanalítico, teoria e técnica, por um lado; expansão e aplicações por outro; nesse contínuo nos movimentamos e sobre boa parte dessas questões apresentamos este número a nossos leitores.
Ainda a respeito do congresso de Nice, trazemos neste número o trabalho de Elias M. da Rocha Barros sobre educação psicanalítica, a ser apresentado no Pré-Congresso Didático. A difícil arte de preservar nossos conhecimentos e, ao mesmo tempo, nos abrirmos para novas idéias e contextos estão presentes nas discussões sobre formação.
Alguns dos trabalhos que a seguir apresentamos versam sobre teoria e técnica analítica, como nos trazem as considerações de Ana Maria Azevedo e de Martha M. de Moraes Ribeiro a respeito da interpretação, assunto sobre o qual apresentam vértices atuais em confronto com pontos de vista clássicos.
Sobre clínica psicanalítica, temos as contribuições de José Américo Junqueira de Mattos e de Iara B. de Souza Noto. Junqueira de Mattos nos transmite sua longa experiência de vida, tomando como base sua análise com Bion e suas reflexões quase filosóficas; já o trabalho de Iara nos remete à questão da análise de crianças. Quando atendemos adultos, defrontamos-nos com a criança presente no adulto; quando analisamos crianças, o analista tem de se defrontar com a criança que tem pela frente, e com o adulto que cuida ou deveria cuidar dela, em contraponto com os problemas emocionais e de desenvolvimento da própria criança.
A respeito de desenvolvimento, apresentamos um artigo de Armando B. Ferrari, com suas idéias originais, que desenvolveu e ventilou em recente jornada em nosso país.
Temos tido na história da psicanálise muitos autores criativos que se baseiam em nossos mestres e que não representam dissidentes, mas contribuem com idéias originais para a expansão de nosso universo conceitual. As publicações psicanalíticas, como a nossa Revista, prestam serviço com a divulgação de novas idéias.
A incerteza de nossa disciplina, e mesmo de nossa profissão, são comentadas no artigo de Ester H. Sandler e Ligia Todescan L. Mattos.
No que se refere a estudos e ampliações além do corpo teórico da psicanálise, a interface com filosofia, literatura e artes em geral tem sido profícua, e uma das questões que nos tem ocupado é a do fundamento científico de nossa disciplina.
O artigo de Paulo Luis Rosa Sousa e Stefania Chiarelli nos traz um interessante estudo transdisciplinar a respeito de um romance de Italo Calvino; a tese dos autores consiste na verificação de pontos de contato entre a análise literária e a psicanálise: um estudo epistemológico envolvendo ambas disciplinas.
Finalmente, temos o artigo de Raul Hartke: uma visão quase onírica, um brincar no túnel do tempo que nos põe em contato com Freud, Leonardo da Vinci e um bom número de autores que discutem o célebre e polêmico trabalho de Freud sobre a recordação infantil de Leonardo, "em meio a telas, lentes e espelhos".
João Baptista N. F. França
Editor
 
Psicanálise pós-moderna*
Arnold Goldberg**, Chicago
Para não ficar na retaguarda do espírito pós-moderno, o autor sugere que os psicanalistas deveriam ser cuidadosos na concordância a um conjunto de regras e/ou a um método peculiar que conduzem a psicanálise. Em contrapartida, apresenta a sugestão de que alguns pacientes se dão bem com certas regras e com outras não, oferecendo um breve relato sobre um grupo de pacientes que não conseguia "viver segundo as regras" para apoiar esse ponto de vista. Sugere que o corolário desse ponto de vista está na capacidade do próprio analista viver dentro ou fora das regras para que seja eficaz com esses tipos de pacientes. A partir desse grupo ilustrativo singular, oferece a conclusão geral de que só a compreensão profunda como objetivo singular seria a diretriz adequada da psicanálise.
 
A regra fundamental e a situação de análise*
Jean-Luc Donnet**, Paris
O método analítico se apóia na capacidade mental de produzir uma seqüência associativa e, posteriormente, em discernir sua lógica inconsciente. Na prática social da cura analítica o método se apresenta como uma re-encenação aperfeiçoada da condição por meio da qual a associação livre prova ser possível, interpretável e benéfica. Existe uma contradição entre a necessidade de se apoiar numa teorização prévia e aquela de propositadamente suspender um conhecimento que possa corresponder à autenticidade de uma experiência. O autor nos relembra as ligações estruturais entre a regra fundamental e as situações definidas em que o processo analítico de investigação transformadora possa ocorrer. Ele levanta problemas que surgem com o método de objetivação inicial por meio do reconhecimento da transferência como objeto fusionado de interpretação. Ele mostra como a transformação do paciente implica a introjeção funcional de vários elementos contidos na cena analítica. O significado dado à expressão "situação analítica" torna-se explícito. O valor crucial do processo de enunciados é ilustrado por meio de um breve exemplo.
 
Revisitando os sonhos e o sonhar: de Freud a Bion
Martha Maria de Moraes Ribeiro*, Ribeirão Preto
A autora demonstra que é significativo comprovar que Freud em A interpretação dos sonhos, ao lançar as bases do que denominou de atenção flutuante, estaria sugerindo aos analistas "a sonharem o sonho do paciente, com o mínimo de censura possível, a cada fração do sonho", sendo esse processo semelhante aos significados sobre a função de rêverie descrita por Bion. Tal descoberta tem provocado mudanças na técnica de interpretar os sonhos na atualidade.
Segundo a grande maioria dos autores que estudam o tema, tal modificação tem ampliado a pensabilidade, influenciando assim na evolução e no desenvolvimento dos casos clínicos, como os discutidos pela autora neste trabalho.
 
Uma experiência transdisciplinar entre psicanálise e crítica literária: sobre O cavaleiro inexistente, de Ítalo Calvino*
Stefania Chiarelli**, Rio de Janeiro
Paulo Luis Rosa Sousa***, Pelotas
Ítalo Calvino, em O cavaleiro inexistente, de 1959, trabalha com um amplo processo de alegorização das personagens, destacando-se em especial a alegoria da branca armadura vazia, que dá conteúdo à ambígua identidade de Agilulfo, cavaleiro das hostes de Carlos Magno. Ambientado no período medieval, o romance capta de imediato a atenção do leitor, ao deixar transparecer uma multiplicidade de temas pós-modernos, como a paródia, a tradição posta ao avesso, o impacto na realidade da imprecisão e da incerteza e, com eles, a atual concepção de caos e desordem, e, ainda, as relações intertextuais. Se tal temática é de interesse para a teoria e a crítica literária, é, de igual forma, para a psicanálise. O gosto e a necessidade de que a psicanálise explore em profundidade suas interfaces com outras disciplinas, tem levado ao desenvolvimento de experiências transdisciplinares, cujos estatutos epistêmicos são ainda incipientes. Por meio do citado texto de Calvino, os autores apresentam um estudo transdisciplinar de teoria literária-psicanálise, examinando uma hipótese de interesse epistemológico, que se utiliza daquelas metáforas que, preponderantemente, se oferecem como "pontos transdisciplinares", isto é, um constructo que permite identificar lugares dos textos/discursos onde há o máximo intercâmbio entre as disciplinas em interface. A utilização desse recurso permite buscar maior rigor epistemológico para estudos transdisciplinares.
 
Indivíduo - universo dos mitos
Armando Bianco Ferrari*, Roma
O autor parte de uma concepção do mito como um artefato humano que expressa o infinito mundo dos sonhos, do imaginário onírico, um composto realidade-fantasia, uma síntese unidade/oposição, uma tensão entre o indivíduo e algo além dele, que marca, de maneira constitutiva e constituinte, a passagem da animalidade para a humanidade. Ao instaurar uma barreira em relação a determinadas funções instintivas, e a discriminação entre consciente e inconsciente, o mito permite o surgimento de artefatos culturais substitutivos, entre os quais o autor ressalta a Constelação Edípica.
Utiliza-se das hipóteses de Max Müller, relacionando o mito à linguagem e ao pensamento, e a origem do mito a uma multiplicidade de significados possíveis que não conseguem expressar total e plenamente a realidade, mas sim a desarmonia e a incompletude do ser humano e de suas relações com o mundo.
Assim sendo, o mito revela potencialidades expressivas e delas se origina, expressando de forma particular o sentido de "religiosidade" do ser humano.
O autor aponta, também, as relações entre mito e ritual, e o perigo de cronificação dos rituais pelos processos de idealização e ideologização que envolvem intolerância com relação a si próprio e aos outros. Dessa maneira, o mito é visto como um símbolo, cujo núcleo transita entre a individualidade e o universal. Ao nível do indivíduo, o autor formula a possibilidade de pensarmos em mitos pessoais, que são a base da criatividade humana e dos arranjos que caracterizam nossa personalidade.
 
Mater certa, Pater incertus. Sobre a possibilidade de exercer a função paterna
Iara Spada Bondioli de Souza Noto*, São Paulo
Este artigo propõe uma reflexão sobre a capacidade para exercer a função paterna. Levanta hipóteses sobre alguns fatores que dificultariam esse exercício, ao mesmo tempo em que ressalta a possibilidade do pai ser uma presença única na estruturação do filho, referencial diferente e complementar ao materno. Um caso clínico é relatado, na tentativa de exemplificar a importância fundamental de uma efetiva presença paterna.
 
Transferência e contratransferência como fatores da transiência
José Américo Junqueira de Mattos*, Ribeirão Preto
Este artigo examina a relação analista-analisando, comumente conhecida como transferência-contratransferência, à luz do conceito de transiência. O autor se baseia no pressuposto de que nascemos com um padrão, na forma de pré-concepções a serem realizadas durante toda a experiência humana. Desta forma, a experiência analítica é ímpar e, entre outras tantas, ajuda o ser humano a se conhecer um pouco mais. O autor enfatiza que a experiência vivida na sessão analítica, como outras mais, é necessariamente transiente. Ela muda a cada instante e nunca se repete!
O autor mantém a posição de que o conceito de pré-concepção de Bion, quando aplicado à relação analítica, leva à conclusão de que o conceito de transferência-contratransferência precisa ser re-pensando e ampliado. O autor também sustenta que para ambos, analista e analisando, a relação analítica leva a experiências que não representam a repetição de padrões do passado, de acordo com o conceito clássico de transferência-contratransferência.
Material clínico tirado de três diferentes sessões, com diferentes pacientes do autor é trazido para exemplificar os conceitos discutidos.
 
Interpretação: revelação ou criação?
Ana Maria Andrade de Azevedo*, São Paulo
Neste trabalho a autora procura examinar a evolução e o desenvolvimento do conceito de interpretação, revendo a posição e a função do psicanalista no campo psicanalítico. Questões ligadas à subjetividade e à intersubjetividade na relação psicanalítica são levantadas, e é proposta a idéia de uma "construção criativa" ao lado de uma noção mais clássica do conceito de interpretação.
Num segundo momento são levantadas idéias de W. Bion em relação ao tema; a noção de rêverie, de evolução, a idéia de "caesura" e de relação emocional intersubjetiva, são consideradas atribuindo na verdade à dupla analítica a tarefa de interpretar. É, finalmente, proposto um modelo que permite uma nova aproximação ao tema.
 
Leonardo, Freud e nós: um vôo imaginário entre telas, lentes e espelhos*
Raul Hartke**, Porto Alegre
A partir do texto de Freud sobre Leonardo da Vinci, e utilizando a metáfora de um retorno imaginário a seu gabinete em Viena, o autor procura colocar em cena os pontos de vista de diferentes analistas sobre objetivos e alcances das construções e interpretações psicanalíticas aplicadas a uma obra de arte. Vislumbra dois posicionamentos básicos, o realista e o subjetivista, encontrando também autores que podem ser colocados entre ambos, em uma terceira posição, sem que isso constitua uma acomodação eclética. Formula uma hipótese relacionando as condições de representação mental da realidade com a constituição caracteristicamente edipiana do sujeito psíquico.
 
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